- Gabriel

- há 7 horas
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Ei: não costumo misturar necessariamente as coisas nos textos daqui, mas hoje saiu minha áudio-coluna (tem a cada três semanas), o APARTE, no feed do Viracasacas, sobre o conceito de distinguishing e recentes decisões sobre a questão do estupro de vulneráveis e sua configuração no Brasil - é o tipo de coisa que acho que interessa mesmo para quem não é jurista. Escute aqui
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Uma pergunta: quando as pessoas começaram a ter medo e/ou raiva de histórias sobre coisas na mesma intensidade que possuem frente às coisas, em questão? Outra: quando as pessoas vão parar de misturar a análise da opinião pessoal delas com a proposta da história a ser narrada? Não queria puxar aqui aquela tripa de quotes manjadas do Oscar Wilde sobre isso, mas viria a calhar.
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Uma professora de filosofia com um ar tão etéreo quanto perverso, irremediavelmente europeia e branca (pense em uma das branquitudes - conceito muito superior ao perímetro do tema 'cor da pele' - mais evidentes já vistas), do tipo que flutua e encanta (e gera temor) sem sofrer contestações. Um professor jovem, galhofeiro, do tipo que sempre tem uma piada para oferecer e algum resto de charme para lançar a esmo, como quem vive na 'temporada de pesca'. Uma aluna do tipo alpinista acadêmica que é adulada constantemente como um talento sem par, algo como um destaque geracional que já transita como se fosse membra da casta da realeza docente. Uma universidade consagrada, um departamento com uma disputa pela vaga da titularidade/estabilidade em jogo, tensões típicas de quem, do alto da torre de marfim, discute problemas sociais e polêmicas mundanas. "Cultura woke", disparidades de gênero e raça. Hipocrisias.
Esse é o núcleo central onde vai se desenrolar a trama do último filme de Luca Guadagnino, "Depois da caçada": o diretor que é costumeiramente aclamado por sua filmografia não tão volumosa, mas até aqui robusta, e que constantemente explora as temáticas desde um irremediável olhar queer - que simultaneamente faz uma contraposição e dá uma explicação perfeita para o que muitos chamam de male gaze, um 'olhar masculino', na composição de o que é contar uma história - agora parece enfrentar (ainda de forma latente e não tão ruidosa) uma primeira nesga de tom não-complacente.
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(talvez seja difícil definir com precisão o que é o male gaze nesse sentido, mas com certeza nas obras de Guadagnino você enxerga e sente uma coisa inteiramente afrontosa à ideia que pode ajudar na conceituação: a série feita pelo diretor - menos comentada e valorizada como deveria - "We are who we are", da HBO, oferece um panorama de pessoas, sobretudo jovens, que vivem em uma base militar estadunidense em território italiano, as artificialidades daquele tipo de vida, os conflitos pessoais marcados de forma inescapável pela questão problemática em si daquilo tudo e, tranquilamente, é uma história de ficção sobre uma base militar estadunidense onde as coisas transitam quase que num campo meio entorpecido, onírico, e certamente é diferente de absolutamente tudo o que você já viu e espera ver em termos de um retrato de uma base militar estadunidense. Sabe o que é male gaze? Então, comece assim: a série, sua fotografia, seu ritmo e as lentes pelos quais a trama é abordada, são o oposto de. Poder-se-ia dizer que é uma espécie de 'filtro gay' de perspectiva, mas é muito mais do que isso).
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Talvez você não tenha escutado falar de Depois da Caçada - ele está off do circuito de premiações, mormente do Oscar, desse ano, mas as polêmicas e avaliações ácidas já pipocam aqui e ali. Normalmente acalorado por público e especialmente crítica, Guadagnino tem enfrentado resenhas passivo-agressivas e notas baixas em sites especializados.
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Enfim, aqui Guadagnino coloca o público como árbitro de uma ciranda de cinismos e de pessoas fechadas em si e em seus motivos e dramas para abordar questões como privilégios brancos e patriarcais, idealização/realidade dos discursos acadêmicos, jogos e intrigas de interesses dentre o meio da pós-graduação e a forma como as questões éticas são perpassadas por toda uma série de problemas como se naquelas apresentações de mágicos mequetrefes onde há uma suposta moça dentro de uma caixa interpenetrada por espadas em todas diagonais possíveis.
A aluna acusa o professor de assédio e estupro. A amizade entre a professora-orientadora e o acusado ocasiona uma primeira camada de tensão e o não acolhimento imediato que a aluna e sua versão poderiam/deveriam angariar. A questão da disputa pela vaga da tituaridade e a forma como essa adesão poderia parecer oportunismo, idem. Um questionamento sobre uma tomada de posição (em termos de sororidade, de coerência discursiva, de posicionamento político) gera mais hesitação (mais uma espada em diagonal). O fato de que a aluna carrega consigo uma série de indícios de que possa estar mentindo, mais, e mais, ainda. A questão da difícil colocação em prática de uma série de predicados tão simples de serem usados como discursos só ajuda a incendiar ainda mais o debate.
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Na lenha que Guadagnino coloca, ainda por cima, nessa já portentosa fogueira, estão personagens estereotipadas, como a namorad(e) não-binária da aluna (e toda uma questão de nervosismo sobre o uso de pronomes em relação a ela/ele), uma série de engajamentos a partir de libelos, slogans, posturas e cartazes (e os, invariáveis hoje em dia, figurantes que tornam algumas cenas mais trágicas por representarem o coro da plebe hodierno, que é o grupo de pessoas invariavelmente portando celulares prontos para transformarem qualquer acontecimento bafônico do campus em live).
A dissociação entre discursos, teorias e práticas gera um vespeiro para o diretor na medida em que, no enredo, a professora parece entrar em uma espiral cada vez maior de incoerências e começa a evidenciar uma postura arrogante que denota o teatro artificial experienciado pelas suas discussões de grandes autores/autoras e seus predicados sobre moral e sociedade. E o petulante (e caricaturalmente caracterizado como potencial abusador e bonachão) professor, parece, quem diria, vítima de um tipo muito articulado de narcisismo falsário por parte da aluna - que é recortada por marcadores interessantes: lésbica, negra, jovem e (contrariando as tendências) membra de uma família abastada o suficiente para ser importante em termos de doações financeiras para a instituição.
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Ao se ler sobre o filme, rapidamente pipocam coisas a respeito de que se trata de um libelo que alerta para com os "perigos" da "cultura do cancelamento" e de que as ironias proferidas sobre o que é uma defesa meio bravateira de uma certa opressão feminista vivenciada pelos homens (já em uma das cenas iniciais) estava sendo positivamente afirmada/alardeada através da boca dos personagens e suas falas.
O que me deixa bastante confuso diante da perspectiva de que parece ter enfraquecido nos últimos tempos qualquer noção a respeito de contar uma história sobre um tema e aquela, outra, a de porventura panfletar a respeito dele.
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Provavelmente uma das únicas pessoas que defendem a ideia de que Tropa de Elite (2007), de José Padilha, não é um filme fascista em si (ou dotado de um fascismo-gaze, se quiserem) é alguém insuspeito de comungar com esse ideário: o ator Wagner Moura repete sistematicamente em entrevistas que a obra que mais exponencialmente o catapultou ao estrelato cinematográfico apresenta uma realidade que fora recepcionada por uma espécie de latência fascista da opinião pública pátria, mas que não estaria presente no conteúdo, fatalmente. O problema seríamos nós, o público, e tudo o que em nós estava incubado, enquanto sociedade: é um apanhado de ponderações que ele costuma frisar quando questionado sobre.
Talvez com um certo amargor, talvez para não fritar automaticamente Padilha (que, convenhamos, se tornou um personagem caricato e opaco que sobrevive de tentar imprimir um estilo que é mera repetição de seu maior sucesso - e parece não conseguir oferecer algo além de), Wagner tenha que praticar uma espécie de curva em seu discurso sempre bastante engajado e acentuado nos últimos anos, após o bolsonarismo - e após a afronta direta dessa gente contra seu próprio debut de realizador, Marighella (2019) - e esteja escamoteando a questão: tudo no filme é feito para ridicularizar o discurso "de esquerda" (ou um tipo específico de discurso tido por "de esquerda" que se resume ao academicismo de chavões e/ou ao maconhismo universitário-PUC-Rio e suas várias camadas de blindagem de classe), de uma forma rasa e direta, quase antecipando a moda dos memes neoreacionários que viraram moeda de comunicação oficial dos conservadores nos anos 2020. Da mesma forma, o tom másculo, tenso (e teso) com o qual vai retratado o capitão (as ironias...) vivido com maestria habilidosa por Wagner tem, se visto com um pouco de distância, ares de uma propaganda militarista bastante escancarada.
Não levem a mal: acho um filmão (e gosto, inclusive, da parte 2, ainda que tenha ares de pastiche meio bobo e queira 'remendar' algumas coisas de um jeito igualmente desastrado).
A questão é que não é do que se trata aqui:
Depois da Caçada não é um filme que interpela a negritude ou o lesbianismo, não é um filme que situa como tola e hipócrita a movimentação política de universitários ricos e seus celulares de último tipo, nem é uma obra que defende a existência de uma opressão desde o feminino para com o homem branco que agora, tecnicamente, estaria acuado. É um filme que retrata essa discussão. E que ousa - ao contrário de panfletarismos chinfrins - suscitar que, mesmo que de forma enviesada e total coincidente, talvez um homem meio babaca possa, sim, ser vítima em algum contexto.
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Acho deprimente a forma como essas questões ligam alertas variados, como se não se pudesse fazer um filme/contar uma história sem um filtro moral antecipado (o que é diferente, por exemplo, de outro aspecto repugnante das cultural wars de hoje em dia, que são as pessoas que elevam a 'liberdade de expressão' a um patamar de blindagem total e absoluta para a prática e a propagação de absurdos indizíveis - criminosos da mais baixa estirpe sobre os quais não falaremos aqui).
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Houve quem disse que A Baleia (Aronofsky, 2022) é um filme "gordofóbico".
Estaríamos proibidos de imaginar um enredo onde um obeso mórbido sofre com uma série de condições advindas dessa situação? Estaríamos vedados de pensar uma história onde a situação do protagonista vivido por Brandon Fraser tem relação umbilical e direta com seu estado físico? Por vezes creio que algumas pessoas estão, sim, à moda inimaginavelmente infantil, defendendo que a produção cultural se sirva apenas de platitudes imbecis e pueris que conformem finais felizes e levezas em tons pastéis para pessoas que chegam do trabalho estressadas, e nada mais. E/ou que espelhem suas visões de mundo e idiossincrasias, sem exceções.
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Enfim: grande é a chance de Depois da Caçada se tornar simplesmente esquecível, e, mais fácil ainda, terminar, como volta e meia, "envelhecendo mal".
Mas se alguém como Guadagnino não puder abordar esse tipo de coisa e se não pudermos reconhecer reflexão e drama nesse tipo de tema - por mais que saibamos o que pensemos sobre, aí lascou. "Não existem livros morais ou imorais, existem livros bem ou mal escritos e isso é tudo" (não queria mesmo citar o Wilde. Foi mal).
UM LIVRO: estrou lendo Tupac Shakur, a biografia autorizada, de Staci Robinson. Trinta anos depois (nossa) da morte do rapper que se mostrava de uma prateleira superior mesmo em meio ao boom desenfreado do estilo no início dos anos 90, suas histórias ainda são lendárias. A questão é que o "biografia autorizada" deveria vir com um adendo de "bota 'autorizada' nisso": o livro é de uma complacência meio ostensiva com o biografado, mas ainda assim vale o quanto pesa.
UM DISCO: estou meio esquizofrênico essa semana. Ouvindo muito o disco do Tupac assinado sob o pseudônimo Makaveli - Don Killuminati: the 7 day theory (motivos óbvios, sempre que leio uma biografia de músico), o hyper-pop-indie da Slayyyter - Old Technology e o disco relançado agora duplo para a trilha sonora de Tron:Ares, pelo Nine Inch Nails.
UM FILME: assisti Hamnet, enfim - filme que estava "deixando para depois" por, em parte, dar preferência a outros que pareciam-me mais palatáveis, e em parte também por um certo receio de que fosse me deprimir, dada conhecida temática. Bem: o filme é bom e bonito como você provavelmente já sabe, e tem cargas dramáticas específicas onde você provavelmente já assistiu/experienciou e já leu sobre. Mas a sequência final no Globe Theatre, quando da apresentação da peça, é rara em termos de sensibilidade e potência, e é para mim onde o ingresso vale mais do que em qualquer outro momento.