- Gabriel
- há 35 minutos
- 9 min de leitura

Eu não sei quem é Ana Paula Renault.
Ou ao menos não sabia até decidir que ia reservar alguns minutos da minha semana para finalmente sanar essa dúvida.
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Aconteceu ano passado algo parecido. "Virgínia" iria depor na CPI que investigava as irregularidades das apostas online. Virgínia. Ter um só nome como alcunha pública é charmoso, inegável. Beyoncé. Zendaya. Você encontra no YouTube uma conversa em uma espécie de mesacast já antigo, onde - enquanto fumam uma tora generosa - Mike Tyson e Snoop Dogg conversam sobre algumas personalidades e Snoop fala que certa vez conheceu Pelé. Ele se impressiona com o fato de que o homem não precisa de sobrenomes, predicados. "Pe mothafuckin' Lé". É o que basta.
Virgínia iria depor. Foi algo contundente. Os trajes de Virgínia, seu proposital ar desleixado contrastando com seu visual usual. Sinais planejados para demonstrar vitimismo perante a bancada. O escândalo de celebridades usando seu prestígio para vender uma fachada limpa para pilantragens das bets e de aplicativos que iludem milhões de pessoas com promessas vãs de dinheiro fácil. Era o que se comentava. Eu não sabia quem era Virgínia - hoje é diferente, dado que sua superexposição midiática atinge outras camadas e simplesmente transborda para confins de atenção que perigam cercar mais e mais, mesmo os desinteressados convictos (seu romance com o craque Vini Jr., as engronhas de sua estréia como Rainha de Bateria na Sapucaí, etc.). Procurei, curioso, saber.
A resposta é singela: ela é parte crucial de um mundo que tento fazer com que siga alheio ao meu, embora cedo ou tarde esse embargo se dissolva quase que naturalmente (esse é o poder do tipo de órbita que as Virgínias habitam, e sua quase inevitabilidade, cedo ou tarde, por quem interage no mundo de hoje). É possível se esquivar do Virginianismo Cultural por muito tempo, mas há uma linha onde ele te atinge de modo que ou você reconhece o choque, mesmo que de raspão, ou você estará invariavelmente fingindo - como a criança que tapa os ouvidos e grita como se anulasse o que o adulto insistentemente assevera na sua frente.
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Ana Paula Renault (o nome é bonito, distinto). Não sei quem é - não sabia.
Quando começa em todo ano (não acaba nunca, isso?) mais uma edição do Big Brother, eu passo a tomar um cuidado a mais que reflete em, nas redes sociais, excluir/silenciar a possibilidade de ver postagens que utilizem as tags relativas ("Big Brother", "BBB", "BBB26", "Prova do Anjo" e outros quetais). Não só não me interessa como parece uma poluição visual que me tolhe de algumas coisas das que, em contrário, mais importam. É como tentar ir na direção oposta da multidão que sai do metrô. Imagino, e me solidarizo com, as pessoas que desgostam de coisas como a final do futebol ou o show do artista do momento na cidade. A diferença é que esse negócio de pessoas numa casa bebendo drinks de sunga, promovendo rusgas constrangedoras por motivos pífios durante a madrugada, criando e desfazendo paixões fugazes, chorando como se estivessem escravizadas/martitizadas porque perderam de ganhar um automóvel em uma prova que consistia passar o dia enfiado em uma piscina de geleia, dura meses a fio. Cansa-se até mesmo de desviar das menções.
Não sou contra diversão enlatada fútil e bobajadas em sentido geral - sempre friso: é essa bobajada específica que não me atrai, onde não vejo graça alguma. Segue o baile.
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Fala-se muito em Ana Paula Renault (é praticamente impossível não se referir aos três nomes, como uma marca ou distinção de nobreza).
Pelo que chegou a mim por mais uma temporada de transbordos, Ana Paula Renault é uma participante que move ódios e encantos na mesma medida. É alguém ideal para a composição que se consagrou em relação ao respectivo programa pois lega à audiência entretenimento na medida em que compra brigas e transita naquele feixe moral que faz sucesso nos reality shows mediados pelo impulso humorista-sarcástico das redes sociais nos últimos anos, que é uma mescla de pessoa que se utiliza de sinceridades para trafegar pelo papel de vilã quando isso é justamente confortável e desejado pelo público (a repelência do herói bonzinho e da pessoa que não é multifacetada - não importando o tom odioso de algumas dessas multi-facetas - é uma marca forte de nossa era).
Chegou o dia em que pesquisei "Ana Paula Renault" no Google, pois. Ela tem pouco mais de dois anos a menos que eu, é nascida em Belo Horizonte. É jornalista e "ativista" brasileira, segundo a Wikipedia. E também, segundo a Wikipedia, sua fama se origina justamente em um ponto (quase) cego social para mim, que diz para com, justamente, participação anterior no próprio Big Brother Brasil e em A Fazenda. Suas outras empreitadas televisivas giram em torno de programas de variedades e fofocas (por vezes, em meta comentários sobre o próprio Big Brother) o que diminui as chances de nosso contato anterior (embora, frise-se, ele parece apenas uma questão de tempo, nos dias de hoje). Ela teve um tweet projetado nos Arcos da Lapa, certa vez, e se envolveu em uma rusga com o Deputado Nikolas Ferreira (não sei os desdobramentos disso, mas uma rusga com esse tipo de gente me faz brotas graus de simpatia - ainda que tática/momentânea - por alguém). Ainda segundo a Wikipedia, "(...) Em 2025, foi submetida a cirurgia de emergência para tratamento de hérnia de disco após apresentar dores intensas e perda de movimento no pé esquerdo, com procedimento realizado no Hospital Beneficência Portuguesa, sem intercorrências".
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Eu acho que sei identificar a raiz disso: quando, em algum momento caminhando do meio para o final da década passada, quando começou a derrocada do Facebook enquanto local de manifestação de pessoas e coisas que me importavam (e começou a colonização da rede por mães e avós que compartilham posts de orações e fotos de grupos de passeio, repetitivas, constrangedoras e desfocadas, em frente às Cataratas - e/ou ignóbeis de óculos escuros vestindo o cinto de segurança em bancos de carros como um tipo de marca de caráter), começou a ascensão do Instagram e eu pensei, já em vias de abandonar o uso do primeiro - lá vamos nós criar mais um perfil, batalhar em mais um ecossistema. Quase em um átimo, questionei mentalmente, subsequentemente: por que? Parecia natural que eu, que usava avidamente o Twitter e o Facebook fosse impelido a baixar o Instagram, mas pensei que não, talvez não seria necessário, no sentido esquisito de se dar conta da maré da moda enquanto sofria o próprio influxo do repuxo.
Nunca tive Instagram e embora eu me sentisse por vezes perdendo o prumo de certos focos, temas, assuntos e linguagens nesses últimos anos, igualmente não me sinto mal (cada vez menos) por efetivamente perdê-las, mormente quanto tudo o que vejo em relação à dinâmica da tal rede me sugere justamente uma versão ainda mais fubanga e acentuada do que me fez abandonar o Facebook.
Não há quem não saiba quem é Virgínia, quem são as modeletes influenciadoras de dieta? Quem são os principais coachs de investimentos, quais os perfis mais bombados de gurus e sacerdotisas de tipos ideais de exercícios abdominais matinais, quais as páginas dos pensadores sociopolíticos histriônicos que coletam audiência à golpes de absurdo após o outro (que há poucos anos atrás seriam o tipo de louco do porão para quem se pensaria em chamar a polícia)? Bem, eu não sei - em larga maioria. Uma novidade, para alguns: a vida segue absolutamente inabalável em suas dores, delícias e boletos.
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Há uma coisa meio bizarra numa espécie de jogo de soma zero ou gangorra em que existe, ou, apenas o deixar-se levar pela maré - como a garçonete dos filmes antigos que pega o papelzinho com um pedido enganchado ao lado do balcão para levar à cozinha, como quem respeita a ordem do dia em termos de pautas e trends - ou um tipo turrão e pedante de elitismo onde a pessoa meio que se orgulha de uma alienação quanto a temas por demais mundanos ou demais comezinhos que não valem o seu tempo.
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, mas de fato me surpreende que estejamos em um grau tão atordoado e cansado (lembrando que vivemos em um tempo onde não há semestre em que não haja algum tipo de promessa de apocalipse iminente - e algumas dessas bem plausíveis de concretização) que virou moeda corrente a pessoa dizer que quer apenas anestesia. Anestesia. Conforto, descanso, pausa, break? Não: anestesia. Twenty-twenty-twenty-four hours to go: we wanna be sedated.
As pessoas basicamente criaram uma oposição chinfrim entre aqueles que, mesquinhos, se 'orgulham' sobre ler livros, e aqueles que se 'orgulham' de possuir autoestima suficiente para assumir quando não querem ler livro nenhum e querem, sim, é ver Ana Paula Renault dançando embriagada.
Não preciso dizer que essas 'oposição' não existe na realidade e não precisaria existir nem em hipótese. E não preciso dizer que o tom pedante do primeiro tipo ideal é aborrecido e atroz.
Mas - e talvez seja preciso dizer - que essa postura do segundo tipo exibe também um tom pedante e de superioridade moral meio estúpido (fatores que costumam ser associados ao primeiro tipo): é muita gente que passa o tempo todo passando recibo de que lê suficientemente, se informa suficientemente, pensa, reflete, produz e trabalha intelectualmente suficientemente a ponto de poder desdenhar dessas próprias coisas.
Por mais que o chato que "não vê Big Brother" porque se arvora da condição de uma espécie de aristocracia intelectual pareça a mala sem alça óbvia do debate (e em larga escala é), é preciso dizer que acho meio alarmante não só que as pessoas "não leiam" (alguns como cartão de visitas) e se dediquem pouco à aprimoração intelectual, como também usam justamente esse trunfo para procurar exibir o estágio de anestesia constante/letargia cultural como uma bandeira. A pessoa sempre orgulhosa de se alienar como quem brada um discurso ou statement eu acho meio deprimente, até porque ela quer viver no melhor dos dois mundos, no meio retilíneo de uma gangorra que ela mesmo alimenta, que ela mesma inventou. Na disputa entre ser um alienado(a) imodesto e ser o proto-intelectual aborrecido, há gente que se ufana em estar (por decreto) em uma espécie de meio onde você é intelectual o suficiente para inclusive tirar onda no outro lado. A questão é que vejo cada vez mais gente buscar só anestesia, anestesia, anestesia, e não comparecer uma vezinha sequer no campinho do outro lado para mesmo uma pelada sem muito compromisso.
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(Fiquei meio estarrecido no antigo Twitter - já não o uso, tenso o substituído pelo Bluesky, que cumpre a mesma dinâmica embora em comparação a ele pareça uma cidade do interior frente à capital do estado - certa vez, quando acompanhei por curiosidade uma longa thread por uma moça que insistia no fato de que a "Farofa da GKay" - não temos tempo para explicar mais isso - representava - era 2022 - mais entretenimento/proposta do que as - parcas - celebrações sobre os cem anos da 'Semana de Arte Moderna', e que não gostar desse tipo de evento e do universo de fofocas correlatas era se desconectar genuinamente 'do povo'. Veja bem: o debate não era uma defesa da galhofa frente a um pedantismo cultural opressivo: era justamente uma tentativa de impor uma superioridade diretamente pela preferência exclusiva pela galhofa. Tempos estranhos).
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Enfim: Ana Paula Renault. Agora encontrei mais uma figurinha no pacote. Tem que ver onde é o lugar para colar ela no álbum.
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Há uma cena de Entrevista com o Vampiro (o filme, dos anos 90) em que Brad Pitt e Kirsten Dunst estão na Europa no teatro onde vampiros locais assassinam vítimas simulando que estão apenas promovendo um espetáculo dramático ousado onde, na peça, eles seriam atores interpretando, e só. A personagem de Dunst comenta: "Vampiros fingindo que são humanos fingindo que são vampiros. Vanguarda!".
Sei lá essa coisa de se orgulhar tanto, mas tanto, de ser intelectual que você não precisa basicamente ser intelectual em mais nenhum momento. Pessoas intelectuais aposentadas. Título honoris causa conquistado. E um ar (de deboche) frente a quem, sei lá, não sabe quem é Ana Paula Renault (agora eu sei, ufa).
UM LIVRO: (sigo lendo a biografia autorizada do Tupac, por Staci Robinson. Loguinho termino!)
UM FILME: Nouvelle Vague, do Richard Linklater, 2025, é o maior barato. É uma pedida extremamente leve e divertida. O filme situa as gravações de 'Acossado', clássico de Jean Luc-Godard que revelou para o mundo toda a afetação e a genialidade, o ar insolente e o humor - ao mesmo tempo - do diretor. As gravações foram uma espécie de inferno simpático onde as ideias de simplificar e tornar abrupta a filmagem para captar mais "o real", motes do "movimento" francês da época, por vezes excitava, por vezes enlouquecia toda a equipe. Adorável.
UM DISCO: uma vontade meio esquisita de ouvir o In Utero do Nirvana me acometeu essa semana. Como "vontade é coisa que dá, e passa", hoje em dia é só ir 'ali' e baixar e dar play - em dois movimentos de dedo você mata a charada. Que coisa que sempre vai me surpreender.