"o Waze avisa quando..."


Faço uma pergunta/provocação/desafio aos meus alunos de graduação sempre em algum momento da primeira aula do semestre.
(Primeira aula é aquela coisa: pessoas descalibradas, ritmo - de ambos os lados do balcão - precisando de aquecimento, tensão oriunda do fato de que ninguém sabe se o 'santo' irá bater logo de cara e, sempre o terror da possibilidade de o professor querer aniquilar uns 42 minutos de tempo útil com digressões sobre o futuro das pessoas ali presentes e com as temíveis perguntas individuais sobre o que a fera pretende após se formar e, bem: tranquilidade. Não sou desses. Deus me dibre).
Bem, com o futuro da turminha eu me preocupo sim e é por isso que faço uma pergunta crucial nesse sentido (e ao meu ver bem melhor do que querer saber se a Aninha quer ser promotora, se a Maria Flávia vem se preparando para uma carreira na magistratura trabalhista ou se o Milton quer ser advogado, que nem um cara do TikTok que ele idolatra):
A pergunta é simples.
Eu sugiro um cenário onde as pessoas ali presentes ou vão para, sei lá, o litoral de Pernambuco, de férias e/ou precisam fazer uma cirurgia de urgência porque estourou a apendicite.
E coloco a seguinte premissa: você sabe que o piloto do avião ou o cirurgião da Emergência levaram o curso de aviação e os treinamentos de horas de voo, e a Faculdade de Medicina e a residência cirúrgica, respectivos, do mesmíssimo jeito que você está levando a Faculdade de Direito, com o mesmo grau de seriedade e com o mesmo patamar de conhecimentos adquiridos. E aí? Você embarca tranquilo(a) na aeronave? Deita sossegado(a) na mesa de operação?
Voltam sempre alguns risinhos meio constrangidos - ou alguns nem tanto porque há pessoas que acham que absolutamente tudo é algum tipo de anedota passageira.
Não peço que respondam, literalmente. Peço que pensem sobre.
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É interessante ver que todo mundo consegue energias para reclamar quando o gesseiro fez alguma barbeiragem no teto da cozinha, todo mundo vem para a justiça com ganas contra a inépcia do cirurgião plástico, todos reclamam da pintura mal feita na fachada e/ou se o sujeito do ar condicionado furou mal a parede. O que não se dão conta, por vezes, é que se densifica e engrossa cada vez mais um contingente impressionante de pessoas que não pode se colocar como real perita em nenhum assunto ou prática, porque domina cada vez menos e não consegue ir muito além de níveis obscuros como o de "dá para o gasto" ou o afamado "nas coxas".
Há uma geração toda de pessoas que não sabem basicamente nada se encorpando, a olhos vistos. É uma espécie de analfabeto funcional premium meio assustadora.
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Quando aprendi meus primeiros acordes de violão o amigo que me lecionou alertou para o fato de que estava oferecendo o básico. Não pensei na época em me aprimorar, fascinado pelo fato de que estava de bom tamanho poder mandar um Wish you were here aqui, alguma baladinha romântica acolá, e pela circunstância de que as revistinhas de acordes que vendiam em bancas deixaram de ser um idioma críptico para mim, como aprender outra língua.
(No início desse milênio, na época que entrou em moda uma espécie de 'forró universitário' - ou algo que o valha, e o Grupo Falamansa inundou as rádios com um punhado de umas três ou quatro músicas que acredito eu são as únicas que o conjunto produziu dado que se repetem ad aeternum sempre que a banda é mencionada, lembro de comprar uma dessas revistinhas e decorar os acordes de todas elas - estrutura simples, facílima e catchy - e, plus, o "Esperando na Janela" de Gilberto Gil, no filme "Eu, tu e eles". Fazia sucesso em churrascos).
(Certa vez, inclusive - fato aleatório não exatamente relacionado - eu estava no carnaval do Rio de Janeiro, com um chapéu imitação de Panamá e um rabo de cavalo amarrando meu cabelo à época naquele estágio semi-comprido, e o taxista encasquetou que eu era o vocalista do Falamansa. Uns 20 minutos de corrida, e perguntas insistentes sobre shows, discos e aparições na TV, e ele manteve a plena certeza que o vocalista negava a identidade para fazer algum tipo de charme, e certamente contou aos amigos que levou um famoso naquela tarde porque não teve o que eu fizesse para desmentir sua convicção).
Voltando:
(por sorte) não dependo de minhas habilidades no violão para sobreviver (embora tive alguns êxitos pessoais - já cheguei a tocar guitarra com uma banda em um bar famosíssimo da noite de Porto Alegre - acreditam?) e, sim, eu deveria ter me aprimorado mais para escapar das limitações que um dia começaram a me frustrar no quesito, mas o ponto é, ter habilidades meia-boca em algo que é um hobbie não é em nada nocivo à sociedade (claro: tirando a vez que eu me empolguei treinando uma música e tomando um birinight em uma hora avançada da noite, sozinho em casa, e um vizinho subiu do andar de baixo e espancou a porta em frente pensando que o som vinha de lá. Acompanhei ele com o ouvido na minha porta, pelo olho mágico, tipo filme de terror, para eventualmente investigar algo, dado que o cara da frente jurou de pés juntos que não estava tocando música alguma).
Advogados ruins perdem prazos, e arriscam muito em causas e processos que dão dor de cabeça, custam vidas e muito dinheiro (o que acaba custando vidas em vários sentidos). Professores medíocres, bem, além de formarem alunos fracos, decepcionam e frustram eventuais talentos. Arquitetas ruins, dentistas incompetentes (um, certa vez, me fez usar um aparelho ortodôntico que não piorou - nem melhorou - em nada minha dentição, apenas me condenando a ficar cerca de ano e meio perdendo tempo com aquele castigo na boca), técnicos de informática tolos, eletricistas desleixadas, veterinárias sem noção, psicólogos picaretas.
O piloto do seu avião. A sua cirurgiã.
Entendeu?
(e olha que eu simplesmente odeio aquela questão do Martin Niemöller do "primeiro, levaram os judeus...", porque acredito que é um tipo meio sonso e canalha de ética falsária consistente em você querer impor de forma suntuosa uma empatia na base da ameaça e da consequência individual, mas, enfim).
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Sofro constantemente ao perceber que o mercado de trabalho empurra cada vez mais gente para - naqueles exemplos em que uma marca ou produto vira basicamente um gênero todo - "ser Uber": não pela profissão em si (zero de indignidade, zero de problema intrínseco e inclusive creio que eu seria um dos bons, ainda que milite pela ideia de apenas usar um automóvel quando estritamente necessário - e você se surpreenderia em como é viável viver usando automóveis particulares o menos possível). Mas, sim, pelo fato de que jogar algumas pessoas para "ser Uber" em uma grande cidade é como me colocar na cozinha de um restaurante de alto padrão e dizer algo como "não sabe fazer o próprio almoço? Então: se vira aí. 'É tudo uma questão de costume'. Aqui estão as receitas, ó. E ali ficam as facas".
Daí ocorre o fenômeno: o cara (ou a cara) é simplesmente dependente dos mapas e rotas do Waze ou de outro aplicativo que o valha, porque supostamente depois disso não é preciso saber o nome de rua alguma, de direção de bairro algum e não é mais necessário ter qualquer vivência de trânsito efetiva. "O negocinho te avisa quando tem blitz e engarrafamento". Fofo. Uma pinoia.
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Quase aconteceu e foi mais 'por pouco' do que as outras vezes. Quase perdi o horário na Rodoviária e o valor exorbitante da passagem de ônibus porque 1) o mapinha do app do Uber, se estiver correto, denunciou que o carro levaria seis minutos para chegar na minha casa (e era o black, caso perguntem) e ele levou coisa de nove, dado que faz ao menos duas voltas em ruas/mãos/quadras desnecessárias porque ou o Waze deu pau, ou identificou supostos ganhos temporais absolutamente irreais e hipotéticos e, especialmente 2) porque o caminho para a Rodoviária, que do meu apartamento não leva mais do que dez minutos e consiste em basicamente três linhas retas, foi feito, mais uma vez, com voltas inacreditavelmente desnecessárias que só são explicáveis se a pessoa que dirige for abssolutamente teleguiada e não faz nenhuma ideia de onde está indo.
Acontece frequentemente: há caminhos mirabolantes ao nível do psicodélico que esses carros de aplicativos se embretam e eu não preciso estar com risco de atraso para me desesperar com isso. De uma hora para outra cresceu e muito o número de pessoas que para saber o que tem na esquina de casa usa alguma funcionalidade do celular e já vi pessoas calculando rotas a pé, até lugares conhecidos ou habituais via funcionalidades de GPS.
Na firma, há um vertiginoso número de pessoas que levou a sério demais a perspectiva de "delegar" funções para as inteligências artificiais de modo a simplesmente gerar alguns absurdos gráficos e linguísticos por conta da confiança extrema na "funcionária" - e que são candidatos bem típicos a passarem a dizer que "não há mais como" cumprir certas tarefas sem uso do mecanismo (coisas que pararam de fazer do jeito "antigo" entre semana passada e ontem).
Antes mesmo de discutir a questão da I.A. e os limites recomendáveis de seu uso e avanços, temos que debater a normalização completa de gerações inteiras sem conhecimentos técnicos satisfatórios nem algum tipo de noção quanto à necessidade primal de não ser alguém que não sabe nada, de nada. Não é um fenômeno exclusivo do boom das LLM e generativas, e já vem de muitos anos: há condições materiais bem críveis para possibilitar às pessoas levarem nas coxas absolutamente tudo.
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Acho ok você buscar um socorro rápido no Google para alguma premência cotidiana, como aprender a superar algum obstáculo ou puzzle num jogo de videogame (esses dias um short me ensinou a entrar e sair do 'modo download' do meu celular usando os botões laterais de volume).
Mas quando isso vira uma espécie de marca registrada geral de uma era, não sei: só a mim preocupa demais? Olha o avião. Olha a anestesia.
UM FILME: felicíssimo com Acampamento Miasma, mesmo que eu já tivesse que ter aprendido a lição de que jamais um filme de Jane Schoenbrun entrega a você o que você imaginava, e conduz a história do jeito que você suspeitaria. Depois de "...world's fair" (o título é longo) e "I saw the TV glow", Schoenbrun de consolida como a realizadora mais autoral já vista em muito tempo e não é exagero dizer que é a voz cinematrográfica de uma geração inteira. Ninguém retratou o desconforto consigo (em questão de sexualidade, mas também de inadequação mundana) como ela vem fazendo. Fora que (lá vem clichê): Acampamento Miasma é uma declaração de amor ao cinema como só os maiores cinéligos-reais (fãs de filmes de terror) conseguem fazer. Um primor e uma viagem deliciosa. Embarque.
UM DISCO: eu sei que eles têm disco novo mais recente (ano passado), mas a forma como eu gostei de Lapso, do Menores Atos (de 2018) é especial. Ouvi demais esse álbum e uns dias atrás voltei a ele. Segue me agradando de sobremaneira.
UM LIVRO: bem. Encerrei as excrusciantes 700 e poucas páginas de uma tortura que vinha me açoitando (e há um volume 2 de igual tamanho me esperando). Se tudo der certo, se não cair a República, se não for declarada mais uma guerra mundial ou se o Uber não atrasar dando voltas em vielas desnecessárias, comento sobre isso semana que vem. Stay tuned.