Os sons ao redor
- Gabriel
- há 5 minutos
- 10 min de leitura

No cyber-bang bang-absurdista-distópico Bacurau (2019), um grupo de gringos dá vazão a uma espécie de pacote de turismo que consiste em (algo como) alugar algum espaço no globo terrestre (mediante 'compra' de silêncios e permissividades) para, por um período de tempo, praticar um safari humano, abatendo pessoas e coisas (tratadas como objetos-alvo) a tiros de armamento pesado. A ideia é se utilizar de algum lugar remoto e facilmente 'exterminável' para experienciar o 'esporte' em relação a viventes considerados matáveis, desprezíveis, impassíveis de terem sua falta reclamada com ênfase (ou, como diria J. Butler, "vidas indignas de luto").
**
(Esse texto contém algumas informações sobre o enredo de Bacurau. Se você não viu o filme e está preocupado com 'spoilers' de um dos filmes mais visto do país, de 07 anos atrás, problema é seu. Sobre O Agente Secreto, em cartaz nos cinemas!, será falado alguma coisa, mas nada que comprometa sua experiência, prometo)
**
O grupo parece, inclusive, habituado a esse tipo de procedimento, o que de fato sugere que não só não é o primeiro "safari" por eles praticado, como realmente a coisa - no futuro de data imprecisa onde se passa a história - é algo até mesmo factível enquanto corriqueiro.
A maior das críticas e o maior dos manifestos propostos por Kleber Mendonça Filho (diretor e roteirista) e Juliano Dorneles (co-diretor) é um fator bastante evidente, mas que nem todos notam, eis que, por vezes, fascinados pela obra e sua crueza e violências gráficas expostas em primeira camada - e seu vitorioso potencial memético - deixam passar: a petulância dos gringos esbarra em uma questão fulcral (logo eles, que creem que "retiram" a cidade de Bacurau "do mapa", simplesmente por bloquear sistemas internéticos de geolocalização da mesma em aplicativos condizentes) que eles sequer imaginam que lhes custará caro.
Essa questão é: fosse um filme enlatado medíocre estadunidense do tipo que se produzem às dezenas, por ano, o mote de Bacurau seria uma espécie de resistência improvável que transformaria todo o cenário em uma luta chinfrim de David contra Golias e que alguns arranjos de roteiro clichê exibiriam uma espécie de aliança (notadamente momentânea) entre personagens antagonistas habitantes (o policial-carcereiro e o bandido preso, os rivais políticos, um homem e sua ex-mulher com quem se reconciliará em meio à guerra traumática, etc), e ofereceria uma sonolenta hipótese de um bando de caipiras desorganizados enfrentando um exército treinado - e vencendo.
Mas Bacurau nos exibe algo muito maior do que uma espécie de Vietnã à brasileira (o que já seria mais interessante e elogioso): os gringos encontram naquele lugar, supostamente afastado de tudo e todos e supostamente à mercê de qualquer intervenção, um arranjo social, econômico, político, afetivo e (há pista singela, em uma fala do filme) sexual, altamente arrojado e sofisticado. Um uso da precariedade de equipamentos e gadgets que potencializa o improviso e a criatividade de maneira notável. Uma comunidade organizada em tecnologias de informação e estratégia e que cultiva valores de fortalecimento interno que vão de opções de sociabilidade a ritos e procedimentos peculiares. Um valor materialista e imanente que repele vaguezas idealistas e baboseiras. Um núcleo avançadíssimo de discurso autonomista que rejeita o capital em duas de suas franjas mais sinuosas (o colonialismo de extração/extermínio e o domínio burocrático desde uma ordem estatal falida e lacaia dos interesses do primeiro elemento). O 'lidar' com os invasores (imperialistas), tanto quanto com o político corrupto (Estado falido), são equivalentes discursivos.
A questão é patente: não há, em Bacurau, uma ode a um 'nordeste' ou a um 'nordestino(a)' mitológico, hipotético, abstratizado, que é simplesmente "valente" ou (palavra esvaziadíssima hoje em dia), "resiliente", mas, sim, uma demonstração de que há, no combate, uma civilização em declínio, presa fácil - e não é a dos habitantes do sertão.
Considero isso a parte verdadeiramente empolgante do filme e por isso me causa um certo bocejo e uma certa estranheza que a sequência que mais vi ser comentada desde o sucesso da obra (assisti no cinema, à época do lançamento) foi de uma cena específica literalizada ao nível da falta de imaginação (embora no contexto do filme, não soe desnecessária ou incondizente): a morte dos dois personagens do casal "sulista" - brasileiros trabalhando como capangas ou ajudantes do grupo de estrangeiros, que, pelas tantas, se creem como parte daquela estirpe e arrancam apenas risos e sarcasmo por parte dos exterminadores. Quando sentem que a coisa vai ficando feia para seu lado (na medida em que passam a se tornar desnecessários), ambos enfatizam que são "brancos" e que vêm de um lugar do Brasil onde as pessoas são parecidas com seus empregadores ocasionais. Ato contínuo são chamados de "macacos" e poucos instantes antes de serem aniquilados de forma banal, percebem uma coisa bem singela: "branco" não é uma cor de pele, mas uma definição inteiramente arbitrada pelos próprios habitantes do norte global.
A cena empolga tal um reflexo físico, eis que há um prazer elementar em ver aquele tipo de criatura padecendo da própria mesquinhez, mas a forma excessivamente entusiasmada com a qual a sequência é recebida até hoje - para alguns, uma espécie de ponto alto do filme (nem pensar) - me parece um reflexo de um tipo específico de pobreza de leitura que por vezes me dá um desespero, e, nos melhores dias, ainda assim me causa enfado.
Há pessoas que estão simplesmente condicionadas a, teoricamente, discutir, expor, brandir e ostentar "política" em tudo o que (supostamente) fazem, mas que (a) só enxergam "política" em termos de partidarismos, discursos, estandartes e/ou bonés e expressões dedutíveis e capitalizáveis em forma de post e bio de rede social e, (b) acham que "política" é exclusivamente algo que possa lhes conferir alguma identidade moral sustentável publicamente em termos de expor seu "lado" em uma dicotomia anteposta.
Com tantas camadas interessantes do que se pode exprimir de "política" em Bacurau, alguns se emocionam mesmo com (evidentes) racistas estúpidos ganhando em (evidente) chumbo o (evidente) pagamento pela sua (evidente) burrice (não me oponho, que fique claro).
****
Em O Agente Secreto, de 2025, escrito e dirigido por Kleber, a questão volta à tona de uma forma similar, em um dado momento.
Ao explicar para alguns membros da rede de apoio que constitui resistência (não exclusivamente ante a ditadura brasileira em si, mas também a todo um organograma fascista que lhe é correlato), em meio às linhas inimigas, e com ares de uma espécie corajosa de underground railroad, alguns dos motivos de estar sendo perseguido e de ter seu nome na mira de um conluio nefasto que inclui autoridades governamentais e mandatários privados que lhes servem de tentáculos, o protagonista (vivido por Wagner Moura) relata um episódio peculiar:
Alguns anos antes, enquanto coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia na Universidade Federal de Pernambuco, ele recebeu a visita de um comissionado da Eletrobrás que parecia deveras interessado nos projetos ousados que ali eram desenvolvidos. Um deles, inclusive, uma bateria movida a lítio que possibilitaria o desenvolvimento de carros elétricos, projeto, esse, que o empresário que estava loteando a Eletrobrás naquele momento está interessado em encerrar para poder ele mesmo explorar privadamente em São Paulo (coisa similar à qual ele tenta, de maneira cínica, acusar o coordenador de fazer). A reunião com o sujeito é um ponto crucial do filme, onde ele a partir de bravatas e tentativas de incutir hipóteses altamente levianas, deixa claro que precisa, de algum modo, absorver o capital humano e os projetos ali desenvolvidos e usa desculpas que transitam entre a ameaça política e a subversão técnico-estatista que seu cargo momentâneo lhe confere.
Ele procura ensaboar a questão em um jogo perverso de adulação-afronta, dizendo que um dos projetos (uma tecnologia para trabalho em curtimento de couro, também desenvolvida no Programa) é muito boa para a "economia local" e para os fatores "regionais": nesse momento ele faz uma ofensa dúplice, ao salientar que um projeto inovador em tecnologia automotiva seria como que "demasiado" para estar na mão dos pesquisadores universitários (e, quiçá, na mão de pesquisadores sediados em Recife), enquanto que, de outro lado, rebaixa o outro projeto a algo como que uma ideia simpática de âmbito restrito (grifando uma nuvem conceitual que fala em "couro", "boi", "bode", como quem estabelece ele mesmo o ponto de corte possível para as ambições práticas das pessoas em sua frente).
O empresário paulista de O Agente Secreto é um pouco como os assassinos-esportistas de Bacurau: ele simplesmente chega em um nordeste onde tudo lhe parece caricato ou peculiar, e onde supostamente ele tem um espaço amplo para fazer o que bem entende e trava com os locais uma rivalidade que lhe parece simpática e sem maiores problemas, onde a resistência que lhe é ofertada soa como pitoresca até o ponto que começa a soar (em sua visão) afrontosa. Na visão de Kleber Mendonça Filho, na Pernambuco de 1977 os carros elétricos seriam uma invenção 100% nacional, se o potencial nordestino condizente não fosse sabotado por um paulista escroto (nada fora do factível, aqui, frise-se).
****
O lance que me entediou se deu na encenação do relato de um jantar entre o protagonista, Fátima, sua esposa (Alice Carvalho), o empresário (Luciano Chirolli) e seu filho que lhe acompanha com um abobalhado tiracolo (Gregório Graziosi). Há uma força na cena, quando a insolência e a cretinice dos paulistas ofende e irrita o casal a ponto de Fátima os mandar textualmente "tomar no cu" de uma forma expressiva e reconfortante para o público. Poucos instantes antes, o filho do empresário provoca armando, desenhando um mapa do Brasil em um guardanapo explicando que haveria o "Brasil" (efetivo - o sudeste, mormente) e o "norte" (o "resto"). A cena é entremeada por ilações explícitas ao fato de que aqueles projetos todos e sua inovação seriam talvez importantes demais para estarem nas mãos de uma equipe sediada no nordeste.
****
Como "sulista", já sofri um sem número de críticas (muitas quanto às quais eu adiro - quando não eu mesmo as faço), mas dizer que eu tenho noção carnal do que significa esse tipo de coisa seria tão estúpido quanto a ideia de dizer que existe algo como o ilusório "racismo reverso" contra os brancos - e pataquadas similares. Imagino a raiva entalada quando alguém tenta sempre visualizar o âmbito do nordeste dentro de um espectro de definições que faz um sem número de gracejos que mal disfarçam preconceito, sempre orbitando em termos de belezas "regionais", de coisas "folclóricas" ou "pitorescas", e como nada além de um lugar diferente para experienciar uma perda semi-controlada de estribeiras durante um curto período (de férias ou de carnaval).
Igualmente, não tenho qualquer pretensão de ensinar um diretor competente, premiado e calejado como Kleber a filmar nada e nem a contar uma história (coisas que ele faz, muito antes da consagração, desde a adolescência: vide os registros de seu Retratos Fantasmas de 2023). A questão é que acho que esse excesso de entrega perante o público parece adular uma parcela exclusivamente sedenta por remissões que possam ser lidas como quem decifra um enigma nível fácil sempre aberto à interpretação mais óbvia e direta, como se em uma mensagem destinada de forma franca à plateia e ao que ela queria absorver desde antes de entrar no cinema. Há pessoas que se acostumaram ("politicamente") a buscar em qualquer tipo de obra, música, livro, filme, poema essa espécie estranha de contra-experiência: fazer de um filme (como alguns espectadores fazem) um jogo de caça-palavras (lembrei agora do "livro" a ser lido por um atual presidiário, a ser entregue pelo seu filho choroso, em um raro caso onde isso não me causa sequer um centímetro de comiseração), para o encontrar da menção ideal e preenchedora daquilo que eles já saíram de casa querendo encontrar (e só saíram porque sabiam que eventualmente encontrariam), é meio deprimente.
****
Escutei uma entrevista de Kleber onde ele comenta a sequência do guardanapo como um trecho "de estimação" que ele mantém em relação ao filme. Confiada a mim a edição, eu a retiraria sem dó: é um exagero explicativo e um tipo de bait desnecessário que tira da obra justamente alguns entremeios de silêncios ausentes de explicação didática que ela possui em seus momentos mais interessantes. E, novamente: parece ser um agrado planejado para um tipo de pessoa que passa as mais de duas horas e meia de projeção esperando exclusivamente por algo assim. Eu diria que é meio cringe.
****
Meu ponto: precisamos ver política (sim, essa mesmo, que está em tudo) em muito mais fatores do que em alguns ganchos elementares e diretos. Precisamos ver essa política, esse mundo a construir, esse âmbito a fortalecer na camaradagem dos "refugiados" no prédio de Dona Sebastiana praticando atividades corriqueiras (vivendo com medo, e mesmo com medo, e apesar dele, e por sobre ele). No copo de cerveja de 'boas vindas' estendido a Wagner Moura em meio a um frevo inconsequente. Na paixão do senhor Alexandre pelos filmes que projeta e pela mensagem ao mundo que isso, em si, passa. Pelo neto que ele ama mais do que tudo. A política no mascarado fantasiado de La Ursa que pratica aquela intimidação zombeteira que, em sentido contrário, disfarça de maldade o que é pura galhofa, na inversão de coisas que só o carnaval proporciona. No rosto, quase escondido, da lenda Udo Kier, que vive n'O Agente Secreto seu derradeiro papel nos cinemas, e que em uma despedida lindíssima, se diverte, sem protagonizar o foco da câmera, em uma das raras cenas do filme onde a energia do carnaval de rua do Recife é ilustrada, esquecendo a amargura da vida que o personagem deixa transparecer nos poucos instantes em que protagoniza um diálogo na trama.
****
Política é mais do que associar pautas literais a uma bandeira, um boné, um gesto com o polegar e o indicador em ângulo reto. Política é tudo que anima o mundo que queremos construir. O que nos constitui enquanto votantes e as pautas retas e diretas que queremos ver fazem parte (têm que fazer) de uma torrente maior, de onde podemos tirar essas e mais coisas, e não o contrário.
****
Pessoas terem um tantinho de alma lavada com escrotos sendo mandados tomar no cu sempre é algo digno de nota, mas será muito triste que alguns guardarão de O Agente Secreto por cima de todas outras coisas, a cena em que um idiota tomou um soco porque literalmente "desenhou" o racismo e o preconceito num papelzinho. Na brincadeira, aquela, onde coisas são carimbadas com um selo "Absolute Cinema" adornado por Martin Scorsese, há quem berre "Absolute Política!" quando certas coisas telegrafadas como essas acontecem e para eles por isso (quase exclusivamente por isso) o filme seria digno de nota, o que considero um desperdício e tanto (e um sintoma preocupante).
UM FILME: poxa, falamos de dois, já. É suficiente para essa semana.
UM DISCO: Já que estamos na agenda de Recife, o meu panteão querido de artistas que forjaram minha cabeça no meio dos anos 90 (integrantes do, lato senso, 'movimento manguebeat') é sempre uma excelente pedida de níveis poucas vezes igualados na história musical brasileira. Porém, essa turma tem um parente meio ovelha negra, ou irmão mais velho, na banda Devotos (antes, Devotos do Ódio) e sua espinha dorsal de punk raiz que ganha influências, cores, aromas e preenchimentos desde as "parabólicas" dos colegas. Prova disso é o empolgante disco de 2022 Punk Reggae, cujo título, para quem gosta de mensagens sem rodeios, é bem auto-explicativo do que você vai encontrar.
UM LIVRO: terminei Morra, Amor de Ariana Harwicz. Assim como havia elogiado o filme, tenho o mesmo a dizer do livro. Incrível fluxo de consciência que traz um relacionamento sob os olhos e desde as entranhas de uma mulher que, descrita de qualquer outro jeito, seria possivelmente pintada como maníaco-depressiva e só.