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Reflexões, divagações, pensamentos, fluxos de consciência, cotidiano. Toda semana um texto novo

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Eu ando pelo mundo, prestando atenção em cores que eu não sei o nome


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É impressionante como eu gosto de pessoas.


Pessoas me emocionam, me comovem.


Esses tempos estive prestando condolências no velório da mãe de um amigo: as flores, o ambiente do lugar, as palavras do condutor da cerimônia, o padre prestando bençãos ecumênicas, a música do Roberto Carlos, nada me emocionou/comoveu além do normal de se estar em uma situação dessas oferecendo apoio. Mas quando os familiares foram convocados para se aproximarem do caixão antes de o mesmo ser conduzido mecanicamente para desaparecer em uma parede, desde onde iria para o procedimento da cremação, e eu vi aquela quantidade de pessoas abraçadas ombro a ombro em uma espécie de última comunhão com alguém que partiu, pensei que fosse eu mesmo desfalecer. A perna tremeu. As pessoas, juntas, sofrendo e se confortando ao mesmo tempo. Pessoas. Mais bonito e poderoso do que qualquer outra coisa.


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Na semana passada foi sexta-feira santa e esse dia já foi dia de eu estar correndo com um skate pelo bairro aproveitando o feriado, já foi dia de eu viajar com meus pais, já foi dia de eu estar em alguma praia em algum lugar com amigos apinhados até o teto do carro e dormindo até de baixo da mesa. Ultimamente, é dia de descanso, e só.


Quando estou em Porto Alegre (o que passou a ser mais comum nos últimos tempos), nessa data, aproveito volta e meia para participar de um curioso evento em forma de cortejo (que, aliás, nunca acompanhei inteiro, e, sim, entrecortado: às vezes o início, às vezes o miolo da caminhada, preferencialmente, o final): a celebração da "paixão de Cristo" no Morro da Cruz, onde, após a missa rezada lá em baixo, no Partenon, na Igreja do Murialdo, o vereador Aldacir Oliboni (PT-RS) encena Jesus (ele está no 'papel' há incríveis 45 páscoas) na via crucis pelas ruas do bairro e pelas ladeiras e escadarias vertiginosamente íngremes da rua Santo Alfredo (que a certo momento dá a impressão de ter 90 graus), até chegar no topo do morro, na Igreja Santa Cruz, onde, na pracinha contígua, se encena a crucificação do Nazareno. A encenação é caprichada com atores espalhados por vários pontos estratégicos da evolução: soldados romanos trajados vão chicoteando o Cristo por todo o percurso, e há momentos em que há texto/falas ensaiadas, como em alguma altura da subida onde há seu encontro com Maria Madalena, que lhe lava os pés como prescrito no livro.



Fico encantado com esse tipo de coisa, mas mais ainda a multidão que se eriça a ponto de encarar uma subida que mesmo eu e meu "histórico de atleta" apanhamos para dar por vencida - até porque não raro o faço dentro de algum passeio exploratório de bicicleta que programo para aquela tarde. Sim: curiosos, devotos, moradores do bairro ajudando na organização do evento, galhofeiros que lá estão pelo agito, jovens que curtem a função e ao menos um demente empurrando uma bicicleta rosa morro acima são vistos na jornada, que é cumprida com fôlego impressionante pelos atores principais e especialmente por Oliboni que, como manda o figurino, carrega sobre os ombros sua sina em formato cruzado e arrasta sua base pelos paralelepípedos por todo tempo.


Na pracinha, no topo, há toda uma outra multidão que já está de prontidão para aguardar os melhores lugares do mirante que fica no terraço da capela, para tirar as melhores selfies com o por do sol ao fundo e/ou para guardar lugar junto à grade que serve de murada onde se terá a melhor vista do clímax do espetáculo (os dois ladrões que serão crucificados e perdoados por Jesus, no ato, também comparecem na pele de atores que igualmente apanharam dos soldados e andam amarrados por pesadas cordas ao longo de toda subida).


Eu quero chegar antes. Pra sinalizar o estar de cada coisa. Filtrar seus graus


Sempre me detenho olhando as pessoas.


Dessa vez, na praça, uma agito ainda mais elétrico e notável que em outras vezes: constatado esse como um dos grandes eventos do Morro no ano, e considerando que muita gente aproveita para matar uma certa curiosidade e subir lá pela primeira vez em um estado de ambiente tranquilo, em termos (o Morro da Cruz já foi até mais conhecido por sua periculosidade criminal na capital gaúcha. Hoje não é exatamente o lugar que ocupa os topos do ranking, mas com suas vielas, e especialmente com algumas que se articulam desde as várias bases de saída/entrada dele, lá em baixo, convém não brincar), o lugar está em legítima festa.



Jovens visivelmente trajados de gala para ocasiões especiais (para os meninos: bonés reluzentes, óculos de lentes caleidoscopicamente coloridas, camisas de times da NBA ou de equipes de futebol europeu, na estica; para as meninas: croppeds, jeans baixo e justo, piercings e cabelo preparado) inundam o campinho, rindo e falando algo. Bebem kits de destilados duvidosos. Fumam maconha. Fazem algazarra. Se misturam de forma homogênea, inerte e pacífica às famílias que ali estão mais preocupadas com a fé e com a liturgia da história que é contada e recontada há quase dois mil anos (se os relatos estiverem certos, o homem nasceu em '1', e foi supliciado quando tinha '33'). Crianças se refestelam nos brinquedos e equipamentos do descampado. Em um balanço, um garoto parece que vai levantar voo, dado que se impulsiona como se quisesse partir dali direto para a órbita. Consigo essa foto e me orgulho.



Eu ando pelo mundo. E os automóveis correm para quê? As crianças correm para onde?


Jesus enfim desponta no beco estreito após mais um lance de escadarias que margeiam essa parte plana do topo do morro e alguns aplaudem e outros seguem espantados pela crueldade do ato, que, mesmo encenado, causa espécie. Ele para para falar com uma criança no colo de uma mãe (concepção magnífica de improviso condizente com o personagem) para logo depois levar mais uma saraivada de chicotes dos centuriões que sem piedade conduziram ele e os outros condenados para o ápice do roteiro, vivificado nas cruzes (essas, de alumínio pré moldado e com reentrâncias que possibilitem a amarração de cordas que vão simular o apregoamento) que já estão postas de modo idêntico - à exceção da do meio que ostenta a famigerada placa onde se lê "Inri", como manda o figurino.



O meu espetáculo é outro, no entanto: fico imaginando a excitação dos moradores quando o seu bairro vira uma espécie de centro magnético de atenção, ainda que passageira. O grau de emoção que dá, mesmo um evento passageiro e espaçadamente sazonal, e toda a graça e a tensão de uma rotina alterada. Gente acumulada de forma incomum. Os preparativos dos vendedores e donos de estabelecimentos. Pipoca, lanches, latão - churrasquinho (apesar de ser vedado na data para alguns, em homenagem, justamente, ao sofrimento em sangue vivenciado pelo cabeludo ali presente). Alguns guris tentaram comprar minha bicicleta e me ofereceram algumas notas "da galinha" (tem lugares onde a nota de R$ 50 é chamada de 'galo' dada associação com o número, no jogo do bicho). Respondi que não estava interessado. Aumentou a oferta de "galinhas" por outro - eles sempre abrindo as pochetes para que se visse o maço de notas. Respondi que ia pensar, rindo, com deboche, o mesmo riso deles. Logo um grupo de meninas passou subindo a escada do mirante e a atenção deles para mim e minha bicicleta se esvaiu tão rápido quanto surgiu. Muita polícia no local, em viaturas que monitoravam o cortejo e mantinham uma espécie de distância simbiótica do epicentro da festa, como quem avisa que está ali, ao mesmo tempo em que o deixa respirar, não sem um certo ar de quem gostaria é, muito, de comprar uma lata e beliscar um coraçãozinho no espeto (não gosto de coraçãozinho, mas, maldição, cheirava bem aquele ali quase ao lado. Com uma farinhazinha de mandioca, interessante).


Pela janela do quarto. Pela janela do carro. Pela tela, pela janela. Quem é ela, quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado


Por mais que admire todo o esforço da produção desse evento teatral-religioso ao ar livre de proporções bastante significativas em cartaz há tantas décadas consecutivas, posso admitir sem problemas que a essa altura já não me interessava mais o desfecho (já conhecido) do suplício de Jesus (até porque no domingo subsequente ele - spoiler - ressurge deixando o sepulcro vazio e subindo aos céus redentoramente).


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(Lembro da ex namorada de um amigo meu, de criação judaica, mas orientada de forma ateísta, que, na época do filme do Mel Gibson, comentou, em uma mesa de bar, que algo a dizia que aquela cena final era a deixa para que houvesse uma sequência do filme, eis que muito estranho o corpo de Jesus não estar lá no local onde fora depositado. Rimos muito aquela noite. Ela não gostou).


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De sobremaneira, me interessa justamente esse entorno.


Não gosto das vias expressas e de linhas retas. A mim interessam as curvas, as vielas, a cercania, os mercadinhos, as praças com coleiras enferrujadas. O imaginar de como é o cotidiano naquele lugar. Ver as pessoas transitando. Turismo de imersão na própria cidade. Exercício filosófico. Realidades virtuais imaginárias/especulativas sobrepostas ao que é real: a verdadeira forma de 'realidade aumentada'. Divagar sobre e desde o que está ali. Ver a vida acontecendo nesse tipo de coisa. Imaginar a experiência de êxtase com a novidade, pensar no que estariam pensando os jovens que saíram de casa não como em uma sexta feira qualquer, mas que se arrumaram e encheram a pochete 'da galinha' (não quero elucubrar sobre como conseguiram aquela quantidade de dinheiro vivo, aqui) pensando em um fim de tarde como, agora, um curioso campo de possibilidades. A energia diferente, palpável que um encontro de corpos que se espremem, se pecham, se roçam causa e a fisicalidade dessa manifestação fundando, refundando, conformando a própria hipótese e a própria noção abstrata de encontros. Judith Butler e Verónica Gago (duas de minhas autoras preferidas) me entenderiam, aqui - ambas escreveram estudos que são, em algum momento, odes à potência de metamorfose causada pelo verdadeiro empuxo magnético desse tipo de evento, inegavelmente insuperável e insuperado por qualquer versão de reunião de outra forma, onde pessoas só estão presentes em espírito (quiçá nem isso) e avatar. É preciso se reunir da forma que for, mas há uma política, uma ética, uma estética e um grau de aquisição a mais quando se afunila por uma escadaria diminuta para se chegar a um mirante, quando se caminha de forma ritmada para vencer uma subida que parece que vai se agudizando a cada metro vencido, quando se está lá para levar a sério uma peça que usa a rua, o asfalto, os becos e praças como palco, pervertendo a arma secreta de qualquer teatro que é a imersão guiada por luzes cortinas e avisos. É uma peça que usa a rua e as pessoas ao redor o tanto quanto elas a sorvem. A vida segue, os barulhos seguem. Ninguém pede silêncio porque a peça é mais um elemento de um outro espetáculo que muitos não percebem assim, mas que o é. Grandioso.


UM LIVRO: dois, na real. Aproveitando a citação feita, La potencia feminista - o el deseo de cambiar todo (uso o título em espanhol porque essa é a edição que eu manuseio e é a que está mais facilmente disponível na web - aqui, por exemplo - de Verónica Gago é um primor em vários sentidos, inclusive naquele que me agrada de sobremaneira por trabalhar com uma gama de autoras e autores que em larga maioria me são queridos e familiares). Inclusive com Butler que em Corpos em Aliança eleva a análise do direito, da filosofia, da estética e da política das reuniões e assembleias a um nível profundo e surpreendente.


UM DISCO: me rendi à coqueluche geral e fui conferir o Volume II do Angine de Poitrine, essa dupla extremamente excêntrica e incomum de músicos canadenses não identificados que faz algo que não sei se é rock experimental, se é jazz fusion de vanguarda, se é música progressiva criada em meio a um surto psicótico ou se é uma grande pândega propositalmente freak. Mas que é incrível pensar que uma dupla promove sozinha aquele carnaval entre sons orgânicos e sintetizadores e variações de modulações de timbre, isso é. Talvez demore para se acostumar, mas dura pouco tempo. A viagem depois vai fácil.


UM FILME: ---nada--- no quesito nessa última semana. Pouco tempo para. No máximo um que outro episódio da série do Demolidor (um dos meus heróis prediletos e que teve uma temporada inicial que não me empolgou nada e me fez ingressar na segunda apenas na base do carteiraço).


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