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blog - toda sexta feira um novo texto

Foto do escritor: Gabriel
Gabriel
há 2 dias
10 min de leitura

Eu sempre passei por média em todos os anos de colégio e peguei um número muito pequeno de 'período de exames' ao longo de toda a faculdade.


Bem verdade que - em relação aos anos de colégio - tanto por, sabe-se lá, cumprir a obrigação que eu tinha frente àquela que era minha única tarefa e dever frente aos meus pais, quanto por (me arrisco a dizer: várias vezes mais) pela perspectiva de entrar em férias de modo antecipado.


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(Poucos períodos me excitavam mais do que aqueles dias de dezembro em que basicamente o ano já estava encerrado, embora não oficialmente, e o período de férias ainda não havia começado, efetivamente, e o cara já não precisava mais acordar no horário de aula. Era como um bônus, um prêmio. Momentos inusitados como o sol pela janela em posição diferente da usual, na cama, às nove da manhã e não às seis e pouco, ou a ausência de gente na quadra esportiva na praça, às 10h - e não às 18h20, podiam ser aproveitados como se o sujeito estivesse experienciando uma dimensão paralela. Faça uma coisa - uma coisa - absolutamente extravagante da rotina automatizada e imposta do dia-a-dia e sinta o mesmo: um consultório médico, uma ida ao mercado, um cinema, quebrando sua tarde ou manhã e o trânsito, por vezes pelas mesmas vias, mas com uma dinâmica quase palpavelmente díspar por conta de um horário desigual. Pegando a realidade desprevenida).


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Claro que tive meus momentos no estilo "fuga do rebaixamento" e eles ocorreram de modo especial no penúltimo semestre da faculdade (a prova final e o consequente exame da disciplina de Direito Tributário II me puseram um medo efetivo de reprovação que ou adiaria minha formatura ou transformaria meu último semestre em um rebolation de horários e disciplinas já incomum para um momento onde havia uma cadeira aqui, outra ali e as pessoas já estavam ligando uma espécie de piloto automático de gandaia) e, mais especialmente ainda no primeiro ano do segundo grau (hoje chamamos oficialmente ensino médio, isso?). A forma, aliás, como consegui recuperar as notas horríveis dos primeiros bimestres naquele ano foi digna de narrativas chinfrins de 'superação' que hoje costumam render posts emocionados cafonas no LinkedIn ou no Instagram seguidos por imagens de tatuagens bregas de leões de olhos azuis em estilo realista e promessas sobre se inscrever em maratonas de cidades distantes. Superação de limites. "Deus". Etc.


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A divisão bimestral da época do colégio. Grande aliada naquele que ficou conhecido como "o planejamento para o ano de 1995 para jamais repetirmos o sufoco de 1994".


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("Professora Maria Carla, faleceu Kurt Cobain, com um tiro de espingarda na própria cara, e o Gabriel não conseguiu estudar. É verdade esse bilete")


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Há algum tempo iniciou o semestre na instituição onde leciono cotidianamente e dentre a ladainha inicial na qual submeto as turmas novas, sempre enfatizo esse horripilante critério de tempo: estaremos juntos, uma vez por semana, cerca de três horas por noite, numa sala de aula, desde quando o frio parece penetrar como agulhas em nossos ossos até o momento em que o calor se faz insuportável a ponto de questionarmos se o mundo ao redor está derretendo (está). Última semana de julho à primeira/segunda semana de dezembro. A variação climática no Rio Grande do Sul (somada à iminente catástrofe ecológica que nos aflige) permite esse tom de gravidade sinistra e peculiar. Até em filmes, quando querem, com urgência, dar a sensação de tempo passando, submetem o protagonista a uma espécie de falso plano-sequência onde se evidenciam mudanças no clima circundante enquanto ele caminha. A divisão semestral ou anual da maioria das faculdades tem esse tom épico. Mas, a antiga dimensão bimestral dos períodos e das notas compositoras da média final, no meu colégio: me peguei pensando nela dia desses. E na forma como eu construí uma estratégia para evitar o desespero final no segundo ano do -ensino médio, ok- ante a experiência excruciante que foi o final do ano anterior (onde eu quase tive que pegar recuperação e ficar incontáveis dias a mais indo à escola, sem ver o sol iluminando o lado diferente da cama pelas 09h).


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Matemática (meu eterno problema) e Química. Biologia oferecendo riscos. Aquele ano seria diferente. Vamos passo a passo. Começando devagar. Coach. Nuno Cobra, A Semente da Vitória. Procurando ocupar espaços. Procurando trabalhar com metas estabelecidas. Produtividade. LinkedIn, leão realista de olhos azuis. Todo dia na savana, acordam um leão e uma gazela. Foco, força e fé (fora de moda).


A tarefa de todo aluno, no sentido protocolar, era: chegar ao final do ano com um somatório de no mínimo 28 pontos para dividir por 4 e cravar uma média geral bimestral em 7,0 que é marcadamente suficiente para aprovação. Regulamento de baixo do braço. Commitment.


A lógica seria simples: se eu aumentasse o grau de expectativa e simplesmente trabalhasse em um mundo só meu, paralelo, onde a média 7,0 seria, de acordo com minha regra mental exclusiva ad hoc, ampliada para 8,0, o cenário composto pelas somas bimestrais seria assim: tirando notas cravadas 8,0 + 8,0 + 8,0 (o que eu iria considerar 'a média' e não sossegaria caso não atingisse) nos bimestres iniciais eu somaria 24,0 na contagem o que permitiria que no último bimestre eu pudesse ter a garantia de perfazer sussa e tranks a nota respectiva para a aprovação final, mesmo caso ficasse com um improvável 4,0 (Nah. Eu não era desses).


Você pode pensar que é apenas um traçar de meta e/ou algum tipo de ilusionismo sem conexão real-efetiva, mas é bastante poderoso o efeito de você conseguir se condicionar frente a um objetivo ferrenho. Eu juro que passei a visualizar a meta plausível com uma fúria e uma força louváveis, e por vezes cheguei a de fato estar receoso com o fato de que perigava ficar abaixo e/ou no limite da média quando eu parecia arranhar o 8 que estava mais do que bom e absolutamente dentro da metade de cima do regulamento em condições normais.


Eu inventei um limite/barra mínima diferente do normal (os coachs meritocráticos ficariam orgulhosos).


A batalha de vencer o ano em termos de Matemática e Química (e/ou Biologia) parecia um sonho ainda loading, distante, tarefa hercúlea. Mas auxiliado pela compartimentalização em bimestres e visualizando que não precisava tirar notas estapafúrdias (oito era um patamar plausível) para já conseguir acumular um bom saldo de segurança, percebi, tal um predador, um cheiro de sangue viável ante meu inimigo e adquiri confiança. Era uma batalha compassada em três atos por três notas 8,0. Não era impossível. E assim ocorreu.


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Tranquilizado pelo meu plano que ia de vento em popa quanto às disciplinas frequentemente problemáticas, e favorecido por uma parte do conteúdo que encaixou com meu gosto - se bem me lembro, geometria, e aquele lance de adivinhar qual o raio da circunferência inscrita dentro do losango e/ou um triângulo, cujas "pistas" em forma de uma distância métrica hipotética de algumas das formas tornava tudo como uma charada até divertida - o desempenho em matemática naquele primeiro bimestre fora não só atingido como ostentou a maior pontuação que já obtive na história. Nota máxima. Nota máxima em matemática. Sim, eu. O plano era, sobretudo um boost psicológico eficaz.


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O problema é que pensei que uma gordura reservada como essa (não um ponto a mais, configurando um grau acima da média real mantendo a média 8 que 'inventei', mas dois pontos a mais frente à própria média que estipulei de forma particular) poderia se transformar em uma espécie de novo padrão possível. Ocorreu, na verdade, a materialização de um dos meus mais efetivos traços de personalidade: a precaução extrema, em um estilo que deixaria nervosa até a formiguinha que trabalha para acumular folhas para o inverno enquanto a cigarra canta faceira no galho acima.


Você não está entendendo: eu me preocupo até com o saneamento das finanças do meu time de futebol gerenciado no jogo de videogame. Deus me livre falir. Planejamento salarial/financeiro para duas temporadas à frente.


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Estar blindado por uma circunstância ou por um aval visível é confortável na medida em que me parece prudente termos uma margem com a qual contar em caso de emergência (em todos sentidos da vida). Porém, da mesma forma em que eu sempre me excitei com os dias que antecedem o período de férias reais, ganhando de lambuja um curto período de vagabundagem merecida em dezembro por conseguir passar de ano mais cedo, eu passei a manifestar uma espécie de vício nesse grau de acúmulo tranquilizante que é uma espécie de bônus frente a coisa - seja lá qual for a coisa.


(Acorde um dia com ansiedade de estar atrasado para descobrir que é um dia de feriado, ou acorde cerca de meia hora antes do próprio despertador e você terá uma pálida impressão mais ou menos similar - embora menos potente, eu garanto, do que estou falando)


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Os índices de creatinina, bilirrubinas, e outras substâncias dessas de nomes esquisitos que os exames laboratoriais verificam: (e graças a deus há tempos os laboratórios colocam índices de comparação de padrões normais/aceitáveis estipulados pela comunidade médica ao lado dos resultados dispostos) se eles deveriam ser, sei lá, configurados em "menores que 0,34 alguma coisa" para um "adulto menor de 60 anos" e o meu está em "0,33" eu não consigo simplesmente dar por encerrado esse caso ao perceber que estou na linha de corte normal. Será o meu "0,33" algo quase derrapando para o "0,34"? E o "0,34", é ele já parte da metade indesejável, um meio do caminho neutro? Certamente adoraria que os meus índices fossem "0,22".


Em um exame de sangue primoroso (ganharia medalha, tipo primeiro bimestre de matemática em 1995) feito no início do ano, o laboratório indicou algumas das rubricas (como índices de triglicérides e colesterol, etc) com um comparativo onde não apenas diziam os índices de 'nota de corte', mas havia predicados como "Excelente", "Bom", "Desejável" - e depois começavam os andares preocupantes. Quase todos os meus ficaram na faixa do "Excelente"/"Ótimo", mas uma das rubricas cravada como "Desejável" já me entristeceu. E, confesso: me entristeceria se fosse "Bom", dado que voltaria o questionamento se era um "Bom" quase ótimo ou um bom meio cabisbaixo, sem carisma, sem aura, rumando para baixo? Eu não queria que fosse "ótimo" porque não sei perder. Eu queria que fosse para parecer que tenho estoque, reserva, pneu sobressalente.


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Ainda sobre videogames, escutei esses tempos um relato em um podcast onde o host dizia que era normal ele, em joguinhos de aventura, acumular itens, magias, poderes especiais e artefatos de tal modo que ficava tão receoso de "gastar" o item ou tão reticente em desperdiçar ele em uma hora incorreta (ocasionando a sua "falta" em algum momento futuro mais complicado do desenrolar da história) que, não raro ele chegava ao final dos jogos passando por uma jornada de penúria mental desesperadora porque terminar o jogo passava a ser um martírio na medida em que nunca era o momento certo de esbanjar seus itens e vantagens e, quando via, chegava ao fim da jornada. Quase pedi um abraço (metafórico e metafísico). Sou assim.


O que eu já economizei de fichas de ônibus na vida decidindo voltar a pé (seja de onde for), e o que eu já me regozijei com contas mensais que eu sempre trabalhei calculando para mais, quando vinham bem abaixo do corte, não está no gibi. Tem pessoas para quem a possibilidade de a água subir além do pescoço basicamente não existe, sequer tem como ser mensurada, assim como (dizem) os indígenas tinham dificuldade de ver/compreender as caravelas portuguesas, apesar de seu gigantismo e imponência, na medida em que aquilo não fazia parte de qualquer gramática de mundo imaginável.


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Sei lá. Você já conviveu com algum tipo de escassez? Muda tudo, toda a perspectiva. Marca um jeito de ser. Grava algo na alma a ferro e fogo.


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"Quem poupa, tem", dizia minha vó, pronunciando o poupa como se fosse algo tal "pópa".


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Ao contrário da escassez, do fio da navalha, do fininho tirado da quina, a reserva de segurança promove um sentimento de euforia que é viciante em si. Você não fica feliz por estar na margem. Você fica alucinado pela sensação de possibilidade de obter mais margem. É como se a segurança fosse em si o objetivo.


"E se eu aumentar meu objetivo para 3 notas 9,0 e basicamente não precisar fazer nada além de comparecer de corpo presente em todo último bimestre?" - juro que cheguei a cogitar. Inviável (caí na real instantes depois).


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O fato é que quando percebo que há espaço para mais margem, eu passo a querer mais margem de uma forma meio automática, atávica. Fico seguro com ela e só com ela. É um desafio me concentrar no fato de que não se pode pugnar por isso, sempre, em todos os aspectos da vida.


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Esses dias fiquei chateado porque a grana da folha de pagamento caiu antes da hora e não deu tempo de pagar (antes do prazo) os vencimentos das contas mensais e igualmente (antes do prazo) o cartão de crédito só para ter o luxo de olhar para o valor que entra e saber que ele é inteirinho meu, sem nada obrigatório a descontar. Na prática não muda muito, mas tenho esse tipo de júbilo meio mórbido, fruto da sensação quase entorpecente de saber que tenho algum tipo de crédito ou blindagem.


Construir as margens, seguranças, blindagens e estoques eu sei. Agora preciso aprender que a função delas é justamente serem consumidas como bucha de canhão, para que eu não vire um (mais) neurótico a ponto de começar a trabalhar na necessidade de uma camada de reserva para a reserva. E uma reserva para o caso de a reserva da reserva ___ você entendeu.



UM DISCO: finalmente 'bateu' de certa maneira (até porque finalmente escutei com atenção) uma das manias globais do ano passado, que é o disco solo do Cameron Winter, do Geese, Heavy Metal (nenhuma menção ou aproximação com o gênero em questão, frise-se). Sim, é uma espécie de Lou Reed em compota para uma geração carente de referências, fato. Mas é realmente interessante, contra certas marés que tem se amalgamado à ideia de o que é música/postura 'jovem'. Vem banhado em clichês de cabo a rabo, mas é interessante e me acompanhou nas andanças recentes por São Paulo e combinava de modo tipo 'harmonização' com minha hospedagem no Edifício Copan e sua mitologia e hype respectivos.


UM FILME: Rosebush Pruning é bizarro, freak e meio assustador. Ou meio que feito para que se fale exatamente isso dele. O fato é que a releitura proposta por Karim Ainouz para "I pugni in tasca" ("De punhos cerrados", de Marco Bellocchio, 1965 - não havia assistido) é chique, tem ritmo, cores e uma dose de cinismo meio alienado por membros disfuncionais de uma família de elite marcada pela podridão moral inaceitável e por problemas neurológicos genéticos. O filme tem classe, tomadas lindas, trilha sonora cool e atuações de alto nível. E, melhor: dura cerca de hora e meia, como os filmes atuais desaprenderam a ser.


UM LIVRO: (tem um que, esses dias fiz os cálculos, está tão problemático que já li nada menos do que OITO livros no ano enquanto vou espaçando e cadenciando ele. Em breve pretendo falar disso. Mas preciso enfrentar um pouco mais - está no final)



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