Treme, carcaça


"Treme carcaça" - como diria(m) o(s) outro(s) - é um mote muito usado nas músicas que forças de segurança entoam ao longo de seus treinamentos físicos, correndo em grupos pelas alamedas ou parques públicos. Porém é um uso incorreto de uma famosa lenda: quase sempre suscitam (com pouca imaginação lírica) que alguém (o "inimigo") tem que tremer. Não é nada disso.
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Esperança ativa. Mais do que de quem 'espera' (sentado), e sim de quem pratica o esperançar. Bota ele na roda.
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No texto que eu e Felipe Abal traduzimos esse ano - e que pela primeira vez fora publicado em língua portuguesa - Wendy Brown faz um diagnóstico preciso de uma certa situação que, em que pese o texto date de mais de 25 anos, segue atualizada por força de tristes circunstâncias que ele mesmo desvela - você encontra o texto aqui.
Em "Resistindo à Melancolia de Esquerda", Brown tece várias premissas, e faz alguns chamados. Um deles, fundamental, se desfralda na ideia de que o pensamento progressista se acostumou com um tipo meio opaco, meio enfadonho (e bastante nocivo) de 'realismo' que na verdade é um disfarce pretensamente sóbrio para uma covardia imobilista: toda uma vida e uma política supostamente simbolizadas por lutas incessantes por mudanças e desassossego quanto à injustiça que acabam muitas vezes pautadas pelos ideais opostos, mediados a partir da cautela e da prudência que, não raro, parecem mais alguma coisa que se oferece à criança por cima do remédio, para disfarçar o amargor. Ou como - andava na moda há uns meses nas telas Imax - uma espécie de Cavalo de Troia, que vende uma carapuça de centralidade e bom senso, mas que esconde (não tão bem assim) um tipo muito chocante de medo que os próprios ideais um dia se concretizem. É um curioso caso de uma postura de guerreiro que parece confortável em jamais entrar na batalha, crendo que a impossibilidade de vitórias que não se busca é também e equidistante de uma impossibilidade de derrotas.
Isso é tão um 'empate' quanto seria coerente a afirmação da ex-modelo e atriz (e atual Mestra em Teologia, Bacharel em Design e Moda e Psicanalista - diz seu próprio perfil em uma rede social) Ângela Bismarchi, de que não gosta de excessos de calor nem de frio, estando "zero graus, bom". Lembro de uma conhecida, certa vez, que ao ser perguntada sobre a questão do feminismo disse que acreditava na igualdade e que portanto não apoiava "...nem o feminismo nem o machismo". Variações sobre o mesmo tema.
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Andamos acostumados no Brasil a nos pautarmos por eternas fugas de cenários apocalípticos que nos impelem a cada vez mais cedo, escolher as opções (candidatos(as), pautas, pessoas, ideias) dentre aquelas que se apresentar(ia)m como a 'menos pior'. Sou adepto da prática, muitas vezes, e não raramente tenho me visto lançando mão dessa espécie de Navalha de Ockham do desespero eleitoral (quem nunca?- ou melhor, nos últimos tempos, quem, toda hora?), mas realmente me impressiona o trabalho da névoa da "melancolia de esquerda" definida por Brown e a forma como essa (suposta) imposição toma a dianteira e se apresenta como espécie de premissa única de escolha. É como se nem a agenda, a prioridade hipotética, a premissa sonhadora inicial, nada, pudesse partir de um horizonte onde o triunfo é possível. Cada vez mais cedo se passa a assentir para com a necessidade frenética de assumir um estilo de derrota prévia e buscar uma composição dita mais segura ante a possibilidade (sempre iminente, sempre na sala ao lado, batendo na porta) de catástrofe. Não passa a ser uma opção ante um cenário: passa a ser a forma de pensar, ser, estar no mundo.
Troca-se a esperança e sua busca por um conformismo que lê tudo sob a lente da necessidade prévia de um stalemate (é o que a máquina te oferece, de pronto, caso o xeque-mate por sua parte pareça inevitável, uma espécie de solução de cavalheiros que procura obstaculizar uma derrota amarga) atávico, um pedido de arrego como postura afirmada (e não como saída eventual) - como única postura, em alguns casos.
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A situação fica ainda mais dramática quando percebemos que alguém pode servir exemplarmente de contraponto e esse alguém reside não apenas em uma bizarra camada política conservadora-reacionária (acredite, embora aqui, unidas, essas duas coisas não são iguais, e esses termos poderiam até guardar algum antagonismo entre si em um outro universo, em uma outra galáxia que parece engolida pela imbecilidade), mas nas franjas mais extremadas dessa: o fascistóide padrão já está perfeitamente ciente de que o céu é o limite de sua imaginação política desastrosa e aterrorizante. Não foi eventualmente criado, mas está (com certeza) trabalhado na noção de que é (ou parece ser) infinita a possibilidade de construções desde o ponto de vista de leva em conta a aniquilação de vidas alheias (de várias formas possíveis) nem como um acanhado efeito colateral ou cálculo cínico de prejuízos, mas, sim, como o objetivo, inclusive assentido: esses caras tem um invejável medo de nada, um invejável receio de nada, na hora de propor, dado que qualquer amarra ou limite de cunho humanista parece ser transponível por hipóteses por mais abstratas e infundadas que sejam.
É uma ideologia que tristemente tomou para si (e para seus delírios assassinos) uma das joias mais caras de nossa coroa, que é a capacidade de inebriantemente sonhar. Se não admitirmos isso, é difícil qualquer conversa iniciar.
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Período eleitoral passou a ser um período de medo para mim.
Desde pequeno me empolgo no período (quando criança, testemunhei a mitológica eleição presidencial de 1989 e sua coleção psicodélica de freaks e nanicos tentando uma chance frente a gigantes eleitorais em uma disputa que mais parecia a Corrida Maluca dos desenhos animados e que tinha, sim, uma ar de possibilidades mágicas após a injeção de ânimo e novidade trazida pela Constituição promulgada recentemente e a aurora de um, enfim, novo Brasil pós-ditadura).
Tirei meu título de eleitor com dezesseis anos (embora só fosse votar, mesmo, estreando ele, no ano seguinte - elegi o prefeito de Porto Alegre na ocasião, sorte de principiante).
Quando pequeno, costumava decorar as músicas/jingles, conhecer as campanhas pelas cores, logomarcas e motes, saber números de candidatos como quem assiste a um evento tal a Copa do Mundo.
Quando mais velho, queria discutir programas, ideias, a postura nos debates, as coligações e compromissos. Seguia uma festa, mas de um jeito diferente.
Deixou de ser assim e é impossível não ter em mente o momento exato.
Em 2018 tudo perdeu a graça dado que não havia um punhado de propostas ruins, mentirosas, risíveis, canalhas e inconstitucionais, em combo. Havia tudo isso amalgamado. Não era um oponente. Era algo indizível. A ameaça do indizível, por sobre tudo aquilo que um dia eu pensei que era verdadeiramente tenebroso (e que ganhava, automaticamente, ao mesmo tempo, tudo, um ar, agora, de uma espécie de ruim aceitável. Quase simpático. Eu era feliz e não sabia - ou antes de 2018 eu era um tipo de triste com o qual era possível conviver).
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Bem, sobrevivemos (literalmente, no caso de um assunto no qual não quero entrar - e que muitos não estão aqui para poder dizer o mesmo).
Porém o indizível, e sua admirável sanha pelo futuro (ainda que seja uma posse maníaca, guiada por uma sinistra vontade de destruição do mesmo), seguem firmes. Não vão embora tão cedo. Não é caso de um remédio de dose única. Temos que nos acostumar com o esquema de uma doença crônica (e mortífera).
Não quero nada deles, além do que é meu de direito e me foi usurpado: a capacidade despudorada e acachapante de não apenas sonhar, mas propor o que virá. O que pode vir. O que deveria chegar. Para onde deveríamos rumar.
Com o que poderíamos ousar delirar, ainda que de forma infantil - tendo a irrealidade como um detalhe indiferente, o que faz faltar pouco para ela ser apenas uma etapa em um processo, inegavelmente, por mais bobo que pareça. Até essa bobice nos seria útil.
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Essa semana a Deputada Érika Hilton comandou um ato de campanha por sua reeleição em São Paulo com uma motociata. O ato em si já carrega um simbolismo muito forte. A usurpação de uma ideia e um costume que fora ultimamente ligado ao outro lado, como forma de símbolo identitário e tenacidade visual. Ao invés de tiozões e sujeitos que vivem em uma fantasia pueril refletida em uma espécie de vida-cosplay, não de um personagem em si, mas de uma série de signos amalgamados para a construção de uma espécie de meta-modelo de homem ideal em seus imaginários, o que se viu foi uma estética que remete ao tipo de vestimenta e o tipo de equipamento (as motos em si) que primava por uma associação com algo plausível no cotidiano e na estética das vias das grandes metrópoles: uma democratização no quesito trouxe uma linguagem de uma espécie de motoboyzismo cultural que de cara afronta o suposto americanismo fictício dos convescotes reaças.
Érika - ao contrário de um outro sujeito que inclusive era vezeiro em deixar um exemplo de ilegalidade tola em situações similares - trajava um capacete cor de rosa (pequeninas, mas potentes - ainda - simbologias), adornado por dois rabos de cavalo postiços (igualmente rosados) que faziam parecer que seu cabelo transbordava do próprio capacete (em uma alusão clara - ou mesmo bem flagrante) ao aclamado álbum de alguns anos atrás da cantora espanhola Rosalía, "Motomami" (mais um acerto - apesar de ter já mudado de Era, como convém à cartilha das divas pop da atualidade, o look é icônico e a cantora, ela própria, não vai suplantar essa imagética tão cedo). Na foto que considero a imagem de uma campanha política mais forte e inspiradora dos últimos tempos, Érika fala com ímpeto em um megafone parente o cortejo, envolta entre apoiadores que vibram e dissipam uma fumaça de sinalizador (também cor de rosa - e isso eu não sabia que existia). Ela parece dar uma tremenda bronca em alguém, em algo. Dissipa uma aura de indignação e justiça raríssimas. Seus oponentes políticos e existenciais adoram as metáforas e metonímias que evocam insígnias militares, gritinhos de guerra fajutos ("aço", "selva"), coragem de plástico mole: Érika, na imagem, está mais próxima de um general perfilado dando o discurso que antecede à batalha do que todos eles vão conseguir em toda sua vida. Os que a circundam festejam, vibram. Erguem braços. Fazem "o L". É difícil alguma descrição que faça jus à forma imagética dessa cena capturada - que é remontada em nossa mente evocando uma série de coisas que sabemos sobre a Deputada, sua voz, sua postura, o tipo de energia que despende em seus pronunciamentos. É tudo adequado. Tudo empolgante.
Resumindo de forma bastante didática: a foto cheira a vitória. Ela emana triunfo. Ela irradia uma coisa que há muito não se vê costumeiramente na esquerda. Exala uma confiança e um ar de um tipo específico de caos e euforia que dá gosto. Enche o peito. Os olhos. É mais que uma foto: é uma postura, ilustrada, como em um manual.
Foi um ano que - para além de um close certeiro no sentido literal, foi cheio de closes enfáticos por parte da Deputada, que foi uma das vozes mais marcantes (entre muitas) da discussão do Projeto de Fim da Escala de Trabalho de seis dias, uma coisa que carrega consigo aquela que parece a maior das ousadias: fora proposta com níveis similares de (com o perdão da figura de linguagem) ousadia e alegria. Em nada reativo, em tudo proativo, o projeto trouxe para uma das pautas mais consistentes, clássicas e importantes da vida brasileira, uma coisa que a esquerda parecia esquecido como era: o poder de se suscitar algo diante do que se busca, e não simplesmente o jogo de eternas composições que, antes mesmo da contenda, já desfigura o ideal em prol de complacências mais seguras.
A Érika que peita os discursos atrofiados com elegância. Que se impõe na garra. Que discursa forte. Que transita com galhardia no jogo das redes. Que obriga o outro lado a fazer algo. Que coloca o outro lado na posição de estudo. Na defensiva. No desespero de empreitadas fracas, que saem pela culatra. Uma esquerda que escolhe a partir de si, e não desde um buffet de possibilidades já saqueadas pelos outros. Filé, não fim de feira.
Nas vozes das novas e antigas Érikas que desabrocham e se mostram, um caminho que chega a atiçar fluxos de dopamina, que excita, empolga, contagia. Um fim a fórceps de um imobilismo libidinal e ativo que paralisa corações para hipotecar sonhos a um excesso de zelo que, como sabemos, é uma espécie de zero graus Celsius ofertado enquanto meio termo.
Muitas vezes não falta cadeira nem caneta à esquerda (e apesar de tudo, em nosso país mais do que na média). Falta desbloquear o senso de esperança e a tomada respectiva das rédeas de o que pode ser o futuro - e de o que é permitido achar que ele pode ser.
Domingo, desejo que tenhamos a consciência de que onde é possível ir para cima deles, é imperioso ir para cima deles.
Na frase (supostamente) original, dita pelo "desaparecido" Dom Sebastião antes da batalha do Alcácer ("...Treme carcaça velha, e tremerás mais ainda quando souberes aonde vou te levar"), uma fina ironia onde a pessoa reconhece - porém desafia, conscientemente - o próprio medo. Aliás: separa o medo sentido de si mesma. Passa além do Bojador e além da dor, como diria um outro, ainda.
Treme, carcaça. E pra cima deles. Não há incongruência aqui.