Slide away
- Gabriel
- há 2 minutos
- 8 min de leitura

Eu gosto de São Paulo. Ok, muito. Mas, vamos com calma.
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Gaúchos levam a vida moldados por um dualismo frenético e por uma passionalidade neurótica que na maior parte das vezes incomoda (em que pese tenha seu charme), mal se disfarçando de neura bizarra na maioria de suas manifestações. É uma coisa de uma espécie de camada inconsciente à moda junguiana, que pode ter suas conexões não só pessoais, mas mesmo locais, regionais. Preenchimento peculiar de arquétipos ou raio que o valha.
No sul do sul é comum você manifestar afeto pelas coisas que lhes são caras em um jogo de empurra curioso, onde você exalta a ponto da defesa tribal um elemento, e procura hostilizar, defenestrar, assumir uma espécie de lado da 'briga', quanto ao 'oponente'. É uma terra onde, na onda de uma das melhores piadas internéticas de todos os tempos, o sujeito dizer que adora maçã é, sim, em vários contextos, compreendido como uma declaração de ódio à banana. Até porque o defensor da banana não quer apenas sorver os benefícios e o doce sabor de uma banana caturra - quase madura demais - em paz e, sim, provar que ela é a melhor das frutas e bota no chinelo a pera e o abacaxi - que nem estavam no contexto. Corte da carne (a velha questão entre a maciez 'sem graça' da picanha ou o xucrismo propiciado pela preferência pelo naco mais difícil e com mais personalidade - a costela), Futebol (não é preciso discorrer muito), política (idem a futebol - embora alguns pensem que há facilmente um padrão homogêneo que jamais houve). Tudo é palco para uma disputa pueril (que atinge ares perigosos, não raro) onde a homenagem ao 'meu' anda sempre no fio da navalha de um confronto contra o 'seu'. Por vezes uma idiossincrasia particular, por vezes algo dengoso ou engraçadinho, por vezes um ralar da roda do carro no guard rail asqueroso do fascismo. Enfim.
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Na 'disputa' entre Rio e São Paulo, sempre fui do time do Rio. E sigo sendo, creio que é bem nítido para mim. Ou algo de visível. Mas: a primeira pergunta é: há 'disputa', mormente para quem é de fora? Não são duas cidades em uma (se é que) competição imaginária, onde é mais imaginário (ou perigosamente delirante) alguém ter que 'tomar partido' como se em uma rinha entre turminhas rivais no recreio? (Não tão nítido? Vence por uma cabeça?).
Bem, amava o Rio desde antes de conhecer suas entranhas. Era um jogo de cartas marcadas. Eu amava um Rio meio mítico, meio hipotético. A sorte (ou azar) da minha vida é que nas primeiras vezes em que fui ao Rio, como passarinho que aprende a sair do ninho, a cidade me tratou bem e fortaleceu minhas asinhas iniciantes para que a imagem que fica, a primeira, correspondesse à do sonho. Vieram algumas decepções e perrengues na minha (agora) longa história com o 021, mas o que tatuou foi mesmo a paixão.
Já São Paulo me fez nutrir uma resistência ao mito por mais tempo (até porque matematicamente frequentei menos): o Rio era mar e rochas. São Paulo era trânsito e caras falando daquele jeito que parece a imitação ruim de alguma esquete. O Rio era a malandragem de sorriso no rosto, São Paulo era alguém com a pinta e o estilo (ulteriormente encarnado pelo personagem não exatamente antigo, mas quintessencial), do Boça do Hermes e Renato. O Rio era o campeonato estadual de 1995, e a disputa galhofeira entre os atacantes para ver quem era o "Rei" (Renato, no Flu, se deu melhor sobre um nada desprezível combo que incluía Túlio em sua melhor fase no Botafogo e o baixinho, o manda-chuva do Flamengo à época). São Paulo era o time do São Paulo itself (nota mental: Morum"Bis", pelo amor de deus), sendo adotado como símbolo de bom mocismo apolíneo pela Globo, no começo dos anos 90, para ser substituído pela máquina palmeirense e seus ares vilanescos covardes inundados pelo dinheiro (quase) infinito da Parmalat em outro momento.
Na primeira vez que estive em São Paulo não foi bem uma vez, nem bem um estar, tecnicamente: tinha 17 anos e fui de ônibus (era o que dava, na época) para Brasília (outra cidade importante na minha vida, mas falaremos dela em outra oportunidade) para prestigiar o casamento de minha prima, da parte da família que mora lá. Era madrugada quando o ônibus que saiu de manhã de Porto Alegre cruzou algo que parecia uma de suas marginais e me lembro de guardar na mente o fato de que naquela hora escura, mesmo sem trânsito algum e em um movimento retilíneo constante, a cidade não acabava nunca.
Na primeira vez que estive de fato em São Paulo percebi que estava como que procurando itens para ranço, tal e qual um examinador de auto-escola, e pelas tantas me questionei o porquê de tanta rudeza em algumas análises quanto a lugares, coisas e sabores que estavam caindo tão bem em meu gosto. A resposta foi uma sincera admissão de uma fidelidade passional gauchística ao 'meu lado' na disputa (o Rio), misturada com uma irracionalidade abobada que insistia em tentar fazer a realidade diante de meus olhos se chocar sem sucesso para encaixe com a São Paulo (e o paulista) hipotético que eu guardava como verdade absoluta em um cofre.
O admitir de que São Paulo era legal, interessante, sedutora e bacana precisava fazer eu abrir mão do conforto meio freak em relação às concepções pré-moldadas não por influência direta de ninguém, mas meio que por um tipo inusitado de impeditivo que me fazer não poder de certa forma comer uva de forma a negar minha preferência pela bergamota (mexirica, whatever).
Parece simples, mas é todo um processo. É uma constituição de ser e viver calcada nessa passionalidade e suas circunstâncias. Sou um representante bom (não me orgulho disso) desse tipo de coisa (embora em uma queda livre de 'desconstrução' sem paraquedas já há um bom tempo que é possível dizer que é: muito). Aliás, a proximidade - ou mera potencialidade de aproximação - com qualquer tipo de reacionarismo, mesmo aqueles que parecem mera rabugice ou outra coisa mais amena, me fez ligar vários alertas ao longo dos anos (alguns inclusive poderia ter ligado mais cedo).
Hoje não só não tenho nenhum problema com São Paulo como me empolgo para vir aqui e a coisa mais irônica e sintomática de todas é que frequento bem mais (incontavelmente mais) São Paulo do que o Rio, hoje em dia.
É sexta-feira e você está lendo isso daqui quando eu conto cerca de sete dias hospedado no 'meu' QG predileto na cidade (cercanias da Consolação e da Praça Roosevelt) - e ficarei mais dois - para vir me divertir, por um lado, e prestar compromissos de trabalho, por outro.
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Diz a piada (amada por cariocas) que o 'turismo' (assim como a 'vista') em São Paulo implica em se mesmerizar diante de um mar de prédios de concreto, e só.
Não apenas compro, como ressignifico a piada. Sou o maior entusiasta de que se tem notícia de um tipo de turismo de derive urbana, onde passaria horas a fio munido apenas de uma garrafa d'água andando e andando por entre prédios. Sou bom em notar peculiaridades. Me hipnotizar com coisas singelas. Imaginar cenários e vidas ali supostamente experienciadas. Noto pixações criptografadas, faço conexões, penso em perfis teóricos. Sacadas grandes, prédios de uma riqueza evidente de outrora, agora meio decadente, casas, viadutos, elevadas, esquinas, belas e malditas. Personalidade. São Paulo me atrai de sobremaneira. Tendo tempo, vago como um peregrino por ruas até onde as pernas permitem e até onde haja uma estação de metrô viável no horizonte. Higienópolis, Vila Buarque (cafés chiques), Consolação, Bela Vista, Bixiga, uma escadaria lendária, Liberdade e todo seu clima de cenário de início de jogo de videogame em primeira pessoa, Cambuci, Mooca, uma chaminé, um estádio arcaico. Estação do Brás (estou indo para o lado certo? Sim, Ipiranga é a próxima. Por que lado sai?). Eu vou (Por que não?). Outro lado: sorveterias caras, carros que parecem protótipos, sacolas de compras. Um rio. Vacinas. Uma universidade que é uma cidade. Outro lado, ainda: ruas estreitas e ruas largas tal um marmoreio de gordura. Estádio. Mais um e mais um.
Juro que as opções gastronômicas basicamente infinitas da cidade não são mais do que a segunda coisa que mais anseio quando venho aqui.
Alias: metrô. Eu sou de Porto Alegre, mano. Qualquer cidade que tenha qualquer malha metroviária soa para mim como um pequeno milagre.
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Um dos compromissos da minha estadia (não o de trabalho), foi ver o derradeiro show, da turnê mundial mais ambiciosa, aguardada e inusitada da trajetória de uma das minhas bandas de rock preferidas de todos os tempos.
Basta você receber a informação de que levei muito tempo na vida para aceitar /falar em voz alta que o Blur tem alguma música boa que, creio, todos os termos do texto estarão resumidos. Sim, já me resolvi com isso também.
UM DISCO: no telão instantes antes do Oasis entrar no palco do Morumbi (jamais usarei a sério o outro nome, esqueçam sobre), veiculou a propaganda da Adidas que não era só um anúncio publicitário usando a banda e sua aura, mas, sim, fora quase uma catapulta ou mesmo motivo sincrônico para a reunião dos irmãos brigados desde 2009. A potência da associação da marca alemã ao cenário do rock de Manchester do qual o Oasis é cria direta sem necessidade de teste de DNA fazia daquele comercial uma espécie de statement fortíssimo que atingiu a todos fãs como uma flecha no córtex. Pessoas trajando Adidas vivenciando a experiência de um show de rock ao modo antigo, somadas a referências diretas e subliminares à banda inundavam olhos potencializadas pelo gigantesco sistema de som da turnê onde ecoava Live Forever. Por mais que a turnê celebre a data histórica (30 anos) do lançamento daquele que é o maior êxito comercial dos Gallagher - o segundo disco (What's the history) Morning glory, lar dos estrondosos sucessos Wonderwall e Don't look back in anger, o disco que de fato abalou as estruturas e fez metade dos admiradores de rock/pop do planeta caírem de joelhos (a outra metade, bem, pense gauchisticamente) é o primeiro Definitely Maybe. Ali a insolência, a arrogância, o nariz em pé, o niilismo, a tosquice, a má educação e o tom briguento dos irmãos Noel e Liam seria lido por todo mundo de forma complacente e por mais que eles quisessem fazer parecer que não estavam ligando para nada, o tiro acertou o alvo e todo esse conjunto de características (juntamente com óculos escuros, pose mod rediviva, abrigos de futebol, parkas, chapeuzinhos bucket gozados e cortes de cabelos - bem - questionáveis) se misturou a uma marra de bêbado tumultuador de pub que virou uma febre e tanto (ao menos em Porto Alegre e nosso complexo de exclusão que tenta a todo tempo ser revertido para algo como a ser fonte de tiração de onda e não o contrário, a coisa fez um sentido colossal e absurdo). Definitely maybe é um Oasis que ainda não era a maior banda do mundo, nem de longe, mas se imaginava como tal de um jeito que dava gosto. Nem quando efetivamente passou a ser foi tão, mas tão bom.
UM LIVRO: nossa, estava no avião tentando ler uma colaboração em ficção de um autor que adoro, China Miéville, com Keanu Reeves (sim, o ator, que também é quadrinista, músico e sabe-se lá mais o que). A premissa é uma expansão em forma literária do universo da HQ idealizada por Keanu, BRZRKR. Parecia agradável. Mas não engatou de jeito nenhum (havia começado algumas noites antes). "Folheei" o Kindle e já perto da aterrissagem em Congonhas (que contou com uma lufada de vento e fez o piloto arremeter de forma vertical e desagradável até que pousássemos na pista pelo outro lado) e me confortei com algumas tiradas da coletânea da obra completa do Paulo Leminski que tenho salva no aparelho. Não confortou muito, se é que entendem.
UM FILME: ----nada essa semana ----