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Reflexões, divagações, pensamentos, fluxos de consciência, cotidiano. Toda semana um texto novo

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 5 horas
  • 6 min de leitura

Há alguns dias aconteceu uma coisa estranha: eu chorei vendo a TV Câmara.


Estava se realizando a sessão que aprovava a Proposta de Emenda Constitucional para pautar o fim da escala 6x1 na jornada de trabalho e em um curioso movimento que parecia uma versão bonita, legítima, autêntica e vitoriosa do tumulto causado naquele janeiro de 2023 que ainda não bem cicatrizou (como a cauterização interna em algumas partes do meu corpo, ainda, pós cirurgia), havia um clima de invasão no salão e no púlpito do Plenário.


Estava de molho, em casa, equilibrando afazeres na modalidade online (ah, as possibilidades surreais do trabalho nessa era, onde até o descanso e repouso medicamente recomendados viram oportunidades de encaixar filetes de trabalho onde, outrora, não seria nem tecnicamente possível: poético, sobre esse tema).


Não uma invasão de golpistas, ignóbeis, palhaços e desocupados que brincaram de forma inconsequente e perversa à golpes de danos materiais e selfies auto incriminadoras no dia da invasão literal. Uma invasão no melhor sentido: aquele de o púlpito estar ocupado por pessoas tomadas de uma euforia, de um thrill no sentido que só a ideia inebriante de se estar (por vezes) 'vencendo' em termos políticos (tão raro para quem comunga de certo grupo de ideias) consegue causar.


A cada manifestação o clima de "já ganhou" contagiante parecia permitir um misto de fúria com leveza, de urgência com paz, de sobriedade com vontade de saltar e dançar desorganizada e despudoradamente como os triunfantes conseguem, tal em um estágio alfa de consciência típico.


Pelas tantas, eu chorei. Chorei o choro do título, dos minutos finais da partida, do time segurando a vitória pelas crinas, o choro do "já era", do melhor tipo de "já era". Foi bonito, eletrizante.


Sumamente: não sabemos o destino que a propositura terá de fato (a oposição atual do Brasil é capaz de tudo - de pautar uma incrível contraproposta de "escala 7x0", passando por regurgitar seu próprio discurso para desejar "ampliar" a Proposta visando uma escala "4x3" imediata declarando incrível e abertamente que gostaria de "quebrar o país" com isso para se provar com razão - até a recente aprovação do projeto que em linhas gerais dificulta a visa de meninas/crianças que foram violentadas sexualmente pelo próprio pai a realizarem eventual interrupção da gravidez). Mas, naquele instante, naquele conjunto de instantes, triunfou uma coisa ainda mais sublime, joia rara, metal precioso. Triunfou uma coisa que não se costuma ver e que perigosamente nos acostumamos a dispor no terreno da fantasia.


Triunfou a proposta que queríamos, a proposta mobilizada por Rick Azevedo, a proposta encampada por Érika Hilton, pelos sindicatos, pela galera nas ruas, pelo presidente Lula. Não foi o "menos pior", o "que deu, ante os conchavos" o que "acabou tendo que ser, frente às cessões e achaques". Não. Não foi uma proposta mutilada de quem acanhadamente pede um 100 hipotético para tentar, com o rabo entre as pernas, ganhar um 60, um 42.


Se pediu 100, se argumentou por 100, se mostrou a força gigantesca da vontade popular quanto ao 100, se deixou vislumbrar o poderio tremendo de uma ânsia, em realidade, incubada, por 110, 185, 330. O 100 amedrontou. O 100 pareceu ficar barato para eles, que foram ficando pequenos, pequenininhos, minúsculos. O 100 se impôs. O 100 - pelas tantas - parecia não só inevitável como evidente, como padrão. Como algo fora de qualquer discussão.


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Temos muito, muito a aprender com o chilique ridículo de 22 imbecis (que na votação do 2º turno, instantes depois, viraram 19) e com a amargura (adornada por pitadas de desespero) de alguns (poucos) desses (pareciam diminuir a cada bloco de cinco minutos, como ratos fugindo) que seguiram querendo tomar a palavra para opor um barquinho de papel mal feito em folha de caderno à onda gigante do maremoto de filmes de catástrofe.


Fomos nós a onda. Maremoto. Espírito do tempo que arregaça a contrariedade e se coloca intransigente como só a verdade e a justiça (das quais já esquecemos o perfume e o gosto efetivos), dizem a lenda, o sabem ser.


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No dia seguinte lembrei de Mark Fisher (e meu próprio livro de aproximação fisheriano-jurídica está mais a caminho do que nunca - esse mês? Creio que tenho boas notícias em breve...) e seu artigo e, melhor, toda a seção do seu antigo blog, compilado na obra que ganha o mesmo nome K-Punk (vários lugares web a fora. Aqui, por exemplo, um), denominado "For now, our desire is nameless" (por hora, nosso desejo não tem nome - título de um texto, em si, e de todo o capítulo compilado dedicado a seus últimos "political writings"), e da própria preocupação, última, do autor em caracterizar uma espécie de agenda política que, como primeira tarefa para escapar das garras da melancolia paralisante do realismo capitalista, requer que pensamos naquilo que queremos, mais do que naquilo que "é possível" fazer ante "a conjuntura".


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Sou cada vez mais - nos últimos tempos - mais pragmático e até conformado em vários aspectos em termos de política. Por vezes, inclusive, assumo o adjetivo "medroso" em alguns cenários.


Mas perceber que a construção de uma ideia como a da PEC relativa à mudança histórica da jornada laboral - coisas que fincam um espinho no coração, na sala de controle do monstro, do robô gigante inimigo, de uma forma até meio óbvia (chavão, lógica, em termos de capitalismo) - veio legitimamente de baixo e ganhou corpo e força como os antigos nos contavam, lendas, que a verdadeira (...) política e a genuína luta eram/deviam ser rompeu a barreira da emoção, aquela de onde ligam a alavanca das lágrimas. Chorei. A cada manifestação de cada parlamentar - mesmo os papagaios de pirata e adesistas mequetrefes de última hora, o choro, repito, do título grande (como gremista, ando escasso dessa sensação literal), o choro da circunstância tão feliz que tudo parece fazer sentido, tudo diverte, emociona, e nada dá receio ou vergonha.


Ali foi possível. Ali é possível e ali nos mostrou que é possível ser possível. Muita coisa.


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Há um documentário italiano (melhor dizer: napolitano) chamado Ho visto a Maradona, onde personalidades da cidade de Nápoles comentam a explosiva passagem do ídolo argentino transformando de vez a trajetória do tradicional (porém modesto, categoricamente) time local, para sempre. E não só: a auto estima dos habitantes, a forma como desenvolveram um orgulho próprio que subjugou o preconceito que sofrem dos 'nortistas' (no mapa de lá, o racismo é virado de ponta cabeça), e como aquilo parecia uma espécie de misto de júbilo que nem sequer mereciam com alucinação inebriante.


Quando o Napoli comandado por Maradona venceu pela primeira vez o campeonato nacional, um dos entrevistados no filme disse houve uma celebração incomensurável, dionisíaca, tamanha que parecia que a cidade ia pelos ares tal em uma explosão do vulcão, e que o muro do cemitério amanheceu pixado com a seguinte inscrição destinada aos que ali adormecem para sempre: "Vocês não sabem o que perderam".


Mark: você tinha que estar aqui para ver a TV Câmara comigo.




UM LIVRO: bastante impressionado com o resultado de minha curiosidade de tempos finalmente satisfeita e com a leitura de First Blood, de David Morell, a obra que cria e apresenta ao público o personagem conhecido como...bem...Rambo. Sim: a trajetória do malfadado veterano do Vietnam que parece mais um caso de maluco que volta danificado mentalmente da guerra e é condenado a vagar sem eira nem beira por uma "América" com a qual acaba tendo pouca relação é o mote do primeiro filme de 1983 - e pouquíssimo, cada vez menos - tem relação com o que catapultou a fama de Stallone e do próprio personagem, até hoje, no imaginário médio. Alterna momentos de literatura pulp e de crueza meio tosca com um crescimento trágico interessante que nos faz imaginar o resultado final da confusão/caçada onde o protagnista se envolve na mesma medida em que ele próprio, e traz sutis (e alguns nem tanto) insights sobre conflito geracional e questão de psicologia masculina meio doentia. Li ao longo da ultima semana e gostei até mais do que esperava.


UM DISCO: nunca havia escutado nada do Bleachers e sempre tive um preconceito que não passava da primeira linha ao acreditar que era um projeto onde o produtor-astro-pop Jack Antonoff (sobrenome parecido com o eu do meio) resolvia brincar de mostrar que não sabe ser apenas o maestro, que desce para o play também. Bobagem. A banda é ótima (boa, no mínimo em grande parte dos momentos) e o ultimo trabalho, para o qual dei uma chance - Everyone for Ten Minutes é agradabilíssimo. Downloadeado há dias e assim vai ficando.


UM FILME: não vi absolutamente nada de nada, acreditam? Trabalhando muito, inclusive na hora em que o normal é desligar o cérebro. Reassisti Clube da Luta porque peguei, zapeando, esses dias. Serve?

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