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Reflexões, divagações, pensamentos, fluxos de consciência, cotidiano. Toda semana um texto novo

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 4 dias
  • 14 min de leitura

Tem uma discussão que realmente me fascina e ela é a de uma atual e específica configuração de capitalismo que evidencia muitos fatores, mas, especialmente, o de que não se pode confundir, simplesmente, coisas como 'capitalismo', 'mercado', relação de 'compra e venda/margem de lucro', com o cerne, o núcleo mesmo, da coisa, como alguns de forma simplista e meio tosca costumam aventar.


Tenho, há muito tempo, insistido, inclusive, que o conceito de 'trabalho', precisa ser visto à luz da potencialidade que a atividade a se encaixar na definição, em si, tem de ter extraído de seu âmago o mais valor, a capacidade que tem de ter alguma chance de sofrer extratividade: não porque eu eventualmente defenda esse tipo de visão, mas para que as pessoas enfim vejam que não só a configuração de trabalho (e do que é trabalho) mudou, como isso ajuda inclusive na (re)configuração do que vamos ter por capital, por investimento, e por exploração - e daí, força, guerreiro(a): podemos enxergar alguma luz no final do túnel (ou do labirinto de corredores acarpetados) para pensar para onde se pode direcionar algum tipo de revolta, com eficiência, sobre a questão.


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Vamos para uma espécie de resumo à moda de um glossário grosseiro: "capitalismo" é confundido por muitos com "mercado" (soa a primeira sirene: errado) e, ainda, com uma espécie de vilania/moral mercadológica na tentativa de obtenção de lucro matemático simples, que ultrapassa qualquer limite ético (soa a próxima trombeta, errado, de novo, ainda que correto, sob o ponto de vista da pequenez humana e ganância ostentadas por alguns envolvidos).


Bem: "mercado" - eu te dou esse saco de alfafa, você me dá essa caçamba cheia de lã de ovelha; eu te dou essa abóbora e você me dá esse jarro de suco de uva; você me dá esse acre de terra e eu te dou a autorização para casar com minha filha - whatever - existe desde que o mundo é mundo (defendem alguns, numa linha foucaultiana dos anos 1970, inclusive - eu incluso - que a relação social primordial é economico-política ates de ser, digamos, filosófica). Havia mercância antes de haver capitalismo propriamente.


Outra: "lucro" é um objetivo de quem 'mercadeja', e certamente é um dos motes de quem se jubila "capitalista", mas vamos com calma. A relação de lucro no sentido usual é uma relação de vantagem matemática ou fática (comprei um jarro de suco de melancia por um preço que me custou uma abóbora, e vendi - eu que odeio suco de melancia - pelo preço que me permite pagar um pão, duas maçãs, um copo de suco de uva - prefiro esse - e sementes que germinarão em seis abóboras em um futuro próximo - foi um bom dia).


Porém não é nessa vantagem numérica fática (a do lucro final como soma/razão entre perdas e ganhos esperados), pura, que reside a charada da coisa.


E, sim, no fato de que, quando passou a haver trabalho assalariado desde a venda da força de - ou seja, quando eu passei a trabalhar na fábrica de sapatos do Fulano como empregado para poder comprar meu suco de melancia e um pão, porque me foi tomada a chacrinha e a plantação de abóboras - eu passei a ser alvo e engrenagem de uma troca desigual: eu não troco mais eventuais equivalentes equilibrados por leis como a da oferta e da procura ou do interesse no valor de uso da coisa, e, sim, a troco minha força vital por uma estipulação de pagamento. Eu trabalho x horas na fábrica, e não paro de trabalhar no meio da tarde quando aritmeticamente minha jornada de costura de solado de sapatos e botas 'empata' com um valor criticamente estipulado pelo tempo/serviço/conserto. Eu cumpro horas. Não simplesmente mantenho a equivalência da versão mercadológica mais singela, e, agora, o trabalho e minha recompensa obedecem outro regime, onde a proposta do empregador é a de usufruir do meu rendimento retirando o fator equivalência/interesse em 'coisas' da 'troca'. Eu dou: minha força de trabalho e o máximo que ela puder render pelo tempo x. Ele me dá: o faz-me-rir.


É nessa inequivalência da troca que se origina o mais valor ou mais valia - na produção que gera excedente e que tem virtual extração da mesma, e não no eventual 'lucro' final com a razão entre o quanto o Fulano gasta para manter a operação e o quanto se ganha com a venda dos sapatos da marca respectiva. Fulano quer lucrar, mas variáveis podem a todo instante fazer essa taxa flutuar. Porém o acúmulo e o poder de crescimento/reinvestimento residem no fato de que é na produção que há essa razão que lhe é vantajosa, no instante em que, já dissemos, não é uma troca de equivalentes (em um ambiente artesanal específico, talvez, mas em um ambiente fabril, não existe eu combinar que "com esse ordenado aí, vou tratar de ajeitar noves pares de sapatos e meio, e depois tchau, até amanhã"). Eu produzo para além do que seria equivalente para o quanto recebo, o capital (e não simplesmente o "montante de dinheiro", frio, matemático), se reproduz e gera a possibilidade do retorno na própria ampliação da produção - e de si mesmo.


Então. Capital acumulado pode ser exemplificado de um modo perfeito em "dinheiro", nesse caso. Mas não é isso, especifica e exclusivamente.


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Hoje em dia uma série tão grande quanto modorrenta, tão incisiva quanto óbvia, tão numerosa quanto chuva no molhado de pensadores(as) já nos ajuda a chegar à conclusão de que estamos a todo instante 'trabalhando', produzindo. Não apenas pela comodidade impertinente da tecnologia, que transforma horários, espaços e momentos, antes, de gap na corrida do gain, agora, em oportunidades de possível trabalho, literal (o avião durante um voo, o banheiro enquanto você faz o número 2, os giros no cobertor após o primeiro alarme do despertador e antes do efetivo levantar), mas pelo fato de que uma série incrível e incomensurável de atividades nossas já fora absorvida pelo espectro do trabalho e do capital e (especialmente) seus ritmos: estamos a todo o tempo embretados em alguma atividade que tem um giro de produção capaz de fazer brotar potencialidade de extração.


A grande questão é que esse potencial todo por vezes incubado parece fazer sentido para alguém (e para nós em um sentido geral) quando é possível de ser visto e quantificado na forma de o quanto (e quando e especialmente, para quem) ele gera lucratividade literal, como - exemplo/imagem que gosto de usar - alguém ganha fichinhas plásticas após uma noite de jogatina no cassino, mas que viram dinheiro vivo, real, quando 'trocadas' para que se deixe aquele ambiente. Quando e como estamos (ou poderíamos estar) trocando algumas dessas fichas desse 'valor' virtual estocado em algum lugar e de alguma forma? O fato de que não vemos necessariamente a cor dele, mas sentimos ele passar como em um duto de ar por cima de nossa cabeça, indo para algum lugar se materializar, precisa ser levado em conta.


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Um exemplo que gosto muito de trabalhar é o das coisas que viralizam, viram trends e, quiçá, memes: diz-se que hoje um artista (um cantor(a), por exemplo) não necessitaria mais do aparato midiático de relações públicas que era mantido tal um exército, outrora, da mesma maneira que não necessitaria mais de forma tão veemente dos esquemas de gravadoras/empresários 'old school'. Enquanto a segunda afirmação pode ser problemática à medida de o quanto mais você escala, a primeira afirmação por vezes deixa escapar uma coisa muito mais singela: antes o trabalho de divulgação era feito por profissionais, de um modo específico. Hoje, ele segue sendo feito (não desapareceu, nem sua necessidade, portanto), mas de 'graça', por nós. Quando algo 'viraliza', somos todos parte ativa (querendo e gostando, ou não) da cadeia de divulgação que teve uma atividade nitidamente de produção laboral (ainda que não de 'emprego' ou 'trabalho' em moldes usuais - nem ao menos próximo de assalariado) que resulta na questão do produto (a divulgação massiva) ser 'entregue'. Há trabalho no fluxo, mesmo não sendo necessariamente um trabalho na forma de um escritório contratado para realizar uma função que, hoje, com esse outro trabalho, se faz muito mais incisiva, penetrante, conectada com o público-alvo (ou eventual alvo) e que parece simplesmente algo de um tipo de geração espontânea-orgânica.


Um meme é como o engarrafamento, no trânsito: nós somos/compomos ele, mesmo quando o amaldiçoamos tal uma fatalidade que recaiu com azar sobre nossa cabeça. Ele flui. Ele nos atinge e tem em nós um potencial de continuidade. Quando chega em nós, foi fruto de trabalho (pesado - repetindo: voluntário ou não). Quando de nós parte, repostado, para outrem, nos incluímos no feixe de produtividade respectivo. E a pergunta roda, e a cabeça gira, como na canção: quem está explorando/extraindo o quê, e para onde leva esse duto de ar?


Se alguém está extraindo (mais) valor desses fluxos, e se há atividade cooperativa-produtiva neles, é trabalho. Mas: o que está sendo extraído e como se está?


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Vi esses dias o filme Backrooms (EUA, 2026, Kane Parsons), bilheteria estrondosa e uma das produções queridinhas do primeiro semestre.


Me atrai de sobremaneira a ideia da coisa - e eu sou o tipo de sujeito que pode ficar horas a fio olhando imagens/postagens de liminal spaces em ambientes tóxicos como o do Reddit, enquanto escuta trechos de músicas do que se pode chamar de Traumacore: um filme que toma como mote uma espécie de acordo geral em torno do desconforto de alguns cenários/ideias hipotéticos e da possibilidade de haver algo como um bastidor da realidade onde um tipo de entulho lógico de nosso mundo reside.


A premissa, no filme, é explorada em uma medida que desemboca em algo que carrega alguma leve similitude com a ideia de Jordan Peele no seu "Nós" de 2019: em algum lugar nos intestinos de nossa realidade, há uma espécie de paralelismo bizarro rolando, um tipo de simetria torta acessível - que, embora, não o devesse ser - de onde vêm, para onde vão ou onde são depositados, os eventuais restos psíquicos que queremos por na composteira da alma.


Mas a questão é que isso, e essa sutil possibilidade de comparação, é uma invencionice meio apelativa e fraca da condução do filme, dado que a creepypasta dos Backrooms, surgida em fóruns de internet não permite esse tipo de desenvolvimento a grosso modo. A pergunta (que já foi feita), tão distorcida quanto o rosto de um dos habitantes daquela realidade paralela no filme, é só uma: há um meme com um poder atrativo de atenção aqui. Como podemos tirar valor dele? Como podemos extrair valor do trabalho sobre ele, que o constitui enquanto 'valioso'? Ele está prenhe de fichas, mas onde e como acessamos esse guichê? É dinheiro que está ali? O que mais poderia ser?


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Uma creepypasta é trabalho, é fluxo colaborativo exemplar.


A referência original à invenção do conceito e da possibilidade dessa espécie de submundo terrivelmente passível de acesso repentino, as Backrooms, tal e qual uma espécie de área de despensa da realidade com visual de um prédio demodé de escritórios em vias de abandono, vem de uma postagem anônima no 4chan em 13 de maio de 2019, e ela contém um princípio de argumento com algumas escapadelas para a consecução de um tipo de mini-conto ou embrião de argumento:


"(...) Se você não tomar cuidado e sair da realidade nas áreas erradas por via de um 'no-clip', vai acabar nos Backrooms, onde só existe o fedor de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo interminável de luzes fluorescentes no máximo e aproximadamente seiscentos milhões de quilômetros quadrados de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso. Que Deus te proteja se você ouvir alguma coisa andando por perto, porque com certeza ouviu você"


Conforme o tópico da discussão no fórum requeria, a ideia era postar imagens que eventualmente pudessem ser capazes de por si só gerarem desconforto, e essa foi a imagem que veio junto ao comentário:



A ideia não tem como ser separada ("no-clip") do conceito dos videogames onde falhas, glitches ou erros de construção/programação do ambiente utilizável do jogo fazem com que você acesse uma espécie de área - ou não-área - "fora" do cenário e fora da própria lógica do jogo em si (espécie de misto de umbral com permissão inusual para frequentar a dobra entre o ambiente onde há um personagem, "vivendo" o jogo e a descoberta do fator de "programação" daquilo). É como se o personagem, e não o ator, se desse conta de que está em frente a uma plateia e que a floresta onde se encontra é falsa - ou como se o nosso herói descobrisse evidências do que é seu mundo, em realidade, frequentando os corredores da sala do criador. Um triste e menos esclarecido Homem Animal n'O Evangelho Segundo o Coiote.


A partir daí, uma série de desenvolvimentos de um genuíno fluxo de trabalho coletivo ampliou o cenário proposto aduzindo conteúdos que agregavam detalhes, especulações ou mesmo construíam em cima do simplório núcleo para lhe oferecer camadas bastante alheias ao termo inicial. Como convém nesse universo da creepypasta, parte das contribuições ousava em relação ao conteúdo inicial trazendo relatos que se escoravam em suposta documentação de 'casos' que comprovavam a veracidade e a verificação geral de hipóteses similares, como se passassem a serem permitidas de vir à tona após o relato-matriz.


Bem verdade que alguns dos desenvolvimentos são simplesmente peças de literatura fantástica ruim ou baixissimamente inspiradas, pervertendo inclusive o tom enigmático e a proposta lacônica da ideia inicial que configura uma espécie de alerta que não diz nada, mas que se fecha em si mesmo (sugere algo que existe, ou existiria, e se escora no nível de desconforto certeiro - nota dez, na 'tarefa' do fórum - causado por um tipo de imagem que não diz nada, igualmente, mas diz muito, como se direto à linguagem do setor arquetípico do nosso inconsciente falasse). Desdobramentos interpretativos, prolongamentos, descrições minuciosas, incremento de fatores foram, a partir daí, imaginados/criados/acrescidos ("monstros", "criaturas", detalhes enfadonhos, sub-locais específicos a serem encontrados em meio à exploração dos locais/corredores) e toda uma série de coisas que dissipa/pulveriza o charme enigmático da econômica descrição inicial.


Quando começaram a 'explicar' o mistério, começou um curioso percurso: o capital acumulado naquele trabalho começou a perder força, mas, igualmente, começou a se materializar e a ser passível de virar a única coisa que, para alguns, o metaforiza: cifras.


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A pergunta segue acesa: uma vez que alguém em Hollywood descobriu tardiamente o incrível potencial de atração que o núcleo da ideia continha (e já foram experimentados filmes feitos a partir do esquema de renderização cinematográfica de outras creepypastas, mas nenhum digno de nota), como materializar esse interesse, esse poder, essa vibe? Como tirar o valor guardado em todo esse trabalho coletivo que não apenas legitimou e engordou uma história simplista, como lhe mantém em um lugar de magnetismo que gera tensão notável?


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Alguns acham - buscando desesperadamente uma comparação mais direta que faça eventual sentido - que tudo na internet se resume à lucratividade análoga à da propaganda. Como se o trabalho e se a massa de dados 'analitics' que os coleta visasse não a percepção das tendências, em si, como um produto elas mesmas, mas apenas um local ou momento de exploração tal e qual um comercial de cerveja e salgadinhos no intervalo de uma partida de futebol.


A tendência, essa - trend - é o produto por excelência. É com ela que se joga, não apenas como um ponto ótimo para uma captura derivada da atenção/desejo do consumidor a partir de um disparo de outra coisa. 


Mas quando falamos de pontos ótimos para comerciais, a relação 'dinheiro'/mercadoria fica evidente. Novamente: como possibilitar a extratividade de tanto potencial fomentado por interesse incubado em um meme, onde esse caráter 'trocável' não é tão direto? Em que tipo de símbolo, de estrutura, se quantifica o resultado de todo esse trabalho para que um meme faça sucesso? Ele está repleto de uma aura, de uma energia - que são mensuráveis em que unidade?


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Duas possíveis respostas: a internet atual sobrevive da gestão de tráfego. Em algum momento, na ponta mais íngreme e afiada da tabela, os grandes proprietários e 'playmakers' lidam com 'produtos' de venda dos mais escabrosos (e o caso da Cambridge Analitica, anos atrás é emblemático - e, apenas para lembrar, não, não há micro-espiões escutando que você quer comer uma pizza ou que você planeja ir para Maceió nas férias, e disparam postagens que confirmam esse interesse no Instagram. É você que se tornou previsível ao nível do assustador, dado o que expõe de si nas redes, querendo ou não).


(Quanto à outra: percebe-se o quão limitado é um dono de rede social que, após a aquisição, procura transformar ela em uma espécie de estacionamento rotativo pago de ideias, e aniquila grande parte da popularidade - e do poder - da mesma após permitir que ela vire nada mais do que uma espécie de zoológico de contas-robô nazistas. Tudo porque não entendeu o que tinha na mão e queria à época algo como 'recuperar o investimento' - suposto empreendedor do futuro querendo ampliar a conta bancária via income direto. Simplesmente: não entendeu. Pelo mesmo motivo, outro desses mega barões bizarros mantém seu serviço de troca de mensagens por celular inteiramente gratuito até segunda ordem - "...o produto é você", aquela coisa).


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A ideia para "trocar as fichas" da história dos Backrooms após os direitos adquiridos foi pelo caminho mais tosco possível, mas inegavelmente seguro, visível: a de tornar palatável o lore através de uma série de explicações que batem o martelo quanto a um fio condutor (as 'salas' e o 'ambiente' seriam fruto de uma espécie de projeção dos traumas e seriam, na real, uma espécie de almoxarifado universal psíquico, nesse sentido). Os personagens do longa (especialmente um dos principais) vagueiam por espaços onde se deparam com reproduções psicológicas distorcidas do mundo real - e eventualmente de suas próprias, e encontram lugares onde "já estiveram" de certa forma.


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A ridícula sequência onde a protagonista é perseguida por uma versão fantasiosa e fracassada do outro co-protagonista, em uma alusão direta e sem nuances a algo que foi visto na tela como gerador de uma insatisfação meio ridícula, é ridícula, ela própria, em si.


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O filme simplesmente aniquila qualquer resquício do que eventualmente fora atrativo, do que tinha aquele quê a mais - ainda que bastante vago - completando um trabalho meio torto praticado por muitos 'fãs' da discussão que legaram sua parcela de contribuição para a coisa tornando-a de uma ideia insinuante e francamente desconfortável em uma espécie de lorota caricata. Poderíamos discorrer sobre quem está certo, afinal a bilheteria cavalar do filme mostra que os estúdios que optaram pela lucratividade à moda antiga ao invés de incubar trabalho biopolítico conseguiram ficar felizes da vida. E a parcela do público que está atrás de lorotas caricatas disfarçadas de grandes labirintos psicológicos igualmente parece bem satisfeita.


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Não há como se queixar de que o "tirar dinheiro" de dentro de um meme praticado pela A24 foi bem sucedido. Porém a custa disso é arriscada a ser a morte da própria fonte, dado que quando existe esse tipo de versão não sobra muita coisa após.


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É interessante que entre a possível (e nesse caso foi) grana fácil de tentar um tiro que - como volta e meia ocorre - acertou a lua, e a ousadia em tentar capturar a essência do post original para manter o tema em vibração - e possivelmente gerar um filme que desagradaria a parcela consumidora mais mentecapta, jamais saberemos para onde o acúmulo de capital que a proposta-matriz possuía poderia nos levar em termos de manter a ideia aquecida. O fato é que não há como não concordar que o que foi feito foi muito simples: a troca direta da alma da coisa por uma possibilidade de lucro direto, fácil. Um pacto chinfrim (mas monetariamente gordo).


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Em algum momento uma trend pulsante mal se continha trêmula em si mesma de tanta energia (trabalho+interesse desperto) acumulada, e poderia virar potenciais de expansão, extração e reinvestimento de várias maneiras. Ninguém descobriu ainda qual a outra metáfora/objetivo frente a isso.


Talvez, em termos de explorar coisas/pessoas haja algo mais poderoso que dinheiro em si esperando o jeito certo de ser garimpado, utilizada como uma máquina mortífera, imparável. Por hora, quem consegue achar o guichê, e não é bobo, larga de fichas de plástico em troca de cédulas que cheiram a novas.


Talvez um dia se descubra como se poderia trabalhar com a extratividade do interesse despertado nas coisas em si sem subvertê-las de modo brega, e daí um poder de um bom meme seria decantado - original e intacto - para alguma coisa tal e qual um cripto-ativo que não precise se justificar perante o mundo quando ostenta um largo valor em dinheiro equivalente. E daí periga ser o nosso fim (convenhamos).


Ou, antes disso, alguém resolva respeitar uma boa premissa a ponto de não traduzi-la demasiadamente visando cifras fáceis, na prática que os antigos conheciam como 'arte' (daí é sonhar demais hoje em dia).


UM FILME: poderia citar esse, daí, se não fosse tão ruim. Ou mesmo Obsessão (que achei muito bom), se a web nas últimas duas semanas não houvesse se transformado em um surto que precisa catalogar cada centímetro de película da obra, explicando-a de jeitos variados e bastante questionáveis, em alguns casos (em outro tipo de coisa incrível que é a matéria prima derivada que compõe a massa do que as redes sociais chamam - acho tão curioso - de "conteúdo")


UM LIVRO: sigo no mesmo da semana passada, Clara Usón, Las Fieras. Vai durar um tempinho ainda.


UM DISCO: não vou de disco, mas vou de podcast. Muito bom o episódio do Não Apague a Luz sobre Backrooms (- aqui - ), onde a crítica é levada para outros níveis - e a "fuga do tema" em meio ao episódio não tem tanto de fuga assim, mas é deliciosa anyway.




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