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Reflexões, divagações, pensamentos, fluxos de consciência, cotidiano. Toda semana um texto novo

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura


Já está no panteão dos memes clássicos (essa curadoria e habilidade tão encampada pelos brasileiros que deveria brigar por denominação de origem controlada) a cena do filme "Muito Prazer", de David Neves (1979) onde Otávio Augusto e Cecil Thiré conversam e o primeiro pondera "São quatro horas da tarde de uma quarta-feira, semana praticamente encerrada, não é?".


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Outro meme que faz ganhar discussão popular uma coisa específica - à moda de como as coisas técnicas e intrincadas ganham um colorido (às vezes besta) totalmente novo quando passam dos livros e catecismos à boca pequena da anedota: o 'corte lacaniano' (que, no dicionário internético brasileiro, é o momento em que o(a) psicanalista decide, sem mais, que a consulta está, por aquele dia, encerrada, dado que, abrupto, teria obtido em um golpe o máximo que precisa daquela sessão). Há relatos dramáticos sobre pacientes serem mandados voltar outro dia após questionarem de uma ou outra forma sobre onde poderiam enfiar o guarda-chuva (simbologia freudiana importante), ou por terem cruzado ou descruzado as pernas de tal modo. "Satisfeito".


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Da mesma forma, tenho uma antiga tese sobre os infindáveis revivais que os picos de popularidade da série The Office comportam (se é que, para muitos, ela alguma vez saiu do mainstream): de tudo que é exibido nos episódios - de algumas questões cotidianas solapadas por costumes e práticas avassaladas por um mundo que, mudando tecnologicamente, carregou tudo consigo em questão de poucos anos que correram mais do que décadas, até o tipo de empresa, logística de escritório e postos de emprego, em si - pouca coisa sobra atual a ponto de transformar aquilo em vintage em nem 15 anos, menos uma que segue perene: o drama cotidiano de pessoas que parecem fazer tudo para driblar responsabilidades que as possam complicar e que enfrentam o cotidiano até a hora de bater o ponto com justificativas tão criativas quanto infantilóides para simplesmente não trabalhar. Em um mundo onde tudo parece ter andado para frente, menos algum tipo de estrutura que nos faça incomodar menos, segue sendo comovente que no escritório de Scranton da Dunder Mifflin as pessoas formem partidarismos e intrigas para por uma tarde inteira discutir ferrenhamente de qual confeitaria será encomendada a torta para a festinha. Já vai ter festinha, então é justo que os preparos pré-festinha já coloquem um clima perene de "quarta-feira, quatro da tarde".


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Mas não quero necessariamente falar sobre essas escapulidas preguiçosas ou malandras frente às obrigações laborais ou ao que usualmente se propõe como 'horário', nem nada do tipo. Quero falar sobre essa instituição (pós)moderna que é o batimento de metas e um sistema de bônus/brindes que basicamente se institucionalizou em todos âmbitos da nossa vida, desde o trabalho, em sentido formal, se espalhando como água solta. Uma vez batida a meta, o céu é o limite - até a página dois.


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Certa vez um amigo e uma amiga conversavam na minha frente sobre suas consultas com nutricionistas/orientadores alimentares - eram profissionais distintos - e ambos se questionaram, num linguajar de quem pertence a uma camarilha ou é versado em alguma liturgia comum sobre as 'recompensas' que um e outro programa/receituário lhes havia permitidos: para tantas calorias 'economizadas', uma trufa, para tanto de respeito ao rigor prescrito, tantas doses de whisky. Achei aquilo muito estranho, mas a conversa fluiu com tanta naturalidade que percebi não estar diante de uma exceção, mas, sim, de uma gramática comum para quem frequenta esse tipo de auxílio médico. 'Recompensas' tipo o pace dos corredores ou o pré-treino na maromba, que - sou só eu ou foi de uma hora para outra? - parecem tão elementares que nem ressoam como se ainda há pouco não estivessem ali.


Somos educados à moda de tomar a lição do "primeiro o dever" não como um fator de afirmação e sustentação prática de um organograma, e sim como uma espécie de catecismo: é como se não procurássemos isso como estratégia ou como prática e sim como algo que nos ameaça em termos de recair sobre a cabeça se descumprido, dogma. A consequência é um êxtase tão pleno e fulgurante quando do triunfo sobre o dever que há que se tomar cuidado com o desvario que vem como 'recompensa'. No mundo da racionalidade neoliberal, a constância de um sentimento de miséria/derrota frente a um grau de dificuldades e obstáculos que deve ser superado para a meritocracia do júbilo nos coloca em um esquema cruel de geração de energia para lâmpadas mediante corrida em uma roda de arame: não há satisfação nunca, uma vez que a satisfação vai transferida para o próprio ato da produtividade - John Lennon, certa vez, teria afirmado que "o maior barato da cocaína é preparar a próxima carreira".


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Em algum nível a imbecilidade reinante na Dunder Mifflin agride, de certa forma, até a mim mesmo que vejo uma peça alegórica como telespectador e não parto aqui para uma defesa inconsequente de um mandar às favas de tal modo exagerado que só pode ser uma peça humorística non sense - se bem que pensei em alguns lugares onde já trabalhei e (ressoa novamente o trunfo da série) a coisa não está tão longe assim do cotidiano (a torta fria - se devia ir cenoura no recheio, era um ponto de inflexão no debate. Time sem cenoura, forever).


A questão é que nosso modelo de lidar - inclusive com as 'recompensas' - precisa ser limpado, como em um jato de areia ou bicarbonato, dessa sanha de produtivismo neoliberal. A 'recompensa' precisa ser afirmativa, ativa, e não um anestésico. A fuga dos funcionários da branch de Scranton, além de inútil, é ilusória. É um componente tragicômico que não traz nada além de algum tipo de acúmulo posterior como quem busca um alívio momentâneo (não digo que não possa ser algo bom ou necessário) e que confia em uma estrutura (rachada, ou bem frágil) para passar desapercebido. Não aposto fichas também nesse tipo de lógica da 'recompensa' que está sempre em busca de uma contraparte que lhe dê sentido, e que nunca é protagonista, senão pálido reflexo (ou sombra) de uma obrigação à moda neurótica, que é a verdadeira protagonista.


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Esses tempos falei sobre o ato de escrever e - especialmente em sentido acadêmico (minha praia), mas, imagino que, não apenas - sobre a forma como temos que lidar com isso à moda do jogador escolado do cassino: sair da mesa quando estiver ganhando.


Não se trata de encomendar uma torta, beber whisky ou simplesmente dar um trabalho por encerrado de forma tosca quando se atinge algum hit, mas é crucial que se lide bem com a tortura psicológica auto-infligida de toda e qualquer pessoa (em maior ou menor grau) que com um mínimo de consciência está produzindo algo nesse sentido: não conheço ninguém que criou algo efetivamente bom que em algum momento não se questionou sobre a firmeza do que estava fazendo. É preciso ter um nível de desprendimento ao ponto da desconexão da realidade para simplesmente confiar cegamente, sem dúvidas, hesitações ou medos, que se está elaborando algo magnífico.


Foi por isso que inventei essa métrica: o dia todo, uma batalha entre a dúvida corrosiva se não estou escrevendo alguma bobagem, e/ou se estou em algum tipo de caminho certo. Se a empolgação é cringe e resiste a uma segunda olhada em uma manhã seguinte, ou se há algo quente em mãos, que mal pode esperar. Quando ocorre a(s) segunda(s) hipótese(s), procuro estacionar por ali. Mais por uma questão de segurança (tropeiros buscando o terreno menos acidentado para montar acampamento) do que por uma espécie de celebração tal e qual a turma do avião uruguaio de jogadores de rugby, que achou que era uma boa ideia viver uma noite de farra quanto aos suprimentos, na neve dos Andes, porque tinha certeza de um resgate rápido (deu ruim).


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Parar quando você se dá por satisfeito ou quando parece seguro que o sentimento bom vai permanecer aquecido, energizado - ou mesmo antes de a banca estourar e retornarem as dúvidas fantasmagóricas sobre se tudo está horrível e um menor peteleco em algum ponto-cego do castelo de cartas não desmancha absolutamente tudo de forma irremediável. Manter a brasa acesa do otimismo a partir de um não exaurimento físico e mental. Não testar seus limites de modo barato. Não procurar ir além de uma zona de conforto só por um desafio de premissa imposta exteriormente.


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Tem vezes que às quatro da tarde de uma "quarta feira" o melhor que se tem a fazer é dar a semana por encerrada, mesmo. Sem ser uma espécie de banco de horas (literal ou afetivo), sem ser uma 'recompensa' que só serve para justificar mais provações, sem ser a vagabundagem enquanto pequena travessura. Um "encerramento" assumido, como quem é um verdadeiro "empresário de si mesmo" para além da fábula do soldado-raso autônomo que trabalha mais que cavalo de rodeio e crê na ilusão de ser equiparado ao grande CEO, eis que, afinal, explora alguém (a si mesmo, no caso).


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Ontem escrevi duas páginas. Esses dias foram quinze. Em ambas: satisfeito. Aliás a retranca em relação às duas é o que se mostra crucial para possibilitar os dias de quinze. Tem vezes que é sexta feira, 19h e a semana não está nem perto do fim.



UM FILME: não é um filme no sentido rigoroso, como às vezes me permito nessa seção. A série britânica The Death of Bunny Munro, adaptação do livro de mesmo nome de autoria de Nick Cave - que já recomendei um tempo atrás - é um triunfo e tanto. Tinha algumas questões se iria conseguir captar o espírito bizarro e maravilhoso da obra literária, e vai no ponto de uma forma excitante e comovente. Matt Smith é uma escolha absurdamente certeira para o protagonista, mesmo que não guarde de Cave (duvido que alguém leu o livro e não visualizou mentalmente o próprio Cave em Bunny) semelhança física - especialmente quanto ao cabelo (tenho para mim que o cabelo de Cave é tão essencial para o personagem Bunny quanto seu próprio rosto). A forma como o filho do protagonista (vivido por Rafael Mathé com um talento digno de nota) admira e imita o pai (um dos pontos chave do livro) é retratada de forma adorável em meio ao caos que acompanha a vida desleixada e errática (e por vezes odiosa) do protagonista. Tudo está correto. Primeiríssima qualidade.


UM LIVRO: lembrei esses dias - já que o tema é escrita - de uma das melhores biografias que você terá notícia, e melhor, escrita de verdade pelo seu autor, Salman Rushdie - Joseph Anton: memórias (o nome que ele usava, juntando Conrad com Tchekhov, enquanto era protegido pelo serviço britânico quando ameaçado de morte pelo regime iraniano, nos anos 80) é um deleite do início ao fim. Um panorama genial do século XX. E algo sobre ter de 'produzir' em meio a, digamos adversidades.


UM DISCO: às vezes não tem livro, nem filme. E às vezes não tem disco.

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