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Reflexões, divagações, pensamentos, fluxos de consciência, cotidiano. Toda semana um texto novo

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 1 hora
  • 10 min de leitura


A figura histórica de Giuseppe Garibaldi, o corsário, idealista, mercenário, revolucionário profissional e "herói de dois mundos" (não conheço ninguém com algum tipo de biografia similar que tenha praças e logradouros públicos em seu nome em ao menos três continentes) é, costumeiramente, representada como a de um homem barbado, grisalho e mais envelhecido e um tanto calvo (o andor do tempo pesava e feria mais o pessoal em outras épocas), mesmo quando retratado na (se as datas e a matemática não estiverem equivocadas) plenitude de sua então tenra vida adulta quando se aliou aos rebeldes farroupilhas durante a revolução respectiva, no Rio Grande do Sul, ali por 1838.


Ninguém aqui viu Garibaldi naqueles tempos e é de se esperar que ilustrações gráficas e audiovisuais, de um jeito previsível, romantizem e idealizem com certa liberdade contextual a aparência do sujeito que, na produção global "A Casa das Sete Mulheres" (baseada no livro de mesmo nome de autoria de Letícia Wierzchowski), fora vivido por um sensualíssimo e apolíneo Thiago Lacerda, ganhando inclusive um status de galã tão estonteante quanto o currículo fantástico de suas aventuras, magnetizando ainda mais (como dizem as lendas e registros) a atenção de um mulherio dentre o qual se incluíam Manuela de Paula Ferreira (citada inclusive em suas memórias escritas por ninguém menos que Alexandre Dumás - para aqueles que tentam dizer que a eventual relação de ambos foi uma fanfic da moça - no que seria um dos primeiros registros do estilo) e Ana - depois conhecida por Anita - acrescida do sobrenome do amado - ao longo do cerco de Laguna-SC.


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A minissérie foi um sucesso fulgurante na época (começo da década de 2000) e contava também com uma espécie de licença poética vertida em uma medievalização, um quê de liberdade estilística no estilo Dungeons and Dragons no que diz para com as figuras históricas do período, tais como o General Bento Gonçalves - cujos retratos apontam para uma coisa muito mais condizente com o ar militaresco típico do Brasil imperial do que para um misto de caudilho com Aragorn que foi emprestado por um Werner Schünemann de cabelos longos, barba idem e olhos azuis. Aliás, colocar todos os comandantes farroupilhas - ou quase - com cabelos longos criou uma aura mística em torno da gauchada representada na série que evoca uma série de referências psicosomáticas que vão de aventuras de capa e espada passando por encarnações da seleção argentina. Sexy, definitivamente.


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Claro, essa de mitologicizar da forma que seja mais conveniente ou tomar verdadeiras curvas poético-históricas em prol de uma versão mais apaixonante de uma narrativa é mais velha que as pedras. Estamos cercados de pessoas que nunca vimos nem em referência fidedigna mais ou menos remota, quanto menos exata (desde o próprio Jesus Cristo até personagens das priscas eras como Reis, Imperatrizes, agitadores, nobres oradores ou mesmo facínoras de renome).


Vale tudo para incrementar a lenda - e inclusive uma lenda não é tão potencialmente lendária se não inspira justamente paixão e curiosidade que pode advir também de alguns tipos de operações meio camufladas (ou nem tanto) em maio à forma como são apresentadas e representadas. Tornar alguém mais bonito(a), mais valente, mais soberbo(a) e amplificar numericamente seus feitos é também algo que sempre existiu nesses contextos.


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Porém, tenho visto que cada vez mais se populariza e normaliza uma coisa que percebi como tendo o ápice entre algo como o final do primeiro governo Trump nos EUA e o governo Bolsonaro, no Brasil, e envolto dentre o modus de operação típico do estilo ideológico e afetivo das pessoas que costumam admirar essas criaturas e o que elas representam:


Na época (algo como 2021) comentei insistentemente com amigos que - tirante o próprio conceito de "pós-verdade", primo irmão da fake-news - havia uma espécie de mania bizarra dessa turma em querer dar o chamado banho de loja mítico e lendário em pessoas que estavam ali, definhando a olhos vistos. Curiosa uma representação do presidente estadunidense que vi então, que mostrava ele musculoso (estava de regata), portando, altivo, uma águia nos ombros, enquanto agredia o que pareciam ser manifestantes democratas, e impossível não notar idem suas pernas torneadas e uma proposital protuberância em sua pélvis, indicando uma virilidade anatômica que, segunda consta o único trágico relato que temos sobre, não era exatamente bem assim.


O homem é um idoso flácido com pálpebras cansadas, alguns faniquitos cognitivos evidentes, uma ausência de ginga tristonha (sempre que tentou praticar algum arremedo de dança - o que virou, ironicamente, sua marca registrada) e um andar pesaroso típico de uma pessoa estranhamente orgulhosa de seu sedentarismo crônico. Está ali, vivendo na mesma época que nós, aparecendo nos noticiários todo dia, possível e passível de ser acompanhado full time. Quando mais pululavam imagens e desenhos/sugestões dele andando de motocicleta, posando sem camisa mostrando peitorais viçosos e protuberantes, praticando atividades incondizentes com seu próprio interesse diário, mais eu ficava intrigado. Não era mera ironia, era um tipo de tentativa de emplacar uma visão transcendental de alguém que não estava (como Jesus, Alexandre, O Grande, Bento Gonçalves, Cleópatra) disponível em larga escala para tanto. Era como querer imprimir em 3-D uma espécie de lenda a la carte para ser usada ao invés do homem real, cuja imagem não permite sobressaltos bizarros dado que está a nosso alcance - a menos que se queira sofismar geral. E se quer, pelo visto.


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O mesmo ocorria e segue ocorrendo (agora em menor grau) com um Bolsonaro que estranhamente ainda tem um componente complicador que torna tudo mais freestyle ainda, que é o de sua saúde periclitante ser utilizada constantemente (por ele mesmo e sua galera) como um trunfo ou salvo conduto. Imagens de Bolsonaro botando 'medo' em Lula (risos) e em pessoas trajadas com camisetas do PT, humilhando 'esquerdistas' em geral, caminhando com galhardia empossado após uma eleição que ele viria a perder, sem rugas, triunfante, rejuvenescido. Bolsonaro olhando para o horizonte. Bolsonaro em cima de um tanque de guerra verde amarelo apontando para frente. Bolsonaro (como Milei também gosta) vertido em uma quimera metade homem, metade leão raivoso. Um contraste com o cidadão decrépito, pançudo, desajeitado e já envelhecido que é imposto em sua fragilidade sempre que periga ocorrer de algum tipo de responsabilidade pelos seus próprios atos ameaçar recair sobre seu colo, tal e qual os farelos de pão que ele ostentava no abrigo quando tentava lanchar e simplesmente não conseguia como um adulto funcional (fingimento? Creio que nunca saberemos) em uma clara exibição de pretensa simplicidade.


O surto atingiu ares bem esquisitos quando em meio ao ano eleitoral de 2022 pipocou nas redes uma suposta foto (comprovou-se falsa) do mesmo Bolsonaro na juventude, o que foi usado como uma espécie de símbolo esquisito de fidelidade dos apoiadores em uma tentativa biunívoca em relação ao próprio fenômeno: discutir um tipo de Bolsonaro em grau de ideia (jovem, bonito - há controvérsias: embora, tenhamos que dizer que há fotos verdadeiras/reais da juventude do ex-presidente que poderiam ser usadas para esse fim, dado que nelas ele aparece sorridente e muito mais bem apessoado que no registro fake eleito por sua claque como estandarte), ao mesmo tempo que trazer alguma coisa de material para o debate - "vejam como era belo nosso ídolo", passando ao largo da questão atual onde isso não é nem um pouco possível de mínima discussão.


O tipo perverso e psicótico de idolatria para com esses dois sujeitos atingia um ponto surreal onde fantasia, materialidade, ideia, imaginação, manifestação e delírio se cruzam, para já não mais importar o que era efetivamente fatal e concreto. É o Second Life estendido. É esse o meta verso que deu certo. Já vi atendentes virtuais e guias tutoriais em sites públicos e privados assumirem forma e trejeitos de pessoas (mormente jovens mulheres), e já soube de astros e celebridades que mantém as suas versões em jogos de multi cooperação como Roblox, Fortnite, e etc, mas não lembro de outros exemplos como o de que na concorrência de uma avatarização proposta e uma pessoa real, as pessoas trabalharem com a avatarização como se houvesse um estranho prenúncio de uma morte - estilo Faraós - que faz convir que se passe a cultuar uma espécie de simbologia representativa (mas com a pessoa viva, ainda que não esteticamente do jeito que você queria).


É um tipo de canalhice diferente de quando Gene Simmons sugeriu que o Kiss deveria continuar com outras pessoas assumindo as máscaras e maquiagens, denotando que eles nada fizeram nos últimos 50 anos além de ganhar dinheiro ostentando um personagem fungível (um tipo cretino de reversão da lenda do Fantasma de Lee Falk, que treina periodicamente seu substituto - para parecer sempre jovem imortal aos olhos mundanos - como parte de um plano).


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Muito antes disso, houve uma febre de compartilhamentos e piadas envolvendo fotos do premier russo Vladimir Putin, entre elas uma famosa imagem que, trucada por aplicativos condizentes, fazia ele aparecer cavalgando um urso selvagem.


Sabe-se que Putin é vaidoso em relação à sua imagem e para um homem de sua idade mantém uma impressionante rotina de exercícios físicos que, se não lhe colocam hoje na ponta dos cascos (73 anos) ao menos mantém vívido algum sinal de quando era inclusive um entusiasta de artes marciais e musculação. Dizem que ele mesmo ordenou alguns retoques para eliminar via Photoshop alguns registros de gordurinhas localizadas ao lado da cintura em uma imagem em que está pescando no Mar Negro em uma canoa. É claro que sabemos que ninguém monta um urso, e que na era dos filtros e edições disponíveis em relação a qualquer modelo de celular vagabundo, ninguém deixa de dar uma turbinada em sua própria imagem.


Mas há algo diferente quando não só se quer ocultar ou driblar alguns elementos (um outro assunto que já fora problemático, e segue sendo de certo modo, mas não será abordado aqui) mas, sim, simplesmente cultuar uma realidade onde não há mais qualquer necessidade de obedecer qualquer tipo de limitação - plausível ou não - para esse tipo de coisa. É como se eu não editasse a cor/temperatura de uma foto minha em busca de uma visualização melhor (e/ou não 'cortasse' as pessoas indesejáveis do fundo para simular solidão em algum registro - Stalin adoraria o recurso), mas, sim, tirasse uma foto minha sem camisa e a publicasse trocando meu abdome pelo do Cristiano Ronaldo. Ou o da Dua Lipa (prefiro o segundo exemplo, mas ficaria ainda mais estranho). E como se as pessoas que me conhecessem não me interpelassem a sério sobre o fato de que estou (sem tom de piada ou chiste) querendo passar uma imagem grosseiramente falsa. E como se pessoas que não me conhecessem passassem a desenvolver pelo Gabriel falsário com abdome da Dua Lipa uma fixação emotiva e sexual sem se importar de ver a foto original e constatar que a coisa é meio distinta. Não é "mais do mesmo" em termos de loucura por atenção/imagem. É algo mais curioso, e mais aterrador.


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Dito isso, percebo que a questão que comumente se passou a chamar de uma adoração do "Neymar Hipotético" ganha ares mais do que de um meme interessante em níveis humorísticos. Passou a ser uma espécie de lente de leitura real e profícua do nosso tempo.


A idolatria que cerca Neymar, por parte de algumas pessoas, desconhece quaisquer critérios lógicos e pode muito bem vir a se tornar um leitmotiv a ser acoplado em outros cenários - inclusive políticos, sociais, afetivos: nada de anormal considerando uma larga faixa de admiração comum entre ele e alguns dos sujeitos citados acima em diferentes (ou nem tanto) contextos.


A guerra também político-ideológica em torno da figura Neymar joga numa espécie de acelerador moral de partículas toda e qualquer birra e consideração passível de ser feita no quesito. Pululam imagens que evocam o que Neymar seria "se", pouco importando as efetivas chances desperdiçadas de ter sido esse "se", surgem por todos lados montagens grosseiras de inteligência artificial situando um Neymar específico (dos primeiros anos de Barcelona, ou do Paris em 2020, espécies sensíveis de auges técnicos conhecidos do atleta) como uma realidade que ignora completamente o que a torcida do Santos e do Brasil todo pôde ver recentemente: um jogador cujo presente prenuncia um tipo de declínio que é solenemente ignorado.


É como uma batalha tola entre crianças travada sobre fatores absolutamente irreais de comparação que lançam mão de uma espécie de trunfo fantasmático em argumentos que escalam entre si de modo voraz, e vão de coisas como "meu pai é mais forte" e/ou meu pai conseguiria lutar com esse, ou aquele sujeito, e chegam a coisas como "meu pai me contou que era o Batman".


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O que me apavora é que essa possível acoplagem dessa prática de visão de mundo que se virtualizou ao ponto de não somente esquecer, mas ativamente ignorar o real pode ser a verdadeira armadilha e o verdadeiro inimigo.


Em Her de Spike Jonze e em Blade Runner 2049 , de Dennis Villeneuve, os protagonistas estão envoltos com inteligências artificiais que são inclusive formatadas para que desenvolvam uma espécie de película de sinceridade e pareçam fazer com que há um inédito e genuíno interesse exclusivo delas (um produto, em realidade) para com seu proprietário. O tom generativo exibido no filme de Jonze para o aplicativo com a voz de Scarlett Johanson pelas tantas "decide" (como outros apps similares) abandonar o seu relacionamento com Joaquin Phoenix. Já a amante holográfica vivida pela (lindíssima) Ana de Armas supostamente sofre ao ser 'desligada' pelos inimigos de Ryan Gosling - e é impactante a cena dele vendo ela em uma projeção gigante, tal a propaganda de um utensílio que ela é, completamente alheia a ele e a 'história' que ambos tiveram em dado momento. HD formatado.


Mas nesses exemplos recorrentes/recentes que se tornaram quase chavão sobre o tema, havia um limiar meio esquisito para uma espécie de crença, de fé, que cambaleava entre uma espécie de querer-anestésico em termos de aceitação de algo que em algum momento de estalo se sabe falso.


O que vemos hoje em dia é um engolfar meio bizarro desse sentido de uma vontade de anestesia meio obscura, no instante em que percebemos que há gente (e não é pouca) construindo sua base de interação social, política, afetiva e racional a partir de contornos onde basicamente não há espaço para qualquer interpelação do real.


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A foto mais deprimente que vi nos últimos tempos foi uma montagem canhestra (e cringe, como sói ocorre) de um Neymar à beira do gramado, vestindo um terno que em nenhum momento da vida foi traje típico de suas aparições, comandando uma equipe ladeado por um texto que sugeria que sua "genialidade mental" faria dele um grande treinador. Antigamente o papel aceitava tudo. As ideias fracas de alguns e a popularização das LLM levaram isso a outro patamar: aquele onde ninguém quer sequer manter qualquer grau de correspondência com qualquer lastro de plausibilidade.


Isso em termos de orientação de preferências políticas - para muito além de fubanguice estética (e moral) - é alarmante.


O que virá, imagino, é algum vídeo curto ou reel jogando lenha da teoria de que o pai do Carlos Henrique tinha ao menos chance de ser o Batman, efetivamente.



UM FILME: estou meio que cansando da A24, definitivamente (eu: um defensor - até hoje). De fato, já está aborrecida a fórmula de suposta originalidade por trás de algum filme maluquinho, com ganas de coolness, algumas surrealidades de roteiro que denotariam proposta artística e brincadeiras com elementos sobrenaturais que rompem limites de exposição de ideias na tela. Talvez Mother Mary tenha sido um dos últimos que encararei, de boa vontade, até o cenário mudar. Gostei, mas está na beirada de outro veredito.


UM DISCO: esses dias deu uma saudade do disco de estreia e homônimo do Vampire Weekend (2008? isso?) e me pus a escutar enquanto corria no parque. Não imagino uma coisa mais 'de branco', mas enfim. Acho uma banda que tem uma discografia bem honesta e com pontos bem altos (outros não). E nada mais branco do que ser um cara de classe média-alta em Nova Iorque e colar com músicos africanos e asiáticos para fazer um som étnico e colorido. Mas o resultado me agrada desde a primeira vez que ouvi.


UM LIVRO: queria ter começado alguma coisa mas uma avalanche de trabalho e uma gripe/alergia galopante me impediram completamente.


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