top of page
Buscar

Linha reta

  • Foto do escritor: Gabriel
    Gabriel
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura

Minha primeira - e até agora única interação colaborativa no Reddit (e não reclamaria nem lamentaria, nem farei exatamente muito esforço para que assim permanecesse, por todo o tempo de minha eventual estadia no site) foi em relação a uma pergunta que um dos amigos internautas fez em uma comunidade (é assim que se chama? sub-Reddit?) que trata basicamente de pessoas comentando sobre filmes obscuros e, não raro, submetendo aos presentes a descrição de alguma cena vaga de algum filme sobre o qual precisam de ajuda para recordar do nome e de outros detalhes.


Era madrugada e após ler - 'para pegar no sono' - eu fui dar a última olhadinha no celular (a prática terrível) e me deparei com o post de um sujeito que descrevia um filme de ficção-terror brasileiro, em curta metragem, sobre três amigos que andavam de carro por uma estrada escura e deserta, à noite, e pelas tantas se davam conta de que qualquer possibilidade de estrada vicinal, curva, acesso ou qualquer outra hipótese de saída não era vista há muito tempo, bem como não era há muito tempo avistado ninguém trafegando.


Obviamente a estranheza vira paranoia, inquietação, desespero e por fim uma espécie de consciência de que algo aconteceu em algum momento do trajeto e que eles, digamos, há um bom tempo já estão, por assim dizer, como parte de outro plano que não o da realidade dos vivos.


A descrição bateu com um filme que me lembro de ter visto.


****


A afliliada da Globo no Rio Grande do Sul, a RBS TV, apesar de todos os problemas típicos que ressoam uma espécie de fator auto-centrado de um bairrismo-cringe (e poderia haver uma discussão inteira sobre isso vertendo partes corriqueiras da programação como se fossem esquetes de humor), primava, por um bom tempo, por uma inventividade interessante no que diz para com o incentivo à produção audiovisual local. No começo dos anos 2000, os inícios da tarde de sábado vinham com uma faixa de horário que estavam reservadas para as "Histórias curtas" (ou "Curtas Gaúchos", o nome do 'programa' mudou de um para outro em algum momento e não lembro a ordem dos fatores) - , que nada mais era do que uma sequência de dois curta-metragens produzidos nessas paragens, por vezes apelando para medalhões já manjados que se costumava assistir no colégio, como aqueles do Jorge Furtado (tal a trinca essencial "Ilha das Flores" - talvez o 'maior curta metragem' de todos os tempos - "O Dia em que Dorival encarou a guarda" - o verdadeiro 'maior curta metragem de todos os tempos' - ou "O Sanduíche" - inusitadamente, meu predileto), mas, por vezes, ousando em alguma coisa mais crua (lembro que foi ali que vi o "Passageiros" do Carlos Gerbase, naquele clima meio Rubem Fonseca), alternativa, avant-garde ("O oitavo selo" de Tomás Créus, paródia simpatissíssima do filme de Bergman, é absolutamente genial), ou mesmo por parte de realizadores(as) não tão à época conhecidos(as).


Em dado momento o programa/faixa de horário virou exatamente uma espécie de incubadora de produções mais modestas em termos de hype e orçamento, mas mais ainda com a pegada de exibir para o grande público em rede aberta coisas que fugiam de uma teledramaturgia de massa ou de ideias de cinemão comercial.


Não posso dizer o que Mark Fisher sentiu quando escreveu sobre como o arrojo e a inventividade que se recusava a tratar o público como bobo da programação cultural da BBC mudou sua vida e lhe abriu os olhos para o mundo, mas posso dizer que os 'curtas' foram uma das últimas vezes na minha vida em que tive uma espécie de "compromisso"/horário marcado com algo assim em relação à TV aberta, mormente em um tempo em que não, não havia a superabundância de acesso a absolutamente tudo a um browse de YouTube de distância.


****


A descrição do filme.


Era a de um dos curtas. Idêntica. Porém, qual a probabilidade? O amigo internauta havia, será, visto de relance o filme em algum sábado perdido? Era conterrâneo? Regulava de idade? Nunca saberemos dada a predileção pelo púbico do Reddit em usar nicks estrambóticos e avatares prefigurados pelo site, em um anonimato meio bizarro - mas comovente - dado que tudo ali parece celebrar uma internet de outrora.


Eu deveria estar dormindo, mas lá estava eu com a luz azulada da tela do telefone na cara, em um horário não recomendável de um dia de semana varrendo versões meio cache de sites antigos para achar o nome de um 'curta gaúcho' para eventualmente ajudar uma pessoa desconhecida com uma dúvida banal.


Achei. Respondi.


****


Demorou cerca de um dia para que o amigo internauta respondesse meu comentário com um link do Vimeo para o filme, usando caixa alta para me dizer com entusiasmo que era esse mesmo o filme e me agradecendo pela ajuda. Alguns dias depois mais um comentário de outro amigo dizendo que adorou o filme - mas que odiou o final.


Às ordens.


****


Esses dias motivado pela curiosidade de um trailer que me foi enviado por outro amigo (esse, real, de carne e osso), assisti o filme It Ends (EUA, 2025) e para minha surpresa (ou não - eis que um clichê quase instantâneo) a premissa, tirante alguns fatores complicadores (que no trailer, inclusive, sugeriam um molho a mais) o esqueleto da premissa é exatamente o mesmo.


Fiquei extremamente aborrecido dado que hoje em dia o sono, o cansaço e a sensação de requinte misturada à raiva pela perda de tempo me faz irritar demais com esse tipo de coisa que, no caso, te consome cerca de hora e meia (ao menos esse foi gentil, no quesito) e até beirando duas horas para um suposto desfecho pretensamente críptico e 'absurdo' que se pretende uma metáfora mal diagramada e brega em sua obviedade. Sei lá: li Kafka demais e muito cedo para olhar para uma suposta proposta fraca de coisa que termina meio seca e sem explicação se achando supostamente provocativa e reconhecer apenas um engodo ruim.


A mediocridade de It Ends e sua metáfora para "a vida" (não resisti em buscar opiniões dos amigos internautas do Reddit sobre essa bomba - e isso é algo curioso daquela rede onde todas pessoas falam sobre absolutamente tudo, o tempo todo - e boa parte achou muito interessante a "mensagem" do filme) é talvez o retrato de uma geração que é abalada, dilacerada, dia a pós dia, com os efeitos em cascata de uma falta crônica de referências. Há que se separar o saudosismo aborrecido (e reacionário, em larga medida) do coroa-que-ensina, da constatação de que o jovem, que sempre se assombrou ante a coisas justamente por ser jovem, tem se assombrado mais do que nunca, em um curioso fenômeno onde, aparentemente, quanto mais possibilidades de informação disponíveis, parece que menos se conhecem coisas.


O 'curta gaúcho' é igualmente simples (e quiçá "pobre") na premissa, mas é muito mais bem resolvido em um exercício de homenagem a pequenas fendas de absurdo cotidiano do que um filme inteiro onde a única vitória é realmente transpor para você o aborrecimento atroz que os personagens sentem na tela. A vontade de eu mesmo desistir e simplesmente dar stop sem ver onde aquela engronha terminaria (literal e metaforicamente: em lugar algum, caso você queira spoiler) foi grande. Mas sou insistente (para o bem e especialmente para o mal).


****


Quem me conhece sabe como o cotidiano nada romântico da vida na estrada faz parte de meu dia-a-dia. Quem vive e transita pelo Rio Grande do Sul foi marcado a ferro (poderia dizer - e fogo - mas o mais sensato seria dizer: água - ou lama) desde muito (mas desde 2024 de um modo especial). Ontem cruzei o belo trecho de asfalto que volta e meia percorro semanalmente entre a capital e a sede da Universidade onde dou aulas, depois de um break de mini férias nos últimos dias, e os efeitos das chuvas torrenciais, granizo, inundações em marcha e do sinistro "tornado de Giruá" foram sensíveis. Rios aterrorizantemente acima do nível usual, costeios de estradas abaixo de banhados, notícias de pontes caídas e cidades que se acostumaram a viver seu particular "relógio do fim do mundo" que está há algo como bem menos do que os dois minutos para a meia noite (e passaram a viver uma vida marcada pelo pré-colapso anual).


Coisas que marcam e que reorganizam o conjunto de indiferenças cotidianas em série que chamamos de "rotina".


UM LIVRO: terminei, enfim, Las Fieras de Clara Usón e recomendo fortemente não só a obra (para quem quer entender o cotidiano e o espírito magoado que ainda ressoa na região do País Basco a respeito da cicatriz deixada pelo ETA e pelo seu antípoda estatal, as GAL) como que você, se possível, tente ler em espanhol (e se demorar um pouco para pesquisar os termos abundantes em idioma basco que vão interromper e truncar a leitura pelas tantas, não se abale: é parte da recomendação).


UM DISCO: esperei muito por Reality Awaits dos Strokes motivado pelas incríveis apresentações que o grupo fez no festival Coachella desse ano e pelo ótimo single "Going Shopping" deixado à época como aperitivo. Amo a banda e costumo a defender mesmo nos momentos de baixa que foram subsequentes ao 3º disco e a uma suposta perda da incrível magia inicial que ela opunha. O álbum tem bons momentos, sem dúvida, mas é triste ter que admitir que a maioria das canções é indigna de nota. Tudo soa como um gigantesco grito pouco inspirado de "cansei".


UM FILME: assisti, após muito postergar, A Cronologia da Água, uma dificílima, ousada, peculiar (e por vezes, extremamente cansativa) estreia de Kristen Stewart atrás das lentes. Me interesso pela atriz e pelo seu estilo peculiar, e por isso queria ver sua proposta de conduzir um filme ao invés de estrelá-lo. A forma como a história é exibida é de quem quer jogar na prateleira de cima, mas por vezes a edição é perturbadora e enervante demais (e isso pode ser um ótimo sinal de demonstração de ideias e personalidade, embora o término do filme dá um alívio - entenda como quiser). O veredito é: a Kristen, diretora, está só começando e parece que o melhor está por vir (diferentemente dos Strokes).

 
 
bottom of page