- Gabriel

- há 3 dias
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A garotada não anda mais de bicicleta em bando. Depois do Google Maps, não há mais mistério nenhum, nem espaço vago de tapumes de empreendimentos vindouros. Amputaram a aventura. As tardes no litoral vêm com uma modorra intransigente. Lembro da vez que eu e uns amiguinhos munidos de Monarks e Calois 'cross' fomos em segredo de Capão da Canoa a algo como a Praia do Barco (deveras além do perímetro que nos era permitido por lei - mães), e mesmo tendo basicamente andado exclusivamente em linha reta, aquele era o lugar mais insólito, desolado e perigoso onde já tínhamos estado. Stranger Things é mato (hoje, para todos os casos, os meninos teriam sido localizados por um app conectado ao celular do pai, e/ou teriam se entediado e pedido um Uber para retornar).
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Já contei, certa vez, a história do rapaz, cujo nome não será declinado, que passei a chamar de Garoto, interrompido. Houve um 'pacote de extensão' da história, digamos assim.
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O Garoto era, de fato um garoto quando nos conhecemos jogando bola na praia e taco na rua, nos anos mil novecentos e Ronald Reagan. Não se joga mais bola na praia, aparentemente, fora da prática da chamada altinha que conseguiu, é preciso que se diga, uma proeza que o próprio futebol, itself, em mais de 100 anos jamais arranhou: unir em uma única categoria, sem traumas nem vantagens físicas, homens e mulheres.
(a altinha, aliás, mantém vivo o espírito do frescobol como naquele painel de azulejos em Copacabana, adornado pela explicação de Millôr Fernandes, sobre ser um 'esporte' inventado entre os Postos 4 e 6, caracterizado pela ausência de vencidos ou vencedores. A 'disputa formal' da altinha é puramente estética, vigorando um espírito colaborativo de obra coletiva interessante).
A bola na praia era permeada por contornos peculiares como o das goleiras de chinelos, gerando uma problemática trave metafísica que às vezes era atingida, por vezes se alargava ou encolhia no sentido espiritual conforme a discussão. Como dialetos, havia regras específicas que variavam por vezes muito antagônicas entre grupos (gol: só vale de dentro da área desenhada ou só de fora de um dado perímetro? Vale 'bomba'? A trave metafísica tem limite superior ou é como a propriedade romana, que dá ao titular o direito à reta do lote tanto ao céu como ao inferno?).
Ninguém mesmo mais joga taco, uma modalidade interessante onde fatores extra-regras promovem intervenções a todo instante e se integram à partida (apareceu um carro no começo da rua, é preciso que se interrompa a rodada, mas se não se pedir a competente licença - "para um" ou "para dois" - a casinha pode ser derrubada, e não tem choro).
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O Garoto, interrompido era (escrevi dessa vez como se ele tivesse morrido, com o verbo no passado indicando não-presença, mas não corrigirei, apesar de falsa a associação) de uma família do interior que possui um apartamento térreo com uma simpática mini-varandinha ao lado de onde era o edifício onde minha avó tinha um apartamento, um dos bastiões - museu vivo - de um centro do balneário que gerava um incômodo gap visual e uma fenda temporal em meio a espigões de mau gosto que brotam quando menos se espera. Hoje, substituído por algo como um retângulo cinza destacado em feiura, com dez andares mais dois de garagem.
Ele tem (os dedos estavam quase digitando "tinha") um ano a mais que eu e, em um dado verão, contraiu algo como uma meningite horrorosa (sempre esqueço o nome da doença, podendo ser essa, ou não) que o colocou entre a vida e a morte - pendendo para o lado da morte - durante três anos onde a varandinha ficou vazia e o verão da família ficou em um tristonho stand by. Sem redes sociais nem qualquer contato fora do diz-que-diz dos vizinhos e eventuais conhecidos colaterais, havia uma apreensão quanto àquela família até brotar a notícia de que ele havia sobrevivido e que eles tornariam a frequentar a orla para as festas de fim de ano e parte do verão. Alegria. Fugaz.
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Na varandinha, o Garoto jazia, petrificado, olhar perdido, cadeira de rodas, pele devastada e cabelo fraco como se tivesse sido sugado em sua energia vital por algum monstro vampírico de filme. A visão causou espanto e uma certa (não é legal admitir) ojeriza no então Gabriel adolescente dos anos mil novecentos e Itamar Franco. Fora meu tio, falecido em 1988, foi o contato mais intenso com a morte (ou seu limiar) de que eu havia tido notícia em termos de minha vida efetiva. Parecia errado, demasiadamente.
É preciso um certo conhecimento e um certo esforço para distinguir ele dos pais e/ou tia avó que ali estão, corriqueiramente. Definitivamente parece pertencer a uma (ou mais) gerações distintas do seu irmão mais velho - dois anos mais que ele, e do mais novo, um ano a menos que eu. Movimentos lentos, risada com delay. Olhar perdido de quem parece dormir lúcido (percebi isso em cada vez que passei - de longe - e olhei para lá de revesgueio).
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Três anos de afastamento veranístico na era em que a comunicação estava mais próxima do medieval do que do que se pratica hoje é muito, muito tempo. Meninas viram mulheres, até barba cresce em alguns, a vida muda demais. Mas eu sigo achando minha atitude meio sem desculpa. Ou seguia (conforme vou explicar).
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Passei a observar o Garoto de longe, quando a família o levava para o convívio e um - há um ar cruel aqui - observar do movimento na rua. Desenvolvi uma espécie de ritual invertido onde eu evitava o trânsito por aquele trecho de calçada - por mais que fosse o mais fácil e lógico para meu acesso à beira da praia, porque passei a crer piamente que seria uma situação tenebrosa a de trocar olhares com esse velho conhecido que agora parecia um conhecido velho: alguma coisa em mim, no meu viço natural, no fato de eu estar serelepe rumo às ondas, carregando uma prancha em baixo do braço, como, pensei, deveria ser natural, poderia geral uma espécie de antimatéria de ofensa capaz, supostamente de destruir um cara que estava ali, meio condenado a uma eternidade na varandinha, vendo um trecho de rua como uma televisão de um só canal.
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Questionei muitas vezes se esse afastamento unilateral, estranho e um tanto covarde não deveria ser rompido de forma tão brusca como o acometimento da doença. Se não deveria haver um ato primordial de minha parte que simplesmente acaba com essa palhaçada e quebra com esse hiato meio espúrio que é minha culpa, minha máxima culpa, minha tão grande culpa.
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Esses dias - passo no momento da escrita disso um curto período no apartamento da praia - cruzei (evento inédito), um trecho de viela de praça com pouco espaço lateral e em linha reta, o Garoto, sendo empurrado em sua cadeira por seu irmão na direção oposta. Duelo de faroeste. Samurais se encarando na ponte. Inescapável.
Pensei se o destino tinha, enfim, me dado o xeque-mate e resolveu agir ante minha inércia quanto ao fato.
Esbocei reação, quando da proximidade fatal, mas percebi no olhar perdido no horizonte do Garoto (definitivamente estava em algum lugar, que não ali) e no trânsito descompromissado de seu irmão (bem diferente de ter virado o rosto ou propositalmente ignorado cordialidades) que não fui reconhecido. Não fui reconhecido, simplesmente. Não sou mais ninguém digno de nota ali. Desde quanto tempo? Jamais saberei.
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Duvido que algum tipo de interação mais incisiva não gerasse ao menos alguma vaga lembrança, mesmo após três anos de quebra total de contato de pessoas em fase de crescimento e muda de voz e mais anos e anos de afastamento pela circunstância. Mas o fato é: se minha atitude inicial parecia rude, comecei a perceber que era um tanto megalômano achar que eu estava negligenciando algo fundamental quando me afastei de um sujeito com quem convivia por umas três semanas por ano durante algum tempo (dois, três verões?), e de quem fiquei alijado compulsoriamente por três e com quem não troquei mais ideia por uns vinte posteriores.
Na minha lenta e longeva, embora sectária, história com o Garoto, interrompido, não é hoje que darei um ponto final com ares de desfecho. Mas é fato que talvez a gente acabe - ao contrário dos manuais de autoajuda contemporâneos - dando uma equivocada e superdimensionada importância para nós mesmos que talvez não mereçamos.
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Dia desses em uma das poucas ruas que ainda parece um limbo perdido no tempo e no espaço do litoral de arquitetura hostil (e brega) passava um vendedor de casquinha e algodão doce. Gritando para se anunciar entre as casas, descansando na sombra das servidões. Um vendedor raiz, analógico. Um andarilho que, como eu - por vezes - parece ter vindo de um portal aberto ao acaso, de outra época. Outra dimensão. Saúdo-o, e dou prova de sua existência, em retrato sacado sorrateiramente:

UM FILME: impressionante o iraniano Foi Apenas um Acidente. Impressionante mesmo. De um início meio embrulhado que começa a dar ares de que será enigmático e de andamento confuso, ao problema central, estatelado, na sua frente, como em uma sala de cirurgia, não passa muito tempo e logo você está confortável com a trama que só vai enroscando mais personagens - mas desconfortável com o tema trazido. O clímax é de aplaudir de pé: o tipo de clichê que se usa nesse caso é o de que, ora vejam, poucos atores, poucas locações, filmagem de modo cru: tudo sustentado por uma premissa excelente.
UM DISCO: Líder dos Delinquentes é o novo trabalho do Pusher174. Cuidado com o conceito de novo, aqui: Pusher é um artista que opera na modalidade do it yourself de um modo bastante extremado e nos últimos tempos faz brotar uma quantidade caótica e massiva de produções. Mas esse parece ser seu disco mais bem acabado: punk e sujo (sujíssimo) como sempre, mas com uma parede instrumental que sua mais orgânica (algumas de suas coisas são literalmente caseiras e você percebe um descompasso na produção que é compensado na base da raiva). Futuro do punk rock no Brasil? Ou passado? Parece que sim, no meio disso, em faixas como as 'vizinhas" "Porque sim" e "Amigos para sempre". 11 músicas -> 19 minutos!
UM LIVRO: li nos últimos dias Desejo e Revolução, basicamente um debate onde Franco 'Bifo' Berardi e Félix Guattari por vezes quebram o pau sobre modos revolucionários, o conceito de classe operária e os fluxos de desejos de toda uma geração de ressaca quanto a guinadas não concretizadas, em 1977. Nada que interesse muito vocês ;)