País do Carnaval
- Gabriel
- há 6 minutos
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Certo domingo de mil novecentos e alguma coisa incerta (acho que ali por noventa e Bulls) eu me dirigi à Avenida Benjamin Constant vindo das vielas transversais à Avenida Pernambuco e à Farrapos, geolocalização (imprecisa, calibre seu dispositivo) da casa de meus pais, para apanhar o ônibus T-5 que cruzaria a cidade para me deixar próximo ao Estádio Olímpico, onde o Grêmio (atentem, jovens) mandava suas partidas antes da construção da Arena (ironicamente mais próxima, ou ao menos teoricamente viável em linha reta desde ali - descontados os problemas de escoamento de tráfego), para justamente assistir uma delas. Era um jogo do Campeonato Brasileiro e tenho ou uma leve memória - ou uma imagem construída artificialmente na mente - que era outubro.
Quando subi no coletivo - que, à época, exigia uma entrada pela porta traseira (ao contrário do que hoje é regra) - percebi que não havia onde sentar, dado que uma parte já significativa da torcida gremista representante da zona norte porto-alegrense havia apanhado o carro em algum ponto do mapa mais ao norte ainda, e entulhava o espaço. Movido pela existência de algo de inexplicável e místico em permanecer no fundo do coletivo em ocasiões como essa (que igualmente contrastava com a lotação da parte após a catraca) permaneci ali, em pé, espremido entre gritos de guerra e batidas compassadas na lataria por braços que vazavam para fora da janela.
Quando o trajeto chegou pela altura da Avenida Cristóvão Colombo todos os presentes puderam presenciar algo que não imaginavam que seria uma experiência antropológica, político-social, filosófica e afetiva daquelas marcantes da vida - ao menos para quem tem bom faro e consegue perceber certas coisas com a singeleza daqueles observadores de pássaros, mas de gente, da vida: parte do animado grupo de torcedores começou a rogar para o cobrador para que os permitisse, à altura (faltava tempo, ainda) do estádio, sair pela porta dos fundos, sob a justificativa de ajudar com a preservação de uma das fichinhas de passagem. Sim: as pessoas estavam pedindo para não pagar.
Quem vivenciou a Porto Alegre dessa época deve lembrar ou já ter ouvido falar da prática do "portão" (não no sentido de um pórtico ou átrio de grandes proporções, nem mesmo de uma entrada de fazenda ou pátio de estabelecimento: "dar um portão", como certa parcela do público gay se empenha no "banheirão", ou como algumas pessoas "fazem carão" para sair em foto. Um aumentativo que indica uma prática ou método). Enfim, o "portão" (como se chama isso na sua cidade? - diz o meme) consistia em aproveitar a abertura automática das portas traseiras do coletivo quando da parada para o desembarque de passageiros para simplesmente escapulir por ali mesmo, fugindo sem cruzar a roleta e obviamente não pagando a tarifa. Muita gente dava "portão" volta e meia, seja por lotação opressiva que impedia, literalmente, o deslocamento no corredor dentro do carro, seja por vício de malandragem - sob o aspecto legal, garanto que tudo já está prescrito, relembrem sem medo.
A questão é que estava muito fácil o ambiente para o "portão" - e certamente nem cobrador, nem motora e muito menos os demais passageiros gostariam de se indispor hipoteticamente com parte de uma torcida organizada em dia de jogo. Mas como em uma estratégia de convencimento, cerca de uns 28 minutos antes da parada desejada, a turba começou a argumentar com o cobrador sobre sua possível "liberação", em uma espécie estranha de cordialidade - algo como "olha, moço, era só eu descer correndo aqui e nem me viu, mas não quero fugir, quero autorização para não pagar".
Sob certo aspecto, o cobrador, nesse caso, era um empregado da firma na ingrata função de fazer a linha do jogo de futebol em um domingo de partida, e que já paga usualmente seus pecados em um dia que poderia ser de descanso (ou, ao menos, mais tranquilo). Na hierarquia empresarial era, certamente, alguém cuja ideia de precificação e método de cobrança absolutamente não importa na prestação do serviço. Não à toa substituíram seu posto hoje em dia por um leitor de cartões pré-pagos (malditos). Paradoxalmente, no entanto: ao lado do motorista - outro precarizado - era a pessoa com maior poder fático de decisão quanto a isso: basta uma vontade (ou má vontade) sua para que o futuro da arrecadação de passagens e trocados em um dia seja do estrito tamanho que ele desejar. Soldado raso corporativo no papel, dono da soberania concreta sobre o montante dessa arrecadação e a oxigenação das cobranças do serviço, na real. Empoderado para além e à margem do sistema de trabalho oficial, pois.
O cobrador estava lá, impávido, ante as súplicas da massa. Um detalhe crucial aqui é que, se houve algum tipo de insinuação de represália violenta, ela fora velada ou escamoteada ao nível do imperceptível: um grupo de algo como dezessete pessoas estava realmente argumentando em forma de rogo por um tipo de isenção de cobrança que logicamente o funcionário não estava autorizado de maneira nenhuma a conceder, mas que poderia ser o único na face da Terra e ter o poder para tanto, de uma forma magnificamente contraditória.
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Passada a Avenida Osvaldo Aranha, o pleito da trupe foi se adaptando à ideia de que não se realizaria a prática difusa de uma espécie de autorização coletiva para o "portão" consensual, e passou a ser sugerido que se autorizasse o "pulo", que nada mais nada menos consistia em assentir que os requerentes se apoiassem nos encostos e balaustres para "saltar" sobre a roleta evitando seu giro e contabilização e mantivessem a vantagem de não pagar por um dos trechos de viagem. A forma como o cobrador aceitava a discussão - não por esporte ou por deboche, mas já com jeito de quem procurava alternativas políticas de composição - era um tanto comovente. Estávamos já quase na esquina da Avenida Princesa Isabel com a Santana quando diante de mais uma insistência negada para "o pulo" alguém propôs se não seria viável "o mergulho".
Tática mais aviltante - e mais difícil, "o mergulho" consistia em igualmente procurar passar para o lado da frente do carro sem movimentar a roleta para contagem de passageiro/usuário, mas se esgueirando pelo pequeno vão entre o final da curva do alumínio e o assoalho do veículo.
Foi aí que ocorreu uma coisa inusitada: após ponderar um pouco, o cobrador liberou "o mergulho", munido do seu quinhão de decisão soberana ocasional, suspendendo a regra da prestação/concessão do serviço e simplesmente instaurando o liame de excepcionalidade de acordo com seu bel prazer e o que parecia ser um atendimento razoável do pedido insólito:
"Portão", não tinha condições, era "chinelagem" (termo que o Brasil aprendeu a amar depois que, em meio às enchentes de 2024 no Estado, ficou famoso o comunicado de uma facção criminosa proibindo entre seus membros a prática de atos vis e covardes em relação à população naquele momento trágico).
"Pulo", igualmente, sacanagem com os pagantes "normais" - muito fácil e muito inadequado no espaço de um coletivo lotado.
O "mergulho" parecia interessante porque atendia os anseios da rapaziada ao mesmo tempo que coligava eles a uma espécie de desafio e/ou demonstração de habilidade - que se, feita erroneamente, gera um duplo revés onde além de se sujar após rastejar pelo chão, o sujeito ainda arca com qualquer centímetro de catraca virada tendo que pagar a passagem.
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Pela altura já da Azenha, nas proximidades da antiga casa gremista, abriu-se um espaço tal e qual uma roda de capoeira ou break e um por um do grupo, sob aplausos, urros e manifestações de torcida surpreendente dos presentes (sua esmagadora maioria, ao menos) foi tentando a sorte com o "mergulho", para o qual cada um que conseguia passar ileso recebia uma chuva de ovações, gritos e aplausos, tal naquela brincadeira/coreografia da dança "da cordinha" (será que na época o Tchan ainda era Gera Samba?). Via-se a tensão no rosto do próprio cobrador que impôs o desafio, claramente torcendo para que todos conseguissem se mostrar dignos de não pagar a passagem de acordo com a tarefa/contenda moral que ele mesmo inventou de inventar: ele mesmo vibrava, aplaudia e ajudava com a mão estendida os mergulhadores, um a um, a se levantarem ao atingir o Valhalla do lado redentor da catraca. E se unia aos já arrebatados em gritos de incentivo para mais um candidato que abanava para quem estava atrás como um peão entrando no picadeiro do rodeio, ou como um astronauta antes da missão. Passamos, pelas tantas, a bater palmas em ritmo sincronizado com salvas quando cada um se preparava para a tentativa.
Foram alguns minutos de euforia após todos os membros da animada pândega passarem sem acidentes nem revezes inesperados e saírem triunfantes pela porta da frente, tal condenado que cumpriu a etapa. Aos gritos típicos da torcida gremista da época, desembarcaram rumo à entrada do complexo do estádio e foram saudados por buzinadinhas de um motora que tinha a camisa gremista por baixo do uniforme da empresa (outro ponto sobre o qual valeria dissertação, outro dia).
Não lembro do jogo, do placar nem de mais nada daquela tarde.
Só lembro da dádiva que foi poder presenciar isso, e do sentimento que reencontrei um tempo depois, quando li "A Crônica da Cidade de Havana", no Livro dos Abraços de Eduardo Galeano:
"Os pais tinham fugido para o Norte. Naquele tempo, a revolução e ele eram recém-nascidos. Um quarto de século depois, Nelson Valdés viajou de Los Angeles a Havana, para conhecer seu país. A cada meio-dia, Nelson tomava o ônibus, a guagua 68, na porta do hotel, e ia ler livros sobre Cuba. Lendo passava as tardes na biblioteca José Marti, até que a noite caía.
Naquele meio-dia, a guagua 68 deu uma violenta freada num cruzamento. Houve gritos de protesto, pela tremenda sacudida, até que os passageiros viram o motivo daquilo tudo: uma mulher prodigiosa, que tinha atravessado a rua. — Me desculpem, cavalheiros — disse o motorista da guagua 68, e desceu. Então todos os passageiros aplaudiram e lhe desejaram boa sorte. O motorista caminhou balançando, sem pressa, e os passageiros viram como ele se aproximava da saborosa mulher que estava na esquina, encostada no muro, lambendo um sorvete. Da guagua 68 os passageiros seguiam o ir-e-vir daquela lingüinha que beijava o sorvete enquanto o motorista falava sem resposta, até que de repente ela riu, e brindou-lhe um olhar. O motorista ergueu o polegar e todos os passageiros lhe dedicaram uma intensa ovação.
Mas quando o chofer entrou na sorveteria, produziu-se uma certa inquietação generalizada. E quando depois de um instante saiu com um sorvete em cada mão, espalhou-se o pânico nas massas. Tocaram a buzina. Alguém grudou-se na buzina com alma e vida, e tocou a buzina como alarme de roubos ou sirena de incêndios; mas o motorista, surdo, continuava grudado na perigosa mulher.
Então avançou, lá dos fundos da guagua 68, uma mulher que parecia uma bala de canhão e tinha cara de mandona. Sem dizer uma palavra, sentou-se no assento do chofer e ligou o motor. A guagua 68 continuou sua rota, parando nos pontos habituais, até que a mulher chegou no seu próprio ponto e desceu. Outro passageiro ocupou seu lugar, durante um bom trecho, de ponto em ponto, e depois outro, e outro, e assim a guagua 68 continuou até o fim.
Nelson Valdés foi o último a descer.
Tinha esquecido a biblioteca".
Feliz carnaval a nós que sabemos o que isso significa porque vivemos numa fina fatia de istmo entre o céu e o inferno. "A los gringos": les falta Sazón.
UM DISCO: Mixtape Pirata volume 1, do Baiana System é absolutamente incrível. Use e abuse dela como trilha sonora instrumental para esse final de semana. Indica-se preparar o churrasco ou a caipirinha ao som de.
UM FILME: Valor Sentimental. Eu realmente achava que seria um dramalhão estilo choradeira. Encontrei a grata surpresa de um filme forte, bem realizado, pesado em vários momentos, mas sóbrio. Nota: algo próximo do dez.
UM LIVRO: se não leu o Galeano quintessencial, que não é "As Veias Abertas..." e sim O Livro dos Abraços, por favor, faça esse favor. Um passarinho me contou que só buscar no Google e ele está todinho num .pdf na tela para você.