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Sala de Recuperação

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 43 minutos
  • 8 min de leitura

É difícil que alguém que me conheça a fundo não saiba de minha especial predileção por roteiros fantásticos que incluem a formação ocasional de microcosmos sociais forçados pelas circunstâncias. Aquele negócio de pessoas serem obrigadas a cooperar, eis que lançadas em alguma situação extrema ou absurda e formarem ali um laço tão incrivelmente fugaz como sólido e tudo quanto é clichê que advém daí. Um tipo meio bizarro de experiência kafkiana, embora coletiva.


Talvez seja coisa de quem cresceu como filho único e adorava alguma programação em grupo como uma espécie de vivência de aventurinha tal e qual assistíamos nos filmes da infância dos anos 80. Dos Goonies passando perrengue (e promovendo uma coalisão ocasional entre as crianças e os adolescentes - aliás, a necessidade de união entre "antagonistas", "desafetos", "mais velhos com mais novos" e a formação absolutamente previsível de casais nesses temas/argumentos é tão patente quanto encantadora), chegando a pessoas ilhadas em um shopping center cercados por zumbis precisando unir forças, e/ou a um bando de gente que - por uma espécie de desvio bizarro em alguma estrada vicinal do interior estadunidense - vai parar em uma cidade esquisita onde não é muito bom circular depois que anoitece, eu tenho esse como um mote de estimação para uma historia.


Enfim: barcos de fugitivos e a camaradagem temporária entre os feridos e garotas assustadas que carregam bebês chorões. Um monte de refugiados políticos sem nome num apartamento no Recife nos anos 70, aproveitando uma espécie de festinha tensa, embora no estilo "já que estamos aqui?".


Uma Sala de Recuperação pós operatória. É aqui que se encontra nosso herói.


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Fiz um procedimento cirúrgico na quinta feira passada. Coisa simples, em que pese nada que envolva sedar alguém por inteiro e se imiscuir endoscopicamente dentro do corpo do cara para lacerar uma parte dele que era original de fábrica seja necessariamente simples.


Fiquei no estaleiro, internado, por quase 24 horas. A questão é que o tempo de recuperação hospitalar foi normal, mas não as condições em que ele foi cumprido: ocorre que havia alguma coisa ainda não esclarecida que causou uma espécie de caos de ocupações no hospital respectivo e fez com que simplesmente não houvessem leitos/quartos disponíveis. Isso: não interessando convênio nem porcaria nenhuma similar (lembrei do vilão do Titanic querendo dar uma grana preta por um lugar num bote), não haviam quartos. O que significa que as horas que deveriam manter a pessoa na "Sala de Recuperação" viraram a internação em si. Olá, me chamo Gabriel e sou o ocupante da cama n. 14 (dia do meu aniversário, camisa do Cruyff).


Sim, passei 24 horas em uma "Sala de Recuperação", com fios e tubos ligados à minha carcaça, soro gelado sendo injetado e drenado do meu sistema, uma quantidade sazonal de remédios sendo enfiados via um acesso à veia que fora feito nas costas da mão, nenhuma posição confortável para dormir, barulhos de aparelhos medidores, oxímetros, checagem de pressão outros bips e tóins que pareciam sair de um emulador de 8-bits em uma frequência ininterrupta e enlouquecedora. Sem privacidade, sem familiar/acompanhante deitado ao lado, sem televisão, sem livro, sem celular, sem meus pertences. E o mais aterrador: sem qualquer nesga de sono - apesar de ter sido submetido a uma medicação condizente.


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(Devia ter feito como o garotão da cama n. 09, completamente serelepe, tendo realizado uma artroscopia no joelho esquerdo - tinha pinta de boyzão desses que trabalha na empresa do pai e pratica esportes náuticos, devendo ter se lesionado durante uma sessão de wakeboard - que choramingou até conseguir morfina da médica plantonista do horário e dormiu nas nuvens como um bebê a maior parte do tempo. Quem, por deus, precisa de morfina para uma artroscopia que não impedia movimento algum? - com um andadorzinho ele inclusive ia sem problemas ao banheiro, várias vezes)


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Na cama n. 12 uma moça havia feito alguma coisa relacionada ao útero/ovários (não dá para escutar/saber, assim, de tudo tudo na Sala de Recuperação). A mãe dela estava igualmente aflita com a questão da impossibilidade de aquisição de um leito e - minha mãe que estava por lá nos períodos de visitas assuntou, obviamente, como sói - disse que ela tinha algum plano/convênio pica que 'garantia' (risos) quarto individual e que já havia falado que 'aceitava' quarto compartilhado, se fosse o caso. Doce ilusão. Ficou no filme até o final. Mas estava bem, apesar da suposta agressividade do procedimento. Conversamos algumas vezes e ela era bem humorada. Até chamou uma enfermeira para mim quando viu que a senhora não escutou meu chamado mais tímido para pedir outra rodada de bolachinhas água e sal. Tinha várias restrições alimentares e perguntava se tudo o que vinha nas horas de lanches era diet ou sem lactose.


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Na cama n. 06, quase no final do corredor e próximo à porta do banheiro, havia um sujeito cujo rosto não se via (deitado 90 graus) que ficava como uma múmia amaldiçoada murmurando "água...água". Por algumas vezes fora atendido (e o pessoal se revezava para reforçar o alerta Às enfermeiras passantes), por outras não. Talvez não pudesse (tem cirurgias que, sabemos - eu mesmo tive que fazer um jejum - antes - de oito horas que nem água se podia beber).


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Na cama n. 08 uma figura peculiar: um senhor que basicamente queria muito formar laços de amizade. Tanto que na hora de ir embora promoveu uma situação meio esquisita quando simplesmente abriu o biombo fechado onde eu me encontrava nu, me vestindo, para me abordar de assalto e conversar sobre se eu devia ou não fazer algum exame para ver se eu tinha algum resquício de pedra nos rins ou na vesícula, eis que notou 'pela minha cara de desconforto' que eu poderia ter algo similar, pois ele já teve e conhece pela cara. Anotei a dica. Estava bastante inquieto e se comunicava aos gritos, não de forma impertinente ou perversa, mas como quem basicamente quisesse movimentar o ambiente. Chamava enfermeiras e médicos à muita distância e monitorava os outros pacientes sempre atento ao que os outros comiam e manifestavam. Fez sinal de 'positivo' para mim e trocou sorrisos com outros acamados, várias vezes, mostrando-se um potencial aliado.


Foi ele que proporcionou a coisa mais insolitamente bonita e que me fez quase que exclusivamente desanuviar a mente em meio à noite/madrugada infernal: durante um dos momentos de visita, ele encheu tanto, mas tanto a paciência das enfermeiras, perguntando se a esposa poderia ficar ao lado dele "quando ele fosse para o quarto" que foi uma espécie de consenso a permissão para ela permanecer ali além do tempo permitido, para o que elas fecharam as cortinas em quadrado ao redor da sua cama com ela sentada em uma poltrona improvisada ao lado, mãos dadas, saindo lá de dentro do quarto improvisado a voz dele dizendo que não era para se preocuparem pois eles iam se comportar.


Ninguém que estava privado de seus próprios parentes/acompanhantes se queixou. "Deixa o velho". Foi tipo quando nos filmes de prisão alguém escapa. Um dos nossos conseguiu uma brecha. Johnny Estrela recebeu visita da Cléo Pires. Bruce Wayne pulou sem corda e fugiu do poço. Gol nosso.


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Uma moça na cama n. 13 que chegou bem depois havia feito algo supostamente bastante severo no quadril e estava altamente imobilizada e parecia chapada forte de anestesia, ainda, passou alguns minutos com a camisola caída e um dos seios à mostra até que alguém fosse acudir. Segue o jogo.


Eu mesmo no primeiro semi despertar pós operatório ainda estava sob o efeito da anestesia rack (aprendi o nome no dia) e simplesmente não mexia nada da cintura para baixo. Mesmo sabendo que era um efeito normal e temporário, o pavor não é desconsiderável.


Ao acordar, depois, era mais uma que não economizava sorrisos quando olhares se cruzavam, que, embora não muito expansivos, eram aquele tipo de garantia como quem diz "então: estamos aí".


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"Água" murmurou o outro lá. A moça do útero e o senhor falante competiram para ver quem alertava a enfermeira primeiro


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O guri da artroscopia vai pela, acho que, quarta vez ao banheiro, completamente autônomo. E se a cirurgia toda foi uma farsa combinada só para ele ter uma dose livre de morfina?


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Veio leite quente integral e café solúvel duvidoso de manhã, junto com pãozinho e opções de manteiga President (opa) e uma geleia de morango marca diabo. A moça do útero não esconde a decepção e eu sugiro para ela o suco misto de caixinha Suvalan (maçã, abacaxi e manga). A gelatina de limão era sem açúcar - pequenas vitórias.


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A cada troca de turno as enfermeiras fazem uma ronda e de forma muito atenciosa e meiga 'apresentam' os pacientes às/aos que chegam (uma predominância feminina notável). "Esse é o Gabriel - 'oi, Gabriel!' - ele fez uma ____ e está com uma ____ e o dr. ____ acredita que vai liberar ele logo. Ele precisa trocar esses soros aqui e está recebendo de medicação ___ e ___". A moça nova sorri me olhando e recebe uma prancheta.


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Vão chegando novas pessoas como novos personagens e é incrível como uma situação terrível de dor, agonia e cautela corpórea, para nós, para quem trabalha na área é visto com leveza e, constantemente, humor. Costume, traquejo (é como algumas pessoas para quem já advoguei na vida que pareciam crer que estavam sempre por um fio para serem presas ou serem condenadas a perder todos seus bens, quando a circunstância não indicava nada sequer próximo. Você toma um café em mais uma quinta feira, eles sentem o coração na boca).


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O cara da "água" conseguiu um quarto. Como? Há mudança de panorama? Não se sabe. Ele parecia bem mal, de fato e todos silenciosamente anuem (é sensível, no ar). É possível ver seu rosto e torso despido cheio de eletrodos grudados (eu também tinha, creio que é praxe). Ele parece o cara na capa do disco "Countdown to Extinction" do Megadeth (isso não é exatamente elogioso).


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Minha hora de abandonar o seriado. Despedida do personagem. Fui querido pelo público, será? Considerado protagonista em alguma escala? Sair vestido e caminhando por entre as camas - agora já quase todas igualmente ocupadas por novos players - é estranho. É um misto de alívio com constrangimento. É um pouco traidor.


Será que alguém pensou: "ufa, mais um da nossa galera se deu bem". Alguém falou "gol nosso?".


Possivelmente nunca mais verei ninguém dali. Isso soa estranho.


UM LIVRO: queria ter lido no quarto - hahaha, privativo - o livro O ato criativo, do Rick Rubin (estava no meu Kindle que separei carinhosamente na mochila). Não deu. Ainda bem. Me debrucei nele já em casa no final de semana frio que sucedeu à estadia hospitalar e meu deus. Que coisa desprezível. Conhecido por sua quase nulidade técnica com aparelhagem, mas por seu feeling impressionante que empilha Grammys como tampinhas colecionáveis e uma noção quase mística do que o público quer para reerguer qualquer artista - do thrash metal aos dançarinos pop - Rubin poderia citar uns nove exemplos (dos cerca de cem que tem na manga) de processos de produção de discos lendários e refestelar os leitores com curiosidades e histórias atraentes. Mas preferiu gastar páginas e páginas com algumas dicas um tanto triviais, alguns conselhos meio óbvios, entremeados por uma montanha de filosofia barata de auto ajuda caça-níquel.


UM DISCO: eu continuo meio preso no Jack White e agora retroagi sem motivo aparente ao seu primeiro trabalho solo, Blunderbuss. Segue o diagnóstico já sabido: é um tipo de gênio de nossa era e somos presenteados por ele estar produzindo na nossa frente. É um artista que vivifica natural e espontaneamente alguns dos melhores conselhos que o Rubin lançou a esmo em seu livreto.


UM FILME: digam o que quiserem da mentirada, de um tom maniqueísta nada disfarçado, das concessões amenizantes para gerar anestesia 'doisladista' política, do andamento didático e da meio ridícula divisão em capítulos nomeados. O Mago do Kremlin é diversão garantida e ficção canalhíssima e 'doisladista' (ok, não tão ficção em muita coisa) sobre um dos maiores personagens vivos de nosso tempo (V. Putin) e um panorama em tom de passatempo sobre os últimos 40 anos na Rússia. Consuma como quem come um doce ultraprocessado (não é recomendável fazer disso um hábito, mas gordura hidrogenada sabe ser comfy às vezes).

 
 
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