- Gabriel

- há 18 horas
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Aquela coisa da "fábrica do sujeito neoliberal", de uma parte do final do livro aquele que do Dardot e do Laval que provavelmente você sabe qual (que, brincando, completará duas décadas de lançamento em breve, embora a bem sucedida edição brasileira tenha metade disso), onde há a discussão/crítica do firmware do "empresário de si": é tanto uma coisa inegável quanto uma coisa que já está chegando no ponto do tipo de chavão teórico que me enerva (estágio dois), até passar para o estágio final, que é quando os chavões teóricos começam me dar raiva ao mesmo passo que parecem já estar completamente possuídos pela aura estereotípica do lugar-comum de tal modo que meio que não mais significam nada.
É mais ou menos o que aconteceu com aquela montanha intragável de baboseira medíocre que caracterizou os últimos quinze anos da produção do Zygmunt Bauman, e aquela papagaiada atroz sobre as coisas (tudo) "líquidas". A proposta é interessante, de início, mas incorre em dois problemas básicos: a) deixa, rápido, de ser, em si, uma linha ou chave de leitura político-histórica-cultural para virar uma espécie de adjetivo acoplável a absolutamente qualquer coisa (o que prova o tom farsesco da análise) e, b) acredita por demais em si mesma e em sua própria suposta perspicácia de tal modo que se crê imune à corrosiva passagem do tempo que ela mesmo delata enquanto ultraje.
Poucas coisas são mais dignas de pena do que o final da carreira de Bauman, que transformou a arte do meme do "old man yeld's at cloud" em uma espécie de impressora mental passível de ler e publicar (em série) uma série de especulações completamente anacrônicas, que possuem um teor tóxico e indigesto de melancolia saudosista apaixonada por um mundo fordista quando simplesmente pensam que estão gerando bons conselhos.
É sinistro quando uma teoria se amortiza, quando uma ideia potente se domestica, se adocica, vira cover de si mesma e - o destino mais funesto de uma teoria - passa a virar um arroz de festa inofensivo, indo morar numa espécie de "retiro dos artistas" das teses, onde recebe abanos de longe de muitos, em um gesto meigo (e algumas visitas de alguns fanáticos que ainda acreditam).
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A "fábrica do sujeito neoliberal" e o "empresário de si" viraram clichês over na medida em que geralmente são a parte mais exterior - epidérmica - e, tranquilamente, a mais exemplificativa e sensível das digressões que se pode ter a partir da leitura da racionalidade neoliberal desde a dupla francesa de autores. Aliás, não raro, é a parte onde se engancham a maioria das leituras meio rasas desse conjunto de teses, eis que é a que traz a coisa mais malditamente cotidiana possível.
Está quase, como eu disse, chegando no nível Bauman Líquido em termos de uma mania de citações já por osmose ou inércia, mas guarda em relação a esse um trunfo ainda vigoroso: é por demais real. E, ainda, sim: atual. Segue descrevendo boa parte das coisas, direitinho.
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Dia desses passou por mim - o termo, na velocidade das redes sociais é esse - um post de um influencer convocando uma movimentação política específica, que se encerrava com o previsível alerta de que "amanhã no canal terá vídeo a respeito" (ou "amanhã no meu Insta farei live para comentar", e que bem poderia ser "vou lançar texto no Substack amanhã sobre" - dá no mesmo).
Não costumo 'acompanhar' o sujeito - o que, igualmente, na configuração eminentemente metropolitana das redes (esquina movimentada em Shibuya) não significa nada porque a postagem passa por mim, como um ônibus na avenida veiculada por alguém que eu conheço (ou, na dinâmica de uma outra rede lá, que não mais utilizo, é inclusive, pelo visto, aparecer em meu feed uma postagem de alguém que eu jamais vi do que de alguém que eu sigo). Mas nas vezes em que vi seus escritos, a onipresença meio neurótica da 'chamada' a respeito de alguma coisa, alguma lição ou opinião a mais, algum tipo de vaticínio (a forma como a palavra conteúdo se transformou até significar basicamente qualquer tipo de preenchimento de atenção, negando de certa forma seu teor gramatical é fascinante) sempre me chamou a atenção.
Não há nenhuma coisa solta, nunca. Não há nada espontâneo. Parece aquelas publicidades caricatas/ruins de filme - como a esposa de Truman mostrando para o Jim Carrey uma caixa de cereal de chocolate em meio a uma DR pesadíssima do casal. Não tem um "olha aqui a muqueca que minha mãe fez", "olha esse gatinho no sofá", "meu time venceu, êba". É sempre uma conexão com alguma coisa que possa puxar um gancho útil para performar ou para tentar vender algo. Sim, porque é, em última análise metafórica, tudo à mostra. À venda. Do sofá ao gato. A muqueca nem se fala.
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Vende-se. Tudo. Todos. O tempo todo as pessoas parecem procurar alguma maneira de promover algum tipo de hacking em relação à sua curiosidade ou a algum estímulo que a atraia para uma espiral de 'conteúdo'. As pessoas cujo 'conteúdo' é a crítica da dinâmica própria do neoliberalismo e sua fábrica só fazem o tempo todo comprovar a tese, em si mesma. Trabalho. O tempo todo trabalho. Tudo visto como trabalho em sua possibilidade de ganho e "agregar" de valor(es). Tudo visto - mais - como uma espécie de investimento financeiro, mais etéreo ainda do que a financeirização gamificada da "Bolsa".
A "Bolsa", e a incrível e curiosa forma como as pessoas nela giram durante todas as horas de todos seus dias com números abstratos que são reais na medida exata e exclusiva em que se convencionou que são. Um país quebra (não quebra, de verdade). Uma empresa ganha um glow (porque assim as pessoas decidem que). Um homem amontoa três trilhões em um dia, e perde dezesseis bilhões em outro (na base de um dinheiro que não foi realmente transferido a ele no ganho, não saiu realmente de seu cofre na crise e, em linhas gerais, nem existe).
As pessoas ganham status na base da tentativa desesperada (e por vezes constrangedora) de viralização. Hit, trend. Verdades se constroem assim e não são menos sólidas do que outras. É o jogo. É o game. Pessoas em alta. Pessoas em baixa. Pessoas procurando incorporação por pessoas maiores e com mais acionistas. Pessoas que não cortam o cabelo: mudam o layout, a logomarca.
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Mas realmente me desperta muito a vontade de conversar sobre o fato de que as pessoas não parecem dar bola para um proceder cotidiano que a todo tempo é uma espécie de agir como se todos estivessem em uma selva de reality show enfrentando oponentes (não raramente modelos imaginários de desafios a ser superados). É o panorama da competição incrustrado na racionalidade que se fez normalidade, descrita por Dardot e Laval. Todos vendem a todo momento o pack de estratégias para se parecer que venceu, que superou o inimigo (real ou inventado) - e parecer que venceu é um começo, mas pode ser o fim em si mesmo.
E é tão triste quando as pessoas basicamente são engolidas por esse modo e passam a viver uma vida como se exibissem a todos um show de bonecos de pano de si mesmas dizendo coisas que gostariam de parecer que dizem.
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Não sei. Lido bem com redes sociais baseadas matricialmente em manifestações curtas. Um texto limitado em caracteres. Um link. Um gif. Poucas fotos. Pratico a forma que eu acredito que é a mais divertida (esse é meu critério) para lidar com a presença internética nesses espaços e simplesmente continuo agindo ali do modo que iniciei nas redes em 2010 - vindo de um mundo bem diferente no início do milênio, o dos blogs (e ecoa na mente a voz da Ana Castela no tema da novela que às vezes eu pego no fim porque quero ver a chamada de abertura do Jornal Nacional: "olha onde eu tô"): é como um pequeno antro de exposição.
Consigo ainda perceber que - ao contrário de muita gente - eu atuo na internet das redes trazendo para dentro dela coisas que me agradam e interessam, e levando dela para outras paragens alguma coisa que nela me satisfaz. Transito, lógico, também por uma espécie de feixe dentro-dentro, como todo mundo, transformando algo como produção, distribuição e consumo de material ensimesmado em um processo eminentemente interno, mas pouco me interessou ao longo dos tempos, proporcionalmente, e cada vez menos interessa (ao ponto da quase repelência) a carga imensa de energia que as pessoas depositam nesses produtos, coisas (e pessoas) quase que exclusivamente internas.
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Parece uma coisa meio Tron (o filme de 1982, com a tosquice simpática e corajosa de seus efeitos especiais estilosos de tão, hoje, precários jamais seria superado pelo desbunde visual tão grande quanto a falta de conteúdo das sequências, como a fraca de 2010 e a tenebrosa de 2025): há toda uma fauna de sobremaneira interna nesses espaços que poderia viver de uma espécie de sobras de alimento de energia gerado por um tipo raro de entropia em um feixe que nunca, jamais, se dissipa. Por vezes entra um convidado de fora e meio que se assusta com tamanha força de (literal e metafórico) engajamento para com essa série de coisas que em alguma escala não são reais - ou que são reais recobertas com tantas camadas, códigos etiquetas e ritualísticas que já se tem dificuldade de encontrar algum tipo de conjunto original em meio a tanto enhancement político-afetivo. Não existe mais 'exterior' da internet (no conceito negriano de que não há um "fora" do império) em um certo sentido, mas espanta o quanto para algumas pessoas isso é confortável.
Outro dia passou por mim - mais uma - uma espécie de 'briga' aborrecida entre duas pessoas que usavam a ferramenta do quote/RT para se alfinetarem de forma que havia ali uma espécie de truco/réplica infinitas (parem de olhar quando vi que me deprimiria ao constatar que passavam de quatro ações-reações por parte de ambas pessoas), por conta de um tema comezinho e, suspeito eu, entre pessoas que sequer se conhecem e poderiam de fato causar algum tipo de influência efetiva (boa ou má) na vida uma da outra.
Antes que eu me transforme em uma espécie de Bauman lamuriento, gostaria de aduzir que não quero de forma alguma praguejar sobre como e quando as pessoas "abandonaram" o "modo certo" de se praticar a convivência nesses espaços - talvez isso nunca tenha havido de fato - mas, sim, indagar o porquê de as pessoas se deixarem levar como presas tão fáceis à sua pior versão. Trabalho. Insisto, sempre e sempre. A construção coletiva formada pela grande bíblia do capítulo diário da humanidade, tendo seus versículos compostos e documentados por uma legião incontável de profetas e apóstolos, que se vivifica na internet é trabalho. O erigir ou dilapidar (de uma informação, piada, tendência, verdade, mentira, verdade-mentira, mentira que sabemos que o é, verdade que queríamos que fosse) constante ali é um gerador ininterrupto de energia. A atenção, rabo do coelho que foge nos levando para a toca, é a ponta palpável do iceberg de uma das configurações dessa energia. Dizia-se nos primórdios (antigo testamento?) que ser famoso na internet (quase com ar jocoso) era como ser rico(a) no Banco Imobiliário. O jogo virou há tempos, mas não há que se debochar tanto assim de uma espécie de moeda invisível que circula (e na qual operam grandes transações). Há quem realmente lucre, de forma binária, com um tipo de fama que parece como uma ligação de respirador mecânico em um paciente em coma induzido. As próprias pessoas que ganham dinheiro real na pista (como as musas das bets) parecem perceber o valor e o sabor especial dessa outra criptocurrency nebulosa, e, percebe-se, voltam absolutamente tudo o que tem para oferecer para o refúgio intestino da web, nem tanto como se em busca de mais, mas como se as coisas só fizessem sentido, mesmo, completo, se voltassem para os feeds e carrosséis, como uma espécie de retorno, ou oferenda. Sacrifício.
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Todo mundo competindo. Da esquerda à direita mais acéfala, todo mundo batendo metas. Todo mundo dizendo que está batendo metas. Alguns lamentando que não bateram metas e criando discursos enfadonhos e neopentecostais de baixo impacto para tentar inclusive capitalizar o fato de não baterem metas. O glamour do triunfo ou o glamour do coitadismo, whatever.
A palestra do vencedor. O workshop do perdedor que vende sua expertise sobre o que deu errado e o que não fazer. O curso do que ainda nem fez, para aquele que não fará. O sininho do meu canal. Arrasta pra cima. Arrasta para o lado. "Arraste-me para o inferno", aquele filme da bancária amaldiçoada pela cigana.
Tudo é divino, maravilhoso.
UM FILME: (vendo a série Lucky no momento. Simpática. Há um que estou reservando para justamente hoje à noite. Falamos sobre ele - ou não - semana que vem).
UM DISCO: por acaso vi esses dias que um excelente programa no Canal BIS, o Hip-Hop Machine que promove apresentações de rappers brasileiros(as) com uma banda de jazz tocando ao vivo, tem uma edição com Rincón Sapiência, um dos meus artistas preferidos no estilo. A rima do Manicongo é afiadíssima e adoro a quantidade de referências rápidas e quase de soslaio que ele lança. O programa tem suas edições disponíveis para assinantes Globoplay (aqui) e me fez ir escutar seu último álbum, que perdi na largada mês passado porque ainda é fresquinho demais, Um corpo preto. Excelente.
UM LIVRO: eu havia começado Reviravolta, de M. Connelly, há muito, muito tempo. Como é uma leiturinha mais fácil, 'pop', parei incontáveis vezes para ler outra coisa e retomava com facilidade sem pressa. Decidi terminar de vez. O que era divertido e instigante em meio ao livro e seu arsenal de clichês sobre as tiradas dos tribunais americanos e a investigação policial idem, unindo numa mesma trama três dos personagens mais famosos do autor (o advogado fanfarrão Mickey Haller, a promotora Maggie McPherson e, claro, o detetive duro na queda Harry Bosch), termina com uma espécie de corte seco pouquíssimo inspirado e decepcionante, mesmo para um livro do tipo do qual não se espera muita coisa que não passatempo.