Welcome to the machine
- Gabriel
- há 1 hora
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Apesar de o contexto da letra ser efetivamente relacionado a outra temática/crítica, gosto demais de Welcome to the machine, e acho relevante referenciar ela nesse momento. Trata-se da segunda faixa de "Wish You were here", disco, que, não tenho dúvida alguma em dizer, desponta como a verdadeira obra prima do Pink Floyd, destronando dois 'adversários' costumeiramente mais lembrados no debate eventual sobre esse pódio.
A machine pensada pelo Floyd tem várias conotações, mas é ilustrada com uma série lúgubre de notas marcadas de baixo e teclado, inserções meio nervosas de sintetizadores e efeitos especiais e adornada por um violão que definitivamente não combina com nada ali, e parece um intruso integrante de um sonho (pesadelo?) no conjunto de sons - não que David Gilmour lidando com as seis cordas não consiga fazer bonito no simples (sua especialidade suprema). Não sei se é impressão, sugestão ou alucinação minha, mas o violão parece mixado em um volume maior, justamente, como se quisesse debater/confrontar o ambiente da faixa. É uma machine que só poderia ser ilustrada na confusão do caldeirão dos anos 70 (meio da década, 1975: o álbum inclusive ganhou ano passado um relançamento/remasterização por conta de seus 50 anos). A música vai aos poucos se tornando uma disputa entre a letra desesperada de Waters (diz-se que pouca coisa no álbum não é dedicada à saudade - literal - e ao lamento sobre a insanidade do ex-membro e ex-amigo Syd Barrett, no que o nome do disco e a faixa título - a única com alguma concessão a mais à candura, ainda que seca, e ao estilo de balada tradicional - faz referência quase inescapável), o violão de Gilmour, e uma loucura labiríntica e meio noiada dos barulhos e efeitos que circundam. Fábrica. Linha de montagem. Autômatos. Frieza. Claustrofobia.
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A machine que se presta à metáfora da canção é um arquétipo de maquinário/maquinação que nada tem relação com alguma distopia tech do nosso tempo, onde nos borramos de medo de um futuro dominado pelas mesmas 'inteligências' a quem confiamos absolutamente todas as informações vitais que por ventura seriam necessárias para sermos facilmente dominados (paciência). Faz, assumo - ou quero, eu - parte de um contexto onde o nível computacional não era nem a expressão maior do que possamos chamar de cibernética no que diz para com fluxos de liberação e brete através de confirmações positivas ou vedações que, ao cabo, ilustram uma espécie de arte de gestão com base em rumos e feedbacks que deriva da palavra grega (kybernétés), que significava o ofício da pessoa que comanda um navio.
É uma machine em um mundo onde o paradigma da maquinação ainda era o símbolo fantástico de uma tecnologia que vai nos levar além (ou para o brejo) e nos diz muito. É a máquina que tanto nos estranha, mencionada por Deleuze e Guattari como uma espécie de explicação quintessencial para o conceito cruzado de desejo, vontade de potência, pulsão vital e descrição orgânica de como opera o núcleo do capitalismo. Ela funciona. Ela não para. Esquisita, e talvez até frontalmente obsoleta para nós, na era das interfaces e das pessoas que conversam, se consultam psicologicamente, louvam como fieis parceiros - e até namoram - aplicativos (e nem precisam ter o rosto do Brad Pitt e fazer promessas de casamento no Brasil para angariar paixonites e suspiros), a noção maquínica anti-edípica emite sons e se permite visualizar na forma primária dos encaixes. Ar-narina, boca-seio-leite, alimento-suco-gástrico-digestão-fezes (a quantidade de menções a ânus e fezes em um livro de filosofia tão consagrado é parte do que o faz marcante). Fluxos. Fluxos iniciados e cortados. Máquinas que se acoplam. Que cortam fluxos. Que se acoplam a outros fluxos. Parece singelo e mesmo simplório (e é, se pensarmos na primeira síntese ou conjunção, puramente aditiva que a noção propõe: acoplamentos lineares que nos constituem e nos possibilitam).
Temos ainda (em termos de corpo, mente, sociedade) muito da máquina que faz barulhos e emite pareceres binários e luzes confirmativas/negatórias. A máquina, enquanto coisa, enquanto conceito, ainda faz sentido. The machine.
Não é uma "inteligência" que nos fascina e nos engana: não é um animal sedutor e astuto. É um tubarão: é frio, não tem expressão, se movimenta, se direciona, ataca, mastiga (cumpre função mecânica), torna a se movimentar. Processos. Parecem assustadores eis que automáticos, inevitáveis.
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Não sei se por influência, concomitância, coincidência ou um misto de todas essas, nesses últimos tempos onde tenho finalmente (sempre é tempo, na vida) incorporando o - para mim, vindo do direito, ainda que com estudos, interesses e desenvolturas interdisciplinares inatas - estudo dos dois pensadores franceses e sua gama de conceitos muito particularmente assentidos em meus interesses e vocabulários, me deparei, na última Bienal do Mercosul, na parte da exposição sitiada no Farol Santander, com a obra do coreano Yunchul Kim e especialmente com sua montagem denominada Dust of Suns II - fotos facilmente encontráveis na pesquisa de imagens mais próximas de você, ainda que, como quase qualquer obra de quase qualquer museu, não chega a um mísero onze avos de ver ela frente a frente.
Dust of suns II está ligada a uma alimentação elétrica que se dissipa em um sem número de fios bombeando energia para mover com pulsos algumas telas de cristal líquido iluminadas (pouco provável imaginar material mais obsoleto que um dia representou inovação e terminou nos anos 1980 ornando quadros "móveis" que se comprava em camelô e mini-games de igual procedência). Seu emaranhado de cabos que ornam a estrutura (alguns devem ser para algum tipo nervoso de figuração) dão um ar ainda mais caótico àquela máquina que produz (no sentido deleuzo-guattariano) ainda que não necessariamente produza no sentido raso e estrito de algum produto táctil ou monetizável. As cores geradas são datadas (neons e nublados furta cor que igualmente clamam por alguma outra época).
"Vibe Coding" uma pinoia. Dust of suns II está viva e não há exato controle do artista sobre o que e com que tonalidade e luminescência será produzido ao longo de uma exibição (produção-distribuição-consumo: a releitura marxista promovida pelos autores misturada com os fluxos do desejo desde um inconsciente sugerida pelos autores, ilustrada de forma tétrica e enigmática, embora notadamente certeira). Pulsos. Eletricidade (outro conceito que parece datado sob certo aspecto, recuperado com todo seu esplendor por Lynch na maravilhosa, embora difícil para não versados ou não-fanáticos, terceira temporada de Twin Peaks). Ainda somos rodeados de máquinas, tipo machine.
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Quando o doutor me encaminhou um pedido para 'ressonância magnética" eu confundi com "tomografia", que eu já havia feito duas vezes em outras ocasiões quando de outros exames. Pensei que era barbada, apesar de envolver o abdome e, por isso, ter, necessariamente que lidar com a leva de preparos, remédios específicos, jejum e incômodos do tipo. Mas nada, também, nível alarmante como as terríveis endo e colonos copias ("been there/done that") e a paralisação momentânea da sua vida normal que elas requerem na semana fatal.
Porém, depois de já marcado o exame é que me atentei da questão: "Ressonância Magnética". O fatídico exame onde uma cama móvel te lança para dentro de um tubo apertado tal e qual o cadáver embalsamado da múmia por sabe-se lá quanto tempo, a mercê de disparos invisíveis enquanto um líquido viscoso que deixa todo seu interior parecendo uma árvore de natal corre por toda extensão de sua carne.
Estava com medo. Não que algo terrível fosse acontecer, mas a possibilidade de ficar socado em um aparelho apertado com pouco espaço para o diafragma e com um 'teto' quase no meu nariz começou a se desenhar incômoda. Eles estão ali fora e monitorando tudo, mas o quanto sozinha fica (se sente) a pessoa dentro do tubo? Apertar uma campainha que te dão na mão, ou mesmo gritar por socorro, adianta? Lembro de um ex-chefe que acordou um dia com uma paralisia facial daquelas de "olhar para dentro do freezer no verão" (lenda? fato?), e por via das dúvidas foi fazer um procedimento desses para ver se não era um eventual derrame e narrou que além do pavor da intriga, pela situação em si, ficou desconfortável em dado momento e chamou por uma ajuda que parecia não vir durante o exame.
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Imaginei pessoas soterradas ou aqueles que escorregam tal um gato para dentro de fendas ou buracos (mas, ao contrário do gato, não saem). Pessoas entaladas. Pessoas no abismo, no buraco, no fosso. "O Resgate de Jessica" (um dos traumas de toda uma geração). A sensação tão ruim que mesmo experienciada controladamente em ambiente vigiado evoca algo desesperador.
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Depois de dois dias de 'preparo' via remédios e recomendações de jejum, e de uma incômoda inserção de um cateter volumoso na veia para passagem do líquido do contraste vestindo um avental meio bizarro, cerca de 40 minutos antes do start, a primeira novidade (boa?): como meu exame era de abdome e pelve, eu não ia entrar no cilindro como um cadáver a ser emparedado, mas com os pés, o que significava que minha cabeça ou ia ficar boa parte do tempo para fora, ou, ao menos, o meu cucuruto ia ver a luz do dia em boa parte do evento (luz do dia em sentido ironicamente acurado, dado que o teto e as paredes da sala do exame são forradas com motivos em imagens de um parque ensolarado, um lago e folhagens).
Assumida essa tranquilidade inicial, o que se sucedeu foi um festival meio notável de barulhos, ruídos, alertas evocando várias partes da machine (acoplamentos acoplados a outros: feixe, produção, resultado, corte, interrupção, reinício). Alguns pediam interação - respire fundo...segure...respire normalmente - via uma voz etérea e automática (máquinas, mais máquinas) em um fone de ouvido. Barulhos sucessivos. Alguns ritmados. Outros cacofônicos. Alguns com um estranho padrão identificável depois de algumas dezenas de minutos. Outros tais 'solos' incômodos e disformes.
Decidi que ia experienciar com curiosidade e complacência o tempo obrigatoriamente perdido ali, e que ia usufruir tentando trazer para mim mesmo algum significado artístico eventual.
E foi assim que fingi que estava diante de uma obra com proposta, tal uma instalação contemporânea, ou uma exibição de música eletrônica experimental. Recepcionei cada ruído, vai e vem da cama, ingressos (houve dois, profundos) no cilindro, e saídas, padrões e sons invasivos dessa maneira. Como quem está diante de uma exposição vanguardista. Fiz conexões entre os sons e alguns eu até adivinhava quando iam se repetir em dados momentos. De forma intrigante, houve uma acoplagem maquínica (e uma produção) que não disseram respeito, naquele momento, às informações de imagem do meu abdome superior, e sim uma outra produção de fruição estética e sensorial. A máquina se acoplou de outro jeito, viu seus fluxos surgirem alternativos para outra coisa. Entretenimento (inegavelmente aconteceu, foi gerado, produzido).
Não sei se é estranho dizer que: curti (minha outra opção enquanto ia para a clínica era lembrar de Arma X, de Barry Windsor-Smith e talvez brincar que eu seria o Logan submetido a testes laboratoriais excruciantes e que eu teria que de certa forma ser resiliente a ponto de aguentar, como em um desafio ou gincana, a inserção de adamantium na minha medula). Não foi preciso. Máquinas. Fascinantes.
UM DISCO: fica meio óbvia a dica para que você faça algo cada vez mais raro na era do super-aproveitamento de tempo e das "multi" tarefas, mas experimente escutar Wish You Were Here de olhos fechados, deixando os primeiros acordes de "Shine On..." até sua repetição nas outras partes inundarem você, prestando atenção nas nuances sonoras e nos "efeitos práticos" já meio datados com a estereofonia (fones de ouvido ou uma caixa de cada lado da cabeça são especiais, aqui). A edição especial dos 50 anos vem com muita coisa interessante, extra, mas a força das cinco faixas originais não será superada jamais. Dentre os extras no "disco 2", há mais duas versões de Welcome... batizadas de "The machine song", que igualmente evocam esse ar tétrico de modo primoroso.
UM FILME: gostei de Springsteen, Deliver me from Nowhere, embora tivesse algum medo quanto a essa febre de cinebiografias cometer algum desatino muito constrangedor (a do Bob Dylan e a do Ney Matogrosso passaram no teste, com louvor, a meu ver. Esse anos teremos uma do Michael Jackson, perigosíssima). Não é um grandioso filme digno de nota, mas se você, especialmente, gosta do álbum Nebraska, e sabe da forma peculiar com que foi gravado e o que representou na linha artística de Bruce Springsteen, você tem aqui uma espécie de "biografia do disco". Achei bacana o fato de o Jeremy Allen White não ser parecido fisicamente com Springsteen (fora sósias e cinematografias de "espelho", sem proposta), mas ter estudado de forma bem sincera os trejeitos faciais do cantor.
UM LIVRO: arriscando a fazer bocejar as pessoas que não são fãs de quadrinhos, a citada Weapon X, concebida (roteirizada e desenhada) pelo britânico Barry Windsor-Smith em 1991 (hoje, à venda em formatos encadernados) é uma das mais empolgantes releituras de origens de personagens (super) heroicos: a mitologia do Wolverine, de mutante meio selvagem/xucro de cidadezinhas nevadas no Canada, até ser cativo de um projeto governamental que amplificou sua letalidade, interferindo na constituição óssea de seu organismo é retratada de forma que passou a ser canônica. Os testes feitos com ele (como na cena em que é largado nu, ao relento, para enfrentar lobos famintos) e a crueldade laboratorial (da qual, percebemos que a qualquer momento ele vai se vingar) são pinceladas com crueza e com uma representação de violência difícil de não dizer que é empolgante.