Nosso Irmão
- Gabriel

- há 4 dias
- 9 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

Assisti semana passada ao documentário The Rise of the Red Hot Chili Peppers: Our Brother, Hillel.
Gosto da banda, e várias das histórias descritas eu já conhecia por ter lido tanto as autobiografias de Flea (Acid for Children) como de Anthony Kiedis (Scar Tissue) - a primeira, um livro divertido, embora jogado em uma espécie de fluxo de consciência meio adolescente, enquanto o segundo, também divertido, se exibe calculadamente preocupado em sacralizar de certa forma o 'personagem'. Em ambos: um retrato interessantíssimo no panorama social, cultural e musical da Los Angeles (e consequentemente dos EUA - e consequentemente, ainda, do cenário pop mundial) do final dos anos 1970 e do percurso da década de 1980, especialmente.
Em ambos: um impacto ainda não estabilizado, uma ferida ainda sem coágulo, uma memória que ainda vaga, tal espectro, e ainda diz muito aos dois músicos. A perda de alguém que era em realidade assumida o elo criativo e afetivo que compunha um trio (hoje, holográfico) naquela que é uma das duplas de músicos mais famosas de todos os tempos. A morte súbita de Hillel Slovak.
Poderia ser mais uma história sobre uma trágica efemeridade juvenil ocasionada por um excesso de várias fontes onde as drogas foram apenas o componente e vilão mais imediato, mas é mais do que isso: foi a perda de uma espécie de centro gravitacional artístico e humano de todo um conjunto de pessoas. E sobre isso eu entendo tanto quanto os dois músicos, eis que já ocorreu comigo - e talvez por isso o documentário tenha me tocado tanto, para além de ser um belo registro sobre uma parte ainda não pacífica e superada.
****
Pense com atenção na letra de um dos maiores hits da história da banda - "Otherside", em um dos discos de maior vendagem da história ("Californication", de 1999) e perceba que certas coisas ainda não foram superadas por eles, e a ausência de Hillel ainda dói, embora o sucesso da faixa já seja algo usualmente desconectado das fases soturnas de seus primórdios.
(Sim, é sobre isso)
****
Era um dia 1º de janeiro quando soube que no final da tarde anterior (enquanto eu estava passando o réveillon em um sítio com amigos, fazendo brincadeiras na piscina, assando carne, bebendo, rindo e dançando) uma das pessoas mais especiais que cruzaram meu caminho estava sozinho, e após enviar uma espécie de depoimento formal de despedida para a mãe e para a namorada, por email, decidiu abreviar sua passagem por esse lugar.
Seria trágico, triste, pesado e soturno de qualquer forma. Seria horrível em qualquer contexto.
Mas algo me tocou profundamente na forma como todos depoentes falavam sobre Hillel Slovak. Eu escutava outro nome em cada frase. Eu lia outro nome nas legendas.
****
Compreendo perfeitamente o tom de adoração com o qual todos no filme mencionam Hillel e o grau da admiração quanto àquele sujeito que parecia estar sempre um passo à frente em termos de inventividade, de sensibilidade artística, de experimentação, de soluções para absolutamente tudo forjadas em inventividade sem igual. Flea é autor de depoimentos comoventes (é levado às lágrimas em vários momentos do filme). Anthony tem seu jeito de sofrer (embora seja difícil de romper sua carapaça, que oscila entre uma espécie de arauto místico meio new age supostamente good vibes, o eterno bobalhão que faz caretas e coloca uma meia no pau e o ex-junkie totalmente tenebroso e deplorável que ele mesmo não nega que foi). O depoimento, fugaz, de um dos músicos que mais admiro na vida, John Frusciante, é ainda mais incrível. Embora sua participação no filme seja cronologicamente condizente, é impactante: ele surge em momentos finais, quando narra sua entrada na banda justamente para substituir o (então) finado Hillel, tal um impressionante caso de imitador/tributário que fora a escolha lógica porque basicamente era o maior fã que o conjunto sabidamente possuía (e tinha o talento necessário no manejo da guitarra para suprir a lacuna de Hillel de um modo surrealmente confortável).
Frusciante ao longo dos anos superou Hillel em técnica, sensibilidade, ideias, logicamente em importância no momumento que a banda se tornou e em pegada, mas sua impressão é distinta: há um momento no filme em que ele fala algo como "eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo e todos me elogiavam por eu 'seguir os passos' e o estilo de Hillel tão fielmente...nos discos seguintes, nossos maiores sucessos, todos referiam que eu havia encontrado minha personalidade, mas era ali que eu estava imitando Hillel da maneira mais elogiosa que eu consegui".
****
Já ponderei muitas vezes sobre o quanto eu - e posso falar com certeza por mim, e especulativamente em relação a muitas pessoas, em muitos aspectos - não fiz mais do que imitar nosso amigo, nosso irmão, em grande parte de minhas empreitadas.
Ele era dono de uma autenticidade difícil de ser parelhada. De uma criatividade de quase impossível equiparação. De um talento que magnetizava todos ao redor, de forma que até suas coisas, ideias, estilos e interesses que não condiziam com os meus, com os nossos, influenciavam a mim de alguma forma.
****
(Lembro quando comuniquei solenemente minha mãe que as paredes do meu quarto seriam espaço para uma espécie de tela livre para desenhos, escritos, depoimentos e grafitagens que nada mais eram do que um esforço meio imbecil - embora sincero - para espelhar de forma mais controlada e aceitável - e, portanto, menos corajosa - as paredes do lendário quarto do meu amigo, no clássico apartamento da 24 de outubro, que pareciam um beco hostil de Nova Iorque, ou de algum outro lugar com o qual imaginávamos, à época, conhecer só em filmes).
(Lembro quando ele, ainda em idade escolar tenra, fez as duas primeiras tatuagens, sendo uma um 'tribal' - era moda na época - imenso no braço e outra uma traquinagem ridícula que parecia a maior transgressão de todas: simulou com tinta de caneta Bic, agulha quente, e muito sangue e dor, um estilo "prisional" de tatuagem e cravou próximo ao cotovelo as três iniciais de seu nome. Ato - o primeiro, lógico - em que só tive coragem de iniciar minha pele anos depois).
(Brincos, cabelo grande, cabelo comprido raspado quase zero por baixo, roupas, sons, drogas, conversas com estrangeiros em uma internet ainda discada e incipiente. "Dj" de uma rádio online sediada na Europa, driblando condições precárias. Não parecia haver nada no mundo onde ele não fizesse parecer possível por, justamente, fazer primeiro. Não havia nada de 'legal' que ele eventualmente não soubesse fazer ou não parecesse poder aprender).
(De todas as bandas que surgiam na época do colégio, embora não fosse minha preferida em termos de som, a dele era a que soava em sua demo como um som gringo, de fato. Não parecia uma banda massa da rapaziada de colégio. Parecia uma banda-banda - era uma espécie de imitação eficiente dos anos de ascensão do Sepultura. Ao mesmo tempo: foi a primeira pessoa que conheço que disponibilizou em sites de .mp3 de livres download suas produções em música eletrônica experimental - coisa que eu, igualmente, faria anos depois, com menos talento
****
A morte dele veio em um momento onde não tínhamos muitas condições de contato mais próximo - ele viveu anos no exterior e ultimamente em São Paulo. Nos vimos em vezes poucas que conseguimos encontros esporádicos em Porto Alegre e voltamos a falar 'interneticamente' naquele que foi o (meu) final da "era Facebook".
Mostrei para ele o Viracasacas quando falamos sobre ele estar trabalhando com produção de áudio em um estúdio que estava se especializando em gravar podcasts. Ele disse que sempre viu sentido em eu fazer algo do tipo, que era algo que parecia natural. Ainda hoje é um dos maiores elogios que me estimula a seguir no projeto e no esforço cada vez mais homérico para manter ele no ar com vigor e vivacidade.
****
A perda de Hillel foi algo com tantos paralelos e com tantos pontos de similitude que eu não pude deixar de me abstrair em certo momento. Não sabia mais se estava vendo um filme ou uma metáfora. O fato de ele ter se tornado um tipo de núcleo de energia artística e carinhosa, uma espécie de refúgio fraternal, e o peso de sua influência em Flea e Anthony chegou em um momento onde todos já haviam se direcionado em pelo menos duas coisas: seriam músicos, 'astros' e aquela banda pautaria suas vidas dali em diante para sempre, e estariam irremediavelmente unidos, para sempre. Uma das coisas se concretizou.
****
Jamais saberemos se dos primeiros discos irregulares e um tanto fracos - ainda que elogiosamente inovadores e despudorados, do jeito que a indústria musical e que a virada de década clamava por - a banda daria o salto que deu, se a formação se mantivesse (a presença posterior de Chad Smith no lugar de Jack Irons também ajudou a formar a cara do grupo que ficou para a história), ou iria para lugares mais psicodélicos, mais cheios de fervor? Seria mais underground? Se permitiria a guinada radiofônica que acompanhou o momento mais esplendoroso da MTV no mundo? Seria esse megasucesso ou seria apenas o reflexo de um tipo de som jovem que ficaria cristalizado em um quinquênio? São questões. Mas corta o coração ver os integrantes falando de uma demo de um ensaio que gravaram ao vivo no ano da morte de Hillel, e todos confirmando que aquela foi a maior performance da história do Red Hot Chili Peppers, ainda que longe dos olhos de fãs que nem haviam nascido, ou de qualquer fã. Eles estavam juntos, fazendo o que gostavam, e isso bastou.
****
Foi muito triste pensar que entre filhos, títulos, aquisições, aventuras, viagens, patrimônio, experiências, vivências, almoços, jantares, festas, risadas, a nossa galera ganhou vários "discos de platina". Deu "shows lotados" e foi "induzida" para vários halls da fama. Mas falta um integrante. Falta talvez um dos mais fundamentais integrantes. O filme me deixou amargo, mais do que exultante, durante um bom tempo. Foi sensível que os integrantes, por mais gigantes que sejam/estejam, por mais que tenham ficado famosos por serem um tipo muito específico de crianças-grandes que durante a maior parte da carreira equilibraram peso sonoro com macaquices das mais variadas, ainda têm uma espécie de melancolia que os sobrevoa, como se soubessem que carregam um tipo de fardo. Eles nunca pareceram tão genuinamente felizes como nas fotos que possuem na época de formatura, quando uma dupla virou um trio e quando tudo o que viveriam por todo o resto da vida ainda parecia apenas uma ideia maluca.
****
A "estranha presença dos ausentes", a saudade, para Mário Quintana. As coisas que se revelam em marcas que parecem ter sumido, e que, na verdade, são gigantes o suficiente para sequer serem notadas. Elas não se disfarçam atrás de nenhum lugar. Elas são o horizonte.
****
Sempre costumo dizer que o envelhecimento dos Red Hot Chili Peppers seria estranho e engraçado: gente como o Paul McCartney, os Stones, Ozzy, entre outros, minha geração já conheceu "coroas" (ou com a idade que tenho/já ultrapassei hoje e que soavam tal "coroas" em algum momento). Porém o RHCP é um caso engraçado porque eles se construíram em torno de basicamente três coisas: jeito enérgico, amalucado, de tocar/performar; corpos vigorosos à mostra; uma coisa que meio que insiste em se agarrar muitas vezes em uma vibe lírica com uma baixa profundidade típica adolescente, que por vezes é engraçada e espirituosa e por vezes, apenas, ....ahm..., não.
Ver eles dando depoimentos na casa dos sessenta anos como crianças com traumas mal resolvidos que parecem ter acordado um dia no corpo de senhores tatuados é ainda mais incrível do que imaginar eles dando pulos. Eles seguem dando, volta e meia, embora com mais cautela (se bem que não dá para duvidar dessa gente: Mick Jagger está aí com 82 anos e segue rebolando - um pouco sem traquejo já, mas segue).
UM FILME: só não assista o documentário mencionado se você simplesmente detestar os Chili Peppers. Se for de fã à mais ou menos simpático/indiferente à banda, pode dar play. Será interessante, no mínimo.
UM LIVRO: entre os dois acima citados, vou surpreender: caso queira, caso não seja uma coisa específica que lhe interesse de sobremaneira, e caso aceite perder tempo com apenas um (não é necessário) fique com o de Kiedis. Ele é mais linear e mais descritivo, pode ser lido como uma "reportagem" (mas, repito: há momentos, especialmente mais para o final, que são pura auto comiseração e uma coisa meio redentora, beirando a auto-ajuda brega, palestra fraca de TED talks sobre superar os vícios). Caso queira ler os dois e/ou se for fã da banda, talvez o de Flea seja mais interessante, mais genuíno, tal um diário pessoal (embora mais desorganizado, o que o torna simpático por se perceber que o artista escreve, para o bem e para o mal, sem filtros ou ghost writers).
UM DISCO: Flea, aliás, lançou semana passada um disco de jazz contemporâneo - Honora - que homenageia o estilo, mas sem pedantismo, sem carteiradas e sem afetações, nem busca frenética por credenciais e afirmação. É um material muito bom, que paga tributo aos antigos, mas anda na turma de Kamasi Washington e Thundercat e outros mais descolados contemporâneos. Sua versão para "Thinkin' bout' you'", de Frank Ocean é tão inusitada quando lindíssima.